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...................................................................................................................................................... 2. A MESSE DE NOSTRE-DAME, DE GILLAUME DE MACHAUT 2.1 CARACTERÍSTICAS DO TEXTO MUSICAL 2.2 A ANÁLISE DO TEXTO MUSICAL Uma das principais e mais importantes tarefas da historiografia contemporânea da arte seja, talvez, procurar retirar dos objetos de arte - produzidos ao longo da história da humanidade - aquilo a que se poderia denominar de "cobertura" ideológica da classe dominante de um determinado contexto histórico-político-social. Conseqüentemente, após se ter empenhado em destituir da obra de arte esses aspectos ideológicos que lhe foram (de certa forma) impostos, a ideologia inerente à mesma virá à tona, emergindo, assim, do envoltório ideológico que a encobria: pode-se, dessa forma, entrar em contato com a sua plena significação estética. A significação original da obra de arte que, não estando mais impregnada pelos artifícios ideológicos da classe dominante - artifícios esses que visam exatamente obnubilar seu potencial transformador e revolucionário - poderá ser devidamente analisada e apreciada. Fazer emergir esse potencial transformador e revolucionário da obra de arte não é, como se poderia supor, tarefa das mais fáceis. Contudo, se situarmos historicamente determinada obra de arte, sairemos da concepção da arte como entidade imanente e a-histórica (um dos principais ardis utilizados pela classe dominante para obscurecer a sua autenticidade estética), possibilitando ao freqüentador, em decorrência, fazer uma leitura da estrutura simbólica da obra de arte, instância necessária para se vincular o indivíduo ao todo da humanidade e ao seu momento histórico. Dessa forma, a tentativa por parte da classe dominante de reduzir a obra de arte à sua própria ideologia; de ocultar aqueles aspectos que colocariam em cheque a realização de seus valores e objetivos; de sacralizar os objetos de arte, separando-os do cotidiano da maioria das pessoas e colocando-as em recintos "sagrados"; enfim, de tornar inacessível ao grande público a experienciação estética, assim como inviabilizar a freqüentação da obra de arte por parte da maioria da população - todos esses artifícios tornam-se ineficazes se se procurar dessacralizar a própria arte, passando a considerá-la uma produção humana idêntica às demais produções. Para tanto, há que se descobrir a obra de arte daqueles aspectos ideológicos da classe dominante, procurando identificar nela a sua ideologia subjacente - que é a ideologia do artista enquanto operador de significação dos reais e verdadeiros anseios da humanidade (ressalvando-se aqui a possível pretensiosidade do mesmo); detentora dos requisitos estéticos necessários para o questionamento da ideologia dominante, podendo até mesmo desestabilizá-la e, numa situação extrema, destituí-la. Tais procedimentos nos capacitaria penetrar na significação própria da arte, permitindo-nos verificar quais obras são submissas à ideologia dominante, diferenciando-as daquelas que são verdadeiramente transformadoras e revolucionárias; e que não estão, portanto, pactuadas com o poder sócio-político-econômico predominante. Por outro lado, ter-se-á também a oportunidade de verificar determinadas produções artísticas que, mesmo expressando a ideologia do poder vigente em determinado período histórico, engendram concomitantemente significações estéticas revolucionárias. Tais significações estariam, ao longo de um determinado espaço de tempo, capacitadas a desestabilizar e a até mesmo destituir a ordem predominante. Tal é o caso da música polifônica medieval européia que, ao inaugurar a noção de tempo métrico na civilização ocidental, foi gradativamente desestruturando a ordem religiosa-eclesiástica dos séculos XIII e XIV, prosseguindo até o advento da criação do método científico moderno, no qual a mensuração temporal desempenha um papel de fundamental importância. Em função dessa relação entre música polifônica medieval e a criação do método científico moderno, procurar-se-á, ao longo deste texto, demonstrar como a estruturação musical polifônica fundamentou os procedimentos científicos surgidos a partir do século XVII: ao longo dos quatrocentos anos que se seguiram às primeiras tentativas de conjugação de várias melodias musicais desenvolvendo-se simultaneamente - o que exigia dos músicos a criação de regras mais elaboradas que possibilitassem a mensuração mais precisa dos valores temporais das notas - a noção de tempo métrico foi gradativamente impregnando a mentalidade da grande maioria da população culta da Europa. Muito significativamente, o século XIV é palco de intensas e profundas transformações tanto sociais quanto políticas, período de crises que repercutirão nos séculos seguintes; e, no âmbito cultural e artístico, momento no qual intelectuais e artistas procuram a diversificação de idéias, novos procedimentos e novas propostas estéticas que marcarão profundamente a mentalidade européia medieval. O movimento artístico denominado Ars Nova, responsável pela estruturação relativamente concisa de um novo método de notação musical, estabelece definitivamente uma nova ordem estética que simultaneamente se identifica com a ideologia eclesiástica predominante e inaugura a polifonia medieval. Ou seja, subjacente ao desenvolvimento simultâneo de várias melodias que aparentemente serviam de forma exclusiva ao poder religioso vigente, encontra-se presente aquele elemento estético e artístico que paulatinamente iria desestabilizá-lo: a noção de tempo métrico aplicado à composição musical que expressa e representa, assim como a ideologia religiosa da Igreja Católica, a ideologia da classe burguesa em ascendência. Ver-se-á, assim, que a tentativa de se criar um método composicional que possibilitasse fixar o mais exatamente possível a duração das notas de uma composição, irá contribuir para a ascendência da burguesia, que terá predominância política, social e econômica a partir da criação e desenvolvimento do método científico moderno iniciado no século XVIII (ou seja, o método científico torna-se, paulatinamente, também uma instrumento de poder e dominação de uma determinada classe social). Para que se possa melhor identificar a presença da mensuração temporal da música polifônica, será descrito o itinerário percorrido pela criação musical européia do século VII (canto gregoriano) ao século XIV (estabelecimento das regras da música polifônica), período no qual a estruturação musical passa gradativamente da homofonia à polifonia. E é justamente no século XIV que uma das mais significativas obras do repertório polifônico será composta: trata-se da peça Messe de Nostre-Dame, do compositor francês Guillaume de Machaut (1300-1377), considerada uma das composições mais representativas da Ars Nova. Dessa forma, a análise dessa composição, aliada a um pequeno estudo do desenvolvimento histórico da música medieval, será o recurso utilizado no presente texto, para demonstrar a presença da ideologia da classe burguesa (em ascendência já a partir do século XIV) subjacente à composição musical polifônica. Ou seja, a noção de tempo métrico que, ao ser aplicada na formulação do método científico moderno, fará deste último um dos principais instrumentos de expansão e dominação da burguesia. A trajetória da homofônia à polifonia na história da música ocidental, inicia-se por volta do ano 600 de nossa era. Por essa época, a Igreja Católica tornou-se a principal potência política do Ocidente e, durante o papado de Gregório, o Grande, procura-se, sob a sua liderança, "unificar o canto da Igreja sobre o modelo romano",1 tendo-se em vista a hegemonia católica de todo o território europeu. Esse ideal hegemônico perpassa os dois séculos seguintes, desembocando na tentativa de unificação da liturgia por parte de Carlos Magno: "dois séculos depois do papa Gregório, Carlos Magno interessou-se pela unificação da liturgia, com um duplo fim político: disciplinar o papado, sempre poderoso, e fortificar a unidade de seu império. Impõe-se aos seus Estados um repertório de cantos de Igreja que julga ser o verdadeiro canto prescrito por Gregório."2 Esse repertório de cantos veio a ser conhecido pela denominação de "canto gregoriano", melodias unitárias e homofônicas que, sob o domínio do poder eclesiástico, procuram expressar o poder político-religioso da Igreja Católica (que durante séculos foi o único foco de criação musical). Muito significativamente, e apesar desse pretenso controle sobre a produção musical da época, o canto gregoriano não serve apenas aos propósitos da Igreja, deixando transparecer também o conflito entre corpo e alma que escapa à tentativa de absolutização, por parte do clero, do sentido estético-musical desse modelo composicional. Essa divisão entre corpo e alma será, séculos mais tarde, uma das principais preocupações do filósofo francês René Descartes que, através de princípios matemáticos, lança as bases do racionalismo científico moderno. Retomando a trajetória do desenvolvimento da música polifônica, durante o século X poucas são as alterações sofridas pelo canto gregoriano, introduzindo-se apenas diálogos entre as melodias, não se alterando, portanto, a estrutura básica homofônica deste modelo musical. No século seguinte percebe-se que a melodia se tornará muito mais interessante e apreciável se uma segunda voz ascendesse ao mesmo tempo em que a voz principal descesse, e vice-versa. Posteriormente, no século XII, o canto gregoriano é dilatado, ou seja, coloca-se entre uma nota e outra uma melodia mais dinâmica e de ritmo mais ágil, além de se introduzir uma diferenciação de andamento entre as várias vozes. No século XII, prevalece um tipo de composição em que as melodias diferenciam-se e, portanto, não são mais as mesmas nas várias vozes. Ou seja, os vários segmentos melódicos desenvolvem-se interdependentemente, necessitando-se de uma notação musical mais rigorosa que propiciasse a valoração do tempo de cada nota. Esse tipo de composição, ou moteto, como vieram a ser conhecidos posteriormente, "constituem o verdadeiro lançamento da música polifônica3 que, por sua vez, irá predominar no cenário musical europeu de forma mais efetiva a partir do movimento denominado Ars nova, já no começo do século XIV. Durante esse século, as regras composicionais da música polifônica são definitivamente estabelecidas, assim como a leis básicas de mensuração temporal da música que irá predominar durante os quatro séculos que se seguirão, culminando no sistema tonal, plenamente estabelecido na passagem do século XVII para o século XVIII (significativamente, este fato coincide com a consumação do método científico contemporâneo, conseqüência da aplicação empírica, a nível científico, do modelo de metrificação temporal desenvolvido e praticado no âmbito da música ao longo dos séculos anteriores). O século XIV é marcado por profundas crises e transformações em praticaamente todos os setores da atividade humana, momento no qual a erudição predomina sobre o pensamento poético e contemplativo, sendo mais empírico do que nos períodos anteriores. No âmbito da música, os compositores procuram complexificar os procedimentos composicionais, assim como estabelecer, também, todas as combinações sonoras e rítmicas possíveis. O compositor Philippe de Vitry, um cônego político de idéias artísticas não convencionais, publica um tratado sobre composição musical chamado Ars nova musicae, do qual deriva a denominação da música desse época; ou seja, a Ars nova propriamente dita. A possibilidade do surgimento dessa nova polifonia e de suas intrincadas tramas melódicas deu-se graças aos progressos da notação musical. Um dos compositores que mais se destacou na utilização das novas regras polifônicas foi o francês Gillaume de Machaut, mestre de teologia e secretário do rei da Boêmia. Machaut é extremamente cuidadoso na finalização e no acabamento de suas obras, representando o ideal da época que era exatamente o de se ter mais esmero com o que se pretendia criar em termos artísticos. Procura-se, assim, a perenidade da obra de arte e, sobretudo na música, a preocupação maior é que esta seja um monumento artístico durável que sobreviva aos infortúnios do tempo. Uma das principais obras de Gillaume de Machaut é a Messe de Nostre Dame, considerada uma das peças musicais mais representativas do período, cuja estrutura composicional expressa de forma contundente o complexo jogo polifônico das várias melodias e vozes de sua tessitura musical. Ao se descrever a seguir, e num primeiro momento, essa etapa do desenvolvimento da música ocidental que se caracteriza por ser um longo processo em que uma forma musical monódica, sucessiva e "horizontal" - o canto gregoriano - se transforma, através do emaranhado polifônico de várias vozes desenvolvendo-se simultaneamente - ou seja, na música polifônica propriamente dita - passar-se-á, em seguida, a análise da peça supracitada. Procura-se-á, a partir da hipótese levantada na Introdução do presente trabalho, destacar os principais elementos estruturais presentes nessa obra que mais evidenciam a suposição de que a Messe de Nostre Dame expressa aspectos da ideologia clerical dominante, e abre novas possibilidades de transformação do poder vigente - ao mesmo tempo em que se encontra subjugada à ordem eclesiástica da época. Essa obra de Gillaume de Machaut sintetiza esteticamente todo o momento histórico em que foi composta, além de estabelecer os fundamentos essenciais do método científico moderno, "um dos instrumentos de dominação da classe burguesa". Ou seja, a noção de tempo métrico pela primeira vez aplicado de forma empírica: é exatamente essa noção de mensuração temporal que vem a ser a ideologia (ou a sua expressão estética) subjacente ao manto obnubilador ideológico da classe clerical dominante que impregna a produção musical da época. 2. A MESSE DE NOSTRE-DAME, DE GILLAUME DE MACHAUT 2.1 CARACTERÍSTICAS DO TEXTO MUSICAL A Messe de Nostre Dame, de Gillaume de Machaut, escrita em 1367 para a coroação do Rei Charles V da França, apresenta-se como uma obra de vulto e importância excepcionais. Machaut parece ter sido o primeiro compositor a estabelecer "movimentos" distintos e interdependentes para uma composição: no caso da obra em questão, Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus (com Benedictus) e Agnus Dei , todos em forma de moteto, criando, assim, um modelo e uma forma musical que servirá de padrão a todos os compositores que sucederão. Essa obra vem a ser a composição que mais caracteriza a Ars nova, sendo que nela são empregadas complexas regras contrapontísticas, que trazem em si uma das características decisivas para todo o desenvolvimento da música dos séculos seguintes: a notação relativamente precisa das vozes e a mensuração do tempo; ou seja, o desenvolvimento da escrita musical. Gillaume de Machaut escreve os motetos da Messe de Nostre Dame, fazendo-os "adquirir fisionomia temática, lógica de desenvolvimentos, evidência plástica e profundidade expressiva." 4 Com essas características a forma musical da missa "ganha uma unidade que é garantida pela circulação periódica de algumas células rítmicas e de um motivo melódico." 5 As cinco partes da Messe de Nostre Dame são marcadas por uma poderosa superposição de vozes melódicas que se desenvolvem contrapontisticamente: tomando-se como base o canto gregoriano, com texto litúrgico em latim, sobrepõem-se-lhe uma segunda e uma terceira voz (moteto e triplum, respectivamente), chegando-se em alguns momentos à superposição de até quatro vozes. Os vocábulos do texto são executados nas vozes superiores, sendo que a melodia apresenta-se mais dinâmica em sua rítmica do que o canto gregoriano que a sustenta. O jogo polifônico caracteriza-se, assim, por uma sofisticada forma de manipulação do material sonoro e uma complicada notação musical para os padrões da época: evidencia-se uma mistura altamente elaborada de ritmos, vozes, melodias e índices sociais, na qual se procura experimentar livremente possibilidades inéditas de superposição e paralelismo musical. O novo estilo polifônico presente nesta peça encontra-se diretamente vinculado ao desenvolvimento urbano, associado às contribuições dos moradores dos burgos - os "burgueses" - e aos senhores feudais (que agora despontam como detentores do poder, ultrapassando as limitações artísticas e ideológicas da Igreja Católica). Sendo a obra musical que mais significativamente representa esse período histórico, a trama polifônica da Messe de Nostre Dame "[...] desenvolve-se [...] no interior da formação econômico-social do feudalismo, conjugada com a cidade medieval, ponto de emergência da produção artesanal autônoma. [...] Essa autonomia do trabalho artesanal urbano, que tornará possível a formação da categoria do trabalho livre, tem relação [...] com o desenvolvimento do trabalho de composição polifônica escrito, autoral, dando ênfase à autonomia da linguagem musical." 6 A estrutura polifônica da obra em questão deixa patente essa aproximação entre o momento histórico no qual foi produzida e a sua autonomia estética que procura expressar o momento de humanidade que lhe é inerente. As vozes dos motetos que compõem os seus cinco movimentos apresentam-se entrelaçadas e defasadas, misturando-se em um conjunto de partes não simétricas que são, por sua vez, associadas dinamicamente umas às outras. Desta forma, essas vozes opõem-se ao agora fragmentado canto gregoriano que os sustenta. Essa complexificação do jogo polifônico, que de certa forma "encobre" o texto do canto gregoriano, obscurecendo-o - além de solicitar uma notação musical mais exata e precisa -, expressa esteticamente as novas e várias perspectivas que se descortinam para a sociedade da época, além, é claro, de preocupações estéticas e composicionais relativamente inéditas. Assim, a fragmentação melódica e dos tenores (do canto gregoriano, portanto), o "espalhamento" das linhas melódicas em pequenos módulos rítmicos e as modificações dos modos gregorianos tradicionais, representam e expressam esteticamente a desestabilização político-teológica da Igreja Católica. Esses elementos "desorientam" o modelo musical eclesiástico, fundamentado na "harmonia das esferas" (Ver notas 1 e 2, Apêndice ). Em função das inovações estruturais presentes na Messe de Nostre Dame, o antigo modelo musical do clero - homofônico e unitário - pode ser considerado não mais como sendo apenas de caráter cosmológico musical, mas sim como portador de aspectos sobretudo ideológicos que procuravam perpetuar a hegemonia e o poder da Igreja, agora abalados pela ascenção da classe burguesa (classe social esta que iniciava a sua trajetória em direção à tomada do poder, fato consumado séculos mais tarde). Necessária e obviamente, as preocupações de Machaut ao compor a Messe foram predominantemente musicais e composicionais. No entanto, como toda grande e autêntica obra de arte, ela expressa e ao mesmo tempo ultrapassa o seu momento histórico, dando continuidade ao projeto existencial da humanidade como um todo. Posto isto, pode-se identificar nesta obra três características fundamentais que se apresentam em simultaneidade: 1.a) a síntese e a confluência, em termos estéticos, do momento histórico em que foi produzida, representada aqui pelo canto gregoriano como linha melódica de base, embora fragmentada (poder eclesiástico), e pela diversificação rítmico-melódica das várias vozes (transformações sócio-político-econômicas e rompimento desestabilizador da ordem clerical); 2.a) a representação do rompimento da classe feudal como o poder religioso unitário vigente e novos direcionamentos políticos, sociais e econômicos (diversas vozes desenvolvendo-se paralela e simultaneamente); 3.a) o ultrapassamento de seu momento histórico, pela antecipação (estética) do método científico em bases empíricas, e os fundamentos do que viria a ser o sistema tonal (desenvolvimento da notação musical expresso na fixação das alturas e na mensuração temporal). 2.2 A ANÁLISE DO TEXTO MUSICAL Passando-se agora a alguns detalhes analíticos da partitura propriamente dita, percebe-se que toda a peça sustenta-se sobre a linha melódica do tenor, remanescente do canto gregoriano. As demais vozes são intercaladas entre as suas notas, desenvolvendo-se um jogo polifônico ágil e dinâmico, com um alto grau de complexidade rítmica (que se contrapõe à linearidade do canto gregoriano). A Messe de Nostre Dame foi inteiramente composta sobre um cantoçhão, como era costume da época. Esse cantochão, porém, foi utilizado como tenor ou cantus firmus. A tessitura polifônica se nos apresenta como se insurgisse do padrão do canto gregoriano que, concomitantemente, participa contrapontisticamente da trama polifônica das vozes superiores. E, muito embora durante toda a peça essas características apareçam de forma contundente, é na parte final do Sanctus, denominada Benedictus, que tais aspectos se apresentam mais evidenciados. Essa trama polifônica prolonga-se por toda a peça, e se caracteriza por um traçado rítmico que se desenvolve ciclicamente, mas retornando com periodicidade. Cria-se, desta forma, um ritmo padronizado ou isorritmo; cada delineamento rítmico, por sua vez, recebe o nome de talea. As demais vozes se entrelaçam abaixo e acima do cantus firmus. Essa característica da peça apresenta-se, no contexto da hipótese aqui apresentada, como sendo extremamente significativa, se se levar em conta que, analogamente, o poder eclesiástico - aqui simbolizado pelo canto gregoriano - se encontrava sutilmente envolto pelas perspectivas sócio-político-econômicas da burguesia em formação, o que veio a ser o principal motivo de sua desestabilização. Um outro composicional utilizado pelo compositor é a fragmentação melódica, ou hoqueto - que se relaciona, do ponto de vista sócio-ideológico, com a fragmentação do poder eclesiástico e a diversificação de idéias no século XIV - propiciando a estruturação de segmentos melódicos extremamente reduzidos que, separados por pausas, delegam a obra uma singular pulsação rítmica. O hoqueto, sendo associado às duas vozes do pentagrama superior, caracteriza-se por um discurso melódico em forma de síncope contrapontística. O extrato abaixo reproduz a parte final do Sanctus, denominada Benedictus. Em seguida, é apresentado um glossário com os símbolos geométricos utilizados na análise, e um quadro sinótico que procura estabelecer uma comparação entre os elementos estéticos inerentes à obra e os equivalentes sócio-ideológicos subjacentes à estrutura da partitura, numa tentativa de se ter uma visão global das relações entre as significações estéticas da obra e o momento histórico-social no qual foi produzida.7 Os aspectos estruturais evidenciados são associados a outros elementos, numa tentativa de situar a obra em questão em um contexto analítico mais amplo e de maior complexidade. Extrato final do Sanctus, denominada Benedictus, da Messe de Nostre Dame (1367), de Gillaume de Machaut (extraído de BENNETT, 1986, p.20). O glossário abaixo indica o significado dos símbolos geométricos e linhas utilizados como convenção para a análise musical.
![]() Periodicidade rítmica; repetição diferenciada de padrões rítmicos; padrões rítmicos constituintes das taleas. ...................................... ..... Início e término das taleas. ............ ..... Isoritmos; grupos de padrões rítmicos repetidos diferenciadamente nas quatro vozes polifônicas. ........ Grupos de padrões rítmicos repetidos diferenciadamente nas duas vozes superiores. ![]() ....... .... Canto gregoriano, estruturado como cantus firmus e como tenor. Sua linha melódica tem por função sustentar o desenvolvimento do jogo polifônico e simultaneamente dele participar, em função da complementação da melodia que se desenvolve próxima a ele em intervalos específicos. Sua melodia é fragmentada pelo jogo polifônico. ... ... Texto litúrgico no desenvolvimento melódico superior, muito embora a complexa trama polifônica ganhe maior evidência pela diversificação das vozes. ................ ....................
......................................................................................................................................................... Toda produção artística, embora impregnada pelas características de seu momento histórico específico - e, eventualmente, pela ideologia da classe dominante de determinado período -, é, não obstante, portadora de uma autonomia em relação a esses fatores, que a qualificam como uma produção humana repleta de significações estéticas e existenciais que proporcionam o ultrapassamento do momento histórico no qual foi engendrada. No caso da peça analisada no presente trabalho, as relações sociais do período medieval ontegram simbolicamente a sua estrutura composicional, sobretudo pela presença do canto gregoriano (homofônico, linear e centralizador, atuando como base para a polifonia) e do texto litúrgico, além da dinâmica rítmica e da diversidade melódica (expressando a nova ordem social urbano-burguesa). Contudo, essas relações sociais não condicionam necessariamente a estrutura significante subjacente à peça; ou seja, o momento de humanidade que está além de qualquer disputa entre classes ou grupos sociais: as significações inerentes à esfera existencial e da experiência de vida que ultrapassam qualquer momento hisstórico específico. 8
A Messe de Nostre Dame, a obra de maior envergadura da polifonia européia medieval, sintetiza a noção de tempo métrico que, subjacente à ideologia clerical dominante, expressou os anseios e expectativas de grande parte da população européia da Idade Média, ou seja, a instauração de uma nova ordem sócio-político-econômica que possibilitasse a realização desses anseios - subverta, assim, a "consciência dominante" da época. A instauração dessa nova ordem se deu apenas quatrocentos anos depois da criação do sistema polifônico, sendo que o método científico moderno foi um dos principais instrumentos de dominação da classe burguesa. A burguesia começa a ascender já no seçulo XIV, e a plicação teórico-prática da mensuração temporal do jogo contrapontístico da música polifônica irá se impregnando lenta e gradativamente na mentalidade de homens e mulheres da Idade Média. A influência dessa música extrapola os seus atributos estéticos: A motivação dos músicos medievais não era nem científica nem filosófica [muito menos social ou ideológica]. Eles apenas queriam aprender que espécie de música podia ser criada combinando-se várias linhas melódicas, e que leis governam essas relações. Mas essa música gerou um impacto muito além da esfera artística. Registros contemporâneos não o refletem, uma vez que ninguém estava consciente dele. A mudança foi em percepção, não em conceitos [sem grifo no original]. No entanto, na teoria da polifonia é que os problemas da medição do tempo real foram estudados em primeiro lugar, e as soluções aplicadas, e foi em sua prática que uma civilização emergente se educou para perceber o fluxo do tempo como um processo que não era derivado do Sol ou da Lua ou do movimento de corpos ou de qualquer outra causa primária, e que podia ser tratado da mesma forma que uma dimensão espacial. E, já que essa percepção era indispensável à evolução da ciência moderna, a música polifônica pode reinvidicar ser um de seus pais."10 Mesmo estando a produção musical polifônica vinculada ao poder sócio-político-econômico da Igreja, a polifonia de Messe de Nostre Dame deixa transparecer a ideologia inerente à sua estrutura composicional. A sua força e o potencial transformador e revolucionário, contudo, apenas se consumarão séculos mais tarde, com o acvento da ciência moderna e seu método empírico. Para aqueles que julgam ser a arte da música apenas uma mera diversão ou um mero passatempo - ou, ainda, um empreendimento humano carente de significações transformadoras da realidade - têm, no exemplo da obra analisada, a mais expressiva demonstração de que a música está significativamente qualificada a operar profundas transformações, não apenas a nível estético e/ou artístico, mas em áreas do conhecimento que aparentemente não possuem relação direta com seus procedimentos específicos. _______________ NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 7 Torna-se inevitável associar o sentido e o significado musical deste termo ao fato de que Igreja Católica procurava se firmar como poder político-eclesiástico diante de um contexto sócio-político-econômico em transformação e que ameaçava o seu domínio. 8 Muito embora, no caso da obra analisada, a mensuração rítmica tenha servido, segundo a hipótese levantada, aos futuros propósitos sócio-político-econômicos da classe burguesa. 10 SZAMOZI, 1986. p. 113. E continua o autor às páginas 12 e 95: "a idéia de usar os sentidos para encontrar a lei e a ordem numéricas no tempo e no espaço deu origem às ciências. Mas a idéia propriamente dita surgiu não das ciências, mas das artes. Cerca de quatro séculos antes do nascimento do método experimental em física, a música polifônica evoluiu na Europa ocidental e trouxe consigo o sistema de notação para ritmos musicais medidos. Esse sistema tornou possíveis as primeiras medidas de tempo simbólico precisas na história, baseadas em números e independentes do ambiente. Seu sucesso mostrou, convincentemente, que era possível usar números para descrever a passagem do tempo, medindo pequenos intervalos de tempo de maneira precisa e confiável. Portando, muito antes queo o tempo métrico ou matemático tivesse sido inventado, definido, usado e estudado na ciência, já havia sido inventado, definido, usado e estudado por músicos." "[...]Não importando quão simples e auto-evidente o tempo métrico nos pareça hoje, é realmente um constructo mental complexo e totalmente abstrato, afastado e até mesmo contrário à experiência humana, interna ou externa. O que para nós agora é evidente foi uma noção revolucionária que fez sua primeira aparição no século XIII e se tornou uma das pedras fundamentais da civilização ocidental. Pois, sem o tempo métrico, a ciência, a tecnologia e a indústria nunca poderaim ter vindo a existir." |