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Música Erudita Contemporânea
&
Filosofia Anarquista
Nobody can set you free...
except you.
Na nave espacial terra não
há passageiros. Todos são tripulantes. (Marshall
McLuhan)
Em música, tudo é permitido
(Paul Valery)
O pobre é quem paga o pato,/Judiado
que é um horror.../O rico milionário/Nada faz a seu
favor!/E o pobre somente teme/Porque, quando o rico geme,/O pobre
é quem sente a dor.(Serrador, repentista nordestino)
(Aos maestros, os músicos
de orquestra poderiam alertar e denunciar:)
- "Todo aquele que [pretender] colocar as mãos
sobre mim para me governar será considerado
meu inimigo;
pois...
...ser governado é ser...
...guardado, inspecionado, espionado, legislado, registrado,
recenseado, tarifado, selado, avaliado, regulamentado, encerrado, doutrinado,
controlado, cotado, quotizado, patenteado, licenciado, autorizado, estimado,
apreciado, censurado, comandado, anotado, apostilado, admoestado, reformado,
endireitado, exercitado, espoliado, explorado, monopolizado, espancado,
desarmado, manietado, aprisionado, fuzilado, abalado, mitificado, roubado,
metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, modificado,
vilipendiado, vexado, acuado, maltratado, zombado, ultrajado, desonrado,
desprezado, dirigido, repreendido, impedido, corrigido, oprimido, reprimido,
perseguido".
Veja-se abaixo, um texto descritivo da influência
do pensamento anárquico coletivista na composição
musical contemporânea: Trata-se dos comentários acerca da
peça Proudhonia, de Jorge
Antunes, composta tendo-se como material o famoso texto "Être
gouverné...", do francês Pierre-Joseph Proudhon.
Nas palavras do compositor:
- Em junho de 1972 o G. R. M. (Groupe de Recherche Musicale)
da Rádio Francesa recebeu um convite do Comitê Organizador
do Festival de Música que seria realizado em agosto, na Alemanha,
durante as Olimpíadas de Munique, para ali apresentar, com músicos
da Rádio, obras de seus compositores. Marcel Courad, que dirigia
os Coros da Rádio e o grupo "Les Douze Soliste des Choeurs
de l'ORTOF", começou a preparar obras corais recentes
de Maurice Ohana, Ivo Malec e Guy Reibel.
- Courad manifestou interesse em realizar obras de jovens
compositores estagiários do G. R. M. , e Reibel encomendou-me
uma obra para Vozes e Fita Magnética.
- Na oportunidade eu esboçava capítulos
de minha tese de doutorado (que só viria a defender na Sorbone
em 1977) intitulada "Son Nouveau, Nouvelle Notation",
e para ela eu começava a repertoriar novos efeitos e técnicas
de execução para a voz humana. Atraía-me a pesquisa
em torno da identificação entre alguns sons eletrônicos
e alguns efeitos vocais inusitados. Esta indagação, que
me desafiava a inventar novos efeitos vocais que parecessem "sons
eletrônicos", nascera em Genebra no início daquele
mesmo ano. André Zumback me entrevistava durante uma transmissão
da Rádio Suisse-Romande e, após ouvir um trecho da gravação
de Cromorfonética (para coro misto), me perguntou onde
havia eu realizado a fita de sons eletrônicos.
- Desapontado ficou ele quando lhe informei que a obra
era para Coro a Cappèlla, sem o uso de sons eletrônicos.
Alguns dos efeitos vocais e nasais inusitados que eu usara na obra lhe
pareciam "sons eletrônicos".
- Pretendi então escrever uma obra para Vozes e
Fita, em que os sons vocais e sons eletrônicos se inter-relacionam
constantemente: ora os sons vocais surgindo de dentro dos sons eletrônicos,
ora os sons eletrônicos, de caráter vocal, surgindo das
vozes humanas.
- Na mesma época eu descobria o pensamento de Stirner,
Malatesta, Bakounine e Proudhon. Fascinado com um dos textos do francês
Pierre-Joseph Proudhon, o grande filósofo do anarquismo coletivista,
resolvi explorar, às últimas conseqüências,
a musicalidade de uma de suas magistrais "tirades":
o famoso texto "Être gouverné..."
- Dividi as sessenta palavras em doze conjuntos de cinco
palavras, cada, e reservei cada conjunto de cinco palavras a cada um
dos doze solistas vocais. A obra, escrita para doze vozes solistas e
fita magnética, exploraria, como material sonoro, as sessenta
palavras de Proudhon, com emissões vocais que variariam desde
a célula veloz e vertiginosa, até a intervenção
lenta e gradual.
- O resultado musical provém de uma utilização
exclusivamente musical do texto de Proudhon que, despedaçado
de modo concretista e construtivista, chega a desembocar num climax
em que o coro usa a voz sussurrada, falada e gritada para expressar
os protestos nele contidos. 1
Brasília, 1981
No caso do exemplo acima, o pensamento anarquista participa
da estruturação musical a partir do uso dos vocábulos
do texto de Proudhon. Obviamente, Antunes deixou-se influenciar, ao menos
no plano subliminar, pelo sentido das palavras, optando por utilizar emissões
vocais sussurradas, faladas e gritadas, para expressar o sentido de protesto
das mesmas.
Também o compositor americano John
Cage se deixou influenciar pela filosofia anarquista, mas talvez num
sentido mais amplo e radical que Antunes. O anarquismo musical cageano
vincula-se mais diretamente às filosofias orientais de libertação
do espírito humano (e que, segundo alguns autores (Capra, Zukav,
Bohn), têm consonância filosófica com as descobertas
da ciência contemporânea, em particular com as da física
das partículas) do que propriamente com o pensamento anarquista
ocidental (Stirner, Malatesta, Bakounine, Proudhon). Cage construiu sua
obra sustentando-se em conceitos tais como descontinuidade,
indeterminação e probabilidade, apresentando-se
como o apologista da "desordem fecunda" e da "obra [musical]
aberta". Neste sentido, seria oportuno nos lembrarmos de Humberto
Eco, que elabora as seguintes reflexões em torno do conceito de
"obra aberta":
- A arte moderna, contestanto os valores "clássicos"
de "acabado" e "definido", propõe uma obra
indefinida e plurívoca, aberta, verdadeira rosa de resultados
possíveis, regida e governada pelas leis que regem e governam
o mundo físico no qual estamos inseridos. Propõe e procura
uma alternativa "aberta", que se vem configurando como um
feixe de possibilidades móveis e intercambiáveis mais
adaptadas às condições nas quais o [ser humano]
moderno desenvolve suas ações.2
- Não a obra-definição, mas
o mundo de relações de que esta se origina; não
a obra-resultado, mas o processo que preside a sua formação;
não a obra-evento, mas as características do campo
de probabilidades que a compreende. 3
- Obra aberta como proposta de um "campo de possibilidades
interpretativas, como configuração de estímulos
dotados de uma substancial indeterminação, de maneira
a induzir o fruidor a uma série de "leituras"sempre
variáveis; estrutura, enfim, como "constelação"
de elementos que se prestam a diversas relações recíprocas.
4
- Procura-se, [desta forma], verificar como uma concepção
de obra nasce em concomitância ou em explícita relação
com determinadas impostações das metodologias científicas,
da psicologia ou da lógica contemporâneas.
- O tema comum a essas pesquisas é a reação
da arte e dos artistas (das estruturas formais e dos programas poéticos
que a elas presidem) ante a provocação do acaso, do
indeterminado, do provável, do ambíguo, do polivalente...
(As seguintes colocações, ainda de Eco, vinculam-se
particularmente às proposições da estética
musical cageana, assim como a de grande parte do repertório musical
contemporâneo):
Enfim, [propõe-se] pesquisar os vários
momentos em que a arte contemporânea se vê às voltas
com a DESORDEM; que não é a desordem cega e incurável,
a derrota de toda possibilidade ordenadora, mas a desordem fecunda,
cuja positividade nos foi evidenciada pela cultura moderna, a ruptura
de uma Ordem tradicional que [homens e mulheres ocidentais acreditavam]
imutável e [a identificavam] com a estrutura objetiva do mundo...
Ora, desde que a noção tradicional se dissolveu, através
de um desenvolvimento problemático secular, na dúsvida
metódica, na instauração das dialéticas
historicistas, nas hipóteses da indeterminação,
da probabilidade estatística, dos modelos explicativos provisórios
e variáveis, a arte não tem feito outra coisa senão
aceitar essa situação e tentar - como é sua vocação
- dar-lhe forma.5
Ainda segundo Eco, há uma dialética entre
vanguarda e cultura de massa, que se apresentaria, grosso
modo, como "uma oposição entre o discurso 'aberto'
(vanguarda) e o discurso 'persuasivo' (cultura de massa)."
- O discurso aberto, que é típico
da arte, e da arte de vanguarda em particular, tem duas características.
1.a) Acima de tudo é ambíguo: não tende a nos definir
a realidade de modo unívoco, definitivo, já confeccionado
[...]. O discurso artístico nos coloca numa condição
de "estranhamento", de "despaisamento"; apresenta-nos
as coisas de um modo novo, para além dos hábitos conquistados,
infringindo as normas da linguagem, as quais havíamos sido habituados.
As coisas de que nos fala aparecem sob uma luz estranha, como se as
víssemos pela primeira vez; precisamos fazer um esforço
para compreendê-las, para torná-las familiares, precisamos
intervir com atos de escolha, construir-nos a realidade sob o impulso
da mensagem estética, sem que esta nos obrigue a vê-la
de um modo pré-deterrminado. Assim, a minha compreensão
difere da sua, e o discurso aberto se torna a possibilidade de discursos
diversos, e para cada um de nós é uma contínua
descoberta do mundo. 2.a) A segunda característica do
discurso aberto é que ele me reenvia antes de tudo não
às coisas de que ele fala, mas ao modo pelo qual ele as diz.
O discurso aberto tem como primeiro significado a própria
estrutura. Assim, a mensagem não se consuma jamis, permanece
sempre como fonte de informações possíveis e responde
de modo diverso a diversos tipos de sensibilidade e de cultura. O discurso
aberto é um apelo à responsabilidade, à escolha
individual, um desafio e um estímulo para o gosto, para a imaginação,
para a inteligência. Por isso a grande arte é sempre difícil
e sempre imprevista, não quer agradar e consolar,, quer colocar
problemas, renovar nossa percepção e o nosso modo de compreender
as coisas.
- [...] O discurso persuasivo, ao contrário,
quer levar-nos a conclusões definitivas; prescreve-nos o que
devemos desejar, temer, compreender, querer e não querer. Para
dar um exemplo, se o discurso aberto quer nos apresentar de um
modo novo o problema da dor, o discurso persuasivo tende a nos
fazer chorar, a estimular as nossas lágrimas, como pode acontecer
com uma fotonovela [...]. O discurso persuasivo tende a confirmar
o ouvinte nas suas opiniões e convenções. Não
lhe propõe nada de novo; não o provoca mas o consola.
6
As estéticas musicais que se vinculam à filosofia
e/ou pensamento anarquistas, sejam elas oriundas de uma leitura estética
da filosofia anarquista tradicional, da epistemologia contemporânea
ou de sistemas de pensamento orientais, constituem-se por discursos abertos
que solicitam do ouvinte uma nova postura no que diz respeito à
percepção auditiva e às possibilidades inéditas
de estruturação do material sonoro utilizado, assim como
da forma como esse material é organizado. Desta forma, o discurso
musical contemporâneo - ou ao menos aquele que tem um compromisso
com o desenvolvimento da linguagem musical - é, utilizando-se de
um termo do próprio Cage - "desossificador"; ou seja,
nos desaloja de nossas convicções estéticas, obrigando-nos
a redimensionar - em última instância - a nossa visão
da realidade (no âmbito musical e alhures).
RECOMENDAÇÕES ANARCO-BIBLIOGRÁFICAS
- ALMEIDA, Fernanda Lopes de; LOPES, Fernando de Castro.
O equilibrista. 5ª ed. São Paulo: Ática, 1987.

- CAGE, John. De segunda a um ano. São Paulo:
Hucitec, 1985.
- MACIEL, Luiz Carlos. A morte organizada. São
Paulo: Ground, 1978.
- WOODCOCK, George. Os grandes escritos anarquistas.
3ª ed. São Paulo: LPM, 1985.
- THOREAU, Henry. Desobedecendo: a desobediência
civil e outros escritos. Rio de Janeiro: Rocco, 1984.
LINKS & CONTATOS
- Campanha "A EDUCAÇÃO PARA A NÃO-VIOLÊNCIA". "A Comunidade
para o Desenvolvimento Humano" é uma ONG que desde 1980 vem desenvolvendo
projetos sociais e agora está com a campanha internacional da "Educação
para a não-violência" em mais de 100 países. Buscamos construir uma
rede mundial de educadores humanistas para fazermos uma revolução não-violenta
através da educação. Brasil: www.a-comunidade.org
Chile: www.comunidadchile.cl.
Itália: www.lacomunita.net.
Argentina: www.lacomunidad.org.ar
- >>> Espaço Impróprio <<< Rua Dona Antônia de Queiroz,
40 - Consolação. O Espaço Impróprio é um centro (contra)cultural que
segue os princípios do "faça-você-mesmo". Todo o dinheiro
arrecadado nos eventos será destinado para ajudar a manter o espaço
físico (aluguel, contas, reformas) e para viabilizar outros projetos
(biblioteca, cybercafé, etc.). improprio@riseup.net
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- 1. Extraído do encarte do disco
LP No se mata la justiça, de Jorge Antunes (Sistrum, LPS
3002). Voltar
- 2. ECO, 1991, p. 12.
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- 3. ECO, p. 10. Voltar
- 4. ECO, p. 150. Voltar
- 5. ECO, p. 23. Voltar
- 6. ECO, p. 279 a 281. Voltar
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