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  • MÚSICA ERUDITA CONTEMPORÂNEA

    A denominação Música Erudita Contemporânea (ou, na especificação mais precisa cunhada por Flo Menezes, "a prática erudita da composição contemporânea") delimita esteticamente um objeto de pesquisa, definindo uma área dentro da tradição musical do Ocidente que se inicia com as primeiras tentativas de notação musical (c. Séc. XIII). Este fato representa o passo inicial - no âmbito da história ocidental - para se passar da noção de tempo marcado para a de tempo medido; ou seja, para a abstração da noção de tempo. 1

    Assim sendo, o repertório da Música Erudita Contemporânea - no contexto da perspectiva aqui apresentada - caracteriza-se por incluir peças musicais que são - direta ou indiretamente - devedoras de uma tradição musical que se iniciou no continente europeu há aproximadamente setecentos anos; e que vem desenvolvendo-se ao longo desses séculos como uma das formas de expressão artística que mais signficativamente expressa - do ponto de vista estético - os momentos sócio-político-econômicos da historia ocidental.

    Contudo, esta contextualização cultural não retira dessa tradição musical a sua relativa autonomia como expressão artística: diferentemente dos demais setores, a música não possui um suporte físico palpável - como é o caso, por exemplo, da pintura ou da escultura -, o que aumenta o seu poder de abstração formal.

    A Música Eletrônica, muito embora apresente traços de uma ruptura com essa tradição, representa uma conseqüência estética (obviamente não determinística) dos vários períodos que a precederam, e não faz referência ao mero uso de instrumentos e/ou aparelhos eletro-eletrônicos. 2 Este fato se evidencia, por exemplo, na citação de Schoenberg - criador do método de composição (1923) que viria ser, anos mais tarde, a principal motivação dos pioneiros da Música Eletrônica "pura"- daqueles compositores que o influenciaram na formulação do serialismo. 3

    A tão decantada inacessibilidade do repertório de Música Eletrônica talvez advenha do fato de se desconhecer as motivações sociais, culturais e econômicas que influenciaram as alterações estéticas (e vice-versa) do modus operandi do fazer musical: a Música Eletrônica, simultaneamente ao fato de ser uma expressão artística e um gênero musical, apresenta-se como uma forma de conhecimento. Isto não implica no fato de que esta música deva ser explicada para que ocorra uma adequada fruição estética; mas sim que, estando concomitantemente vinculada a uma perspectiva científica (os compositores geralmente são acompanhados por um engenheiro acústico; isso quando eles mesmos desempenham as duas funções), esta última esteja integrada ao seu discusro estético.

    Ou seja, além do conhecimento musical propriamente dito, há a necessidade de se utilizar e aplicar conhecimentos científicos na produção dessa música. Conseqüentemente, ao ser executada, a Música Eletrônica impregna suas características estéticas de um determinado saber científico. E é aqui que o discurso estético entra na elucidação das motivações e circunstâncias que tiveram seus compositores na sua criação. Embora não obrigatoriamente necessário, esse discurso desempenha, via de regra, um papel fundamental na fruição prazeirosa da Música Eletrônica sem, no entanto, comprometer aqueles atributos que também a tornam uma forma de conhecimento. Tal conhecimento apresenta-se como um qualificativo a mais nas possibilidades da Música Eletrônica de desempenhar o que parece ser a principal função de todo produto artístico: ser doadora de sentido estético para a realidade sócio-cultural daqueles que a freqüentam; uma categoria de sentido que não se apreende por intermédio exclusivo da razão, mas sim através de uma entrega consciente aos seus atributos estéticos.

    _______________

    Notas
     
    1 Ver SZAMOSI, 1988, p. 91-113.

    2 Ver citação de Flo Menezes no texto sobre Música Eletrônica.

    3 Ver LEIBOWITZ, 1981, p. 41-3.

     
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    Created and Edited by Paulo Motta
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