• TrêsCorpos : MúsicaDançaPoesia

    "TrêsCorpos: não é movimento, não é fratria, não é confraria, não é manifesto. Somos nós, entrelaçados." (André de Freitas SobrinhoI)

    "Na arte contemporânea o ordinário não precisa se transformar em extraordinário para adquirir um valor estético." (Barbara Formis)

    “Não há nada mais previsível do que o acaso: ele sempre acontece.”

     

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    Descrição

    O evento multimídia TrêsCorpos é um trabalho processual desenvolvido em Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, por Raissa Ralola (dança), André de Freitas Sobrinho (poesia) e Paulo Motta (música eletroacústica). Surgiu a partir de um convite de Paulo Motta a Raissa e André - motivado por assistir uma apresentação da primeira e pela leitura de um texto poético, do segundo) para participarem de uma apresentação (que inicialmente seria individual) integrada ao projeto Anfitearte (a convite dos integrantes do projeto), criado e desenvolvido pelos alunos Rafael Roque Leite e Rafael Miranda Meireles (do Curso de Filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora). Posteriormente, a Faculdade de Letras (FALE) e o C.A. do Curso de Letras (CALE) sugeriram que o evento fosse realizado no Anfiteatro dessa faculdade. Este trabalho solo de Paulo Motta progrediu, então, para um trabalho conjunto (posteriormente denominado TrêsCorpos), no qual cada participante se responsabilizaria por sua área artística específica. O desenvolvimento do trabalho se deu, assim, pela colaboração mútua entre seus participantes, sem que algum deles deliberasse definitivamente os desenvolvimentos individuais dos demais integrantes. Tal característica qualifica o trabalho como sendo colaborativo e interdisciplinar, no qual cada gênero artístico se deixa perpassar pelos demais, criando uma atmosfera propícia à integração estética.

    "A poética componente de TrêsCorpos": texto-palavra do poeta acerca do evento

    Quando me foi proposto participar do TrêsCorpos eu começava a respirar na saída de um conceito afunilado, na saída de um corpus em que havia começo, meio e quase fim: projeto de um livro construído para existir teleologicamente. A empreitada oferecida por Paulo Motta era diversa da anterior: texto de afetividades, mas efetivamente relação com linguagens. Um conceito aberto, em que texto, música, imagem em dança agiriam com autonomia, encontrando sentido em quem especta. Pensando na proposta, coloquei em curso o que encontro como sentido: o vão do verso. Espaço lacunar: espera de complementariedade, embora não-passiva; criação do assistente ator-autor; platéia que não se amoldura; leitor-eleitor co-partícipe, co-motor. Espera-se. O corpo: aceno cênico e poilissêmico; o som: acento no espaço. No terreno das dúvidas: suporte. Os cavaletes que amparam e suportam os textos de hoje, seja em modo eletrônico ou enlivrado, talvez tanham limitado o universo fônico da poesia. Não é problema recente; é desde império impresso. Nasce então oportunidade de remeter a performance ao estado primeiro da poesia, voltar ao lírico... mais dançarina colírica; mais timbres de colagem. Música, não canção. Palavra em forma, restituída ao direito de ser voz. Voz qual acontecimento reverberada em alteridade.

    Multi-Impressões pré- e pós-monitivas I (Multi-Impressões Meta-Premonitivas I)

    O movimento do corpo da dançarina movimenta o silêncio do espaço à sua volta. Impregna o movimento dos sons dos instrumentos musicais e se amálgama com a espacialização dos sons eletrônicos pré-gravados. O instrumentista se movimenta no palco e no auditório, entre os freqüentadores. Os sons se movimentam pelo espaço cênico, agora não mais restrito a área do palco. O corpo do instrumentista se movimenta pelo espaço cênico ampliado. O corpo do instrumentista se movimenta e amplia o espaço cênico. O corpo do poeta se movimenta estaticamente em sua fala e sua poesia caminha por entre os freqüentadores. O movimento do corpo da dançarina afeta os corpos do poeta e do instrumetista. Os movimentos dos corpos se afetam mutuamente. Dança, poesia e música não são "coadjuvantes". A música acontece não como "música de fundo" para "ilustrar" a poesia e a dança. Dança e poesia compreendem-se como sendo autônomas, assim como a música: eventos que acontecem simultaneamente, corpos que se afetam nos sons da palavra, nos sons da música, no silêncio volitivo do corpo da dançarina. Modulações. Em suas autonomias, poesia, música e dança afetam-se. Intertextualidade. A poesia, já escrita, acabada, é modulada e alterada na leitura, sempre com novas e inéditas inflexões (f)vocais: dos três corpos estéticos, é o único que se apresenta pré-determinado em sua escrita. Talvez por isso o poeta tenha optado por lê-las sentado em uma cadeira, de frente para o público: a platéia se transforma, assim, em seu palco. Determinação e indeterminação. Modulações. Inversões. O músico dialoga com os sons pré-gravados em suporte fixo e com a poesia e a dança. Triplo direcionamento. Três corpos físicos: dançarina, poeta, músico. Três corpos estéticos: poesia, dança, música. Seis corpos. Imanência transcendente. Transcendência imanente. Os três corpos físicos trancenden-se continuamente a si mesmos e se metamorfoseiam na construção permanente dos três corpos estéticos. O sentido silente dos corpos. O sentido silente e invisível da dança. O sentido silente e invisível da poesia. O sentido silente e invisível da música. A invisibilidade do sentido aparece no corpo-dança silente, no corpo-música silente, no corpo-poesia silente. O aparecer do sentido, no entanto, não o torna visível, não o torna audível: o sentido aparece mas, não obstante, permanece invisível, silente; o sentido é sentido na percepção, pois percepção requer o envolvimento dos sentidos com o que se percebe. Os pés da dançarina tocam o solo, produzem sons e rompem o silêncio da dança movimento. Som sem som. Audição, escuta, movimento, visão: sentir com os sentidos. Volição. A poesia rasga a pele: "lã de zinco". Sangramento de sons-movimentos. Os sentidos sentem com a escuta, com a visão, com o olhar, com o tato. Alternâncias. Metamorfose.

    Diante do olhar do poeta, sentado em uma cadeira no palco, a plátéia se trasforma em palco no olhar invertido dos olhos do poeta. O poeta observa os movimentos da bailarina. Pausa na leitura do texto. Silêncio do verbo. O ritmo das palavras, reiniciadas, servem à imaginação. Não linearidade da leitura dos textos poético. O músico vê o corpo da bailarina-dançarina como uma partitura mutante e informe. Seus movimentos pontuam a execução de um instrumento percussivo, que procura acompanhar as nuances e rupturas criadas no espaçõ pelo corpo da bailarina-dançarina. Contraponto corpo-som.

    Impressões poéticas I

    Impressões poéticas: o poeta dedica versos à bailarina-dançarina:

    Solo Sem Som
    Para Raíssa Ralola (em vias de TrêsCorpos), por André de Freitas Sobrinho

    Houvesse visto antes
    calava a folha.

    Nu no cru da pele
    languidedos mudos tateiam
    invisível de cordas rebatidas...
    ................como quem fere
    .....................................A Mira
    .....................................e
    .....................................A Derrubada.

    Em meus sentidos frouxos
    vendo ouvi seus movimentos
    triscando mostarda o vento da sala
    mobilizando mobílias e zodíacos

    Daquela seca símica glossária.
    Pendulando-lá no entre-trovão teclar
    engritei o grito...

    Dentro do rouge rubi rugido
    cri co-movido então do ente:
    ..............Só as penas do corpo são contemporâneas
    ..........................e Dançarinas não vestem alfaiate.

    Impressões poéticas II

    Impressões poéticas: o poeta dedica versos ao músico:

    Chão de Eletro-Acústica
    Para Paulo Motta, por André de Freitas Sobrinho


    faz
    torta a via entende
    tímpanos conclusos
    da nota de uma chícara fraturada

    aialasalaia-Sus! Tendes vocalize

    Itervalos
    ...............em
    Seqüências
    ...............finismundo do silêncio

    Dedos
    gestos de luz
    ardem
    de agudas nervuras
    e grávidas cordas graves

    peso
    de não-
    conter
    o
    vento
    a fibra
    a mira
    imastigável
    nas muradas do verbo

    mar vem...
    sim vem...
    vem agora
    vem, mas de frente...

    ..........................que verso só me aborrece.

    Multi-Impressões pré- e pós-monitivas II (Multi-Impressões Meta-Premonitivas II)

    Sentimo-nos todos artística e esteticamente perdidos, em uma busca inexorável pela construção permanente de sentidos e verdades artísticas e estéticas que insistem permanentemente em escapar aos nossos sentidos. Buscamos caminhos, todos nós, no próprio caminhar, talvez sem o saber. E esses caminhos impermanecem sob nossos pés. Sentidos fugidios e estilhaçados que a noite da contemporaneidade, da existência e da cotidianidade transformam a todo instante em espaços inabitáveis e em (a)temporalidades não mensuráveis. Finitude do transcender. Impermanência do supostamente palpável e visível. As palavras não comportam e não apreendem mais - se é que em algum momento de nossas trajetórias existenciais comportaram e apreenderam - as nuvens transientes dos significados que se transformam de momento a momento em insubstancialidades. Distância entre o verbo e a intangibilidade dos acontecimentos. A impossibilidade do silêncio repleto de sonoridades e movimentos inaudíveis e estáticos. Extáticos. Perplexidades. Encontros na transitoriedade. A forma (in)tangível do corpo que se move e movimenta os olhares... Perplexos...

    O corpo é aparentemente sempre o mesmo em todos os corpos, mas seus movimentos nos fazem escutar e ver suas singularidades únicas (redundâncias do dizer...), intransferíveis a outros corpos mas, não obstante, compartilháveis no olhar, nos gestos (corporeidades) e dizeres sempre deficitários diante da permanente mutabilidade do Sensível. O corpo - finito e factível - é escravo da "alma" que, por sua vez, pulveriza a todo momento a pretensão do verbo (spiritus, "vento", "ar") de querer esgotar os sentidos, irremediavelmente emanentes. Imanência. Sentidos: inseparavelmente contidos, mas não estáticos, na "natureza" de um ato, de um agir, nos aconteceres dos corpos :contradiões: o "Ser" aparece no Sensível. O Sensível, escravo do inteligível, não se amolda aos ditames das tentativas de fixação ontológica da inteligibilidade. O inteligível não esgota os sentidos e os possíveis significados do Sensível. O Sensível - fugidio, fugaz, mutante, inapreensível no dizer - solicita do verbo, do dizer-se e do próprio dizer, mudanças constantes de suas colocações, pontuações, asserções. O Sensível desconforta o inteligível com suas inelutáveis transitoriedades e impermanências, e não se faz perceber em suas visibilidades ou se notar facilmente pela razão ou pelo entendimento (talvez contradizendo as regras e imposturas da Razão, substituta, na modernidade, do Deus cristão). Não nos deixa, em suas aparições, certezas inquestionáveis de seus possíveis significados: contruir o agir artístico-estético e seus possíveis sentidos na fugacidade das emanações do Sensível. As possibilidades de construção de sentidos, nos seus vislumbres de incorporeidade, emanam do agir do corpo no espaço físico, por sua vez povoado de objetos, corpos outros e outros invisíveis mas perceptíveis e compartilháveis sentidos. O ato de olhar, o ato de tatear, o ato olfativo, o ato de escutar, o ato de saborear, as corporeidades dos sentidos - na eventual tentiva de fixar sentidos e significados no corpo - "vivem" descompassados em relação aos aconteceres e ex-pressões desse mesmo corpo; procuram impregnar de sentidos e significados, ilusioramente, a invariável volubilidade da imanência dos movimentos corporais. O inteligível não "habita" o corpo, ele é um processo imanente ao próprio corpo. Um corpo, estático ou em movimento, não exala sentidos e significados, mas sim possibilidades provocativas de construções de sentidos e significados: o perfume desses sentidos e significados não volatiza aromas, mas sim plausibilidades; aplausos dissipam as tentativas de fixidez do inteligível quando este último se depara com a volubilidade transitória do Sensível. Esquizofrenia do pensamento ocidental: tato e olfato, taxados como sendo os sentidos do "baixo ventre", rivalizam-se com os sentidos "nobres", o olhar e a audição. Não é o olho que , não é a mão que toca, não é o ouvido que ouve: é o corpo, inteiro, que , toca e ouve com os olhos, com as mãos, com os ouvidos - "extremidades" sensíveis dos sentidos. Tocamos as coisas e os entes com os olhos, com o olhar; tocamos as coisas e os entes com as nossas mãos; tocamos as coisas e os entes com a audição dos nossos ouvidos: digressões fenomenológicas em terras tropicais e sub-tropicais. Entrelaçamento dos sentidos na construção de sentidos e significados. Terras tropicais e sub-tropicais possivemente adulteradas por distorções de um pensamento euro-cêntrico que obscurece inelutavelmente a construção de sentidos próprios. Haverá uma universalidade da construção de significados e percepções? O entrelaçamento dos sentidos na construção de sentidos e significados é um dado imanente nas existências equatoriais e infra-equatoriais? Perplexidades.

    Corpo: espaço-tempo sensível de ações e aconteceres que a inteligibilidade procura significar e imprimir sentidos, mas que, inevitavelmente, domestica e controla (ou crê domesticar e controlar...) em fórmulas metafísicas estereotipadas, em determinações limitadoras, em antecipações castradoras que visam à sabotagem metafísica da dignificação do sensível; que, por sua vez, procura se libertar das imposturas dos dizeres de uma inteligibilidade orientada para a tentativa de tornar asséptica a exuberância inapreensível da fugacidade dos movimentos dos corpos, de suas ações e de aconteceres outros no contexto do espaço no qual esses mesmos corpos se movimentam (pois o corpo, ao se movimentar, movimenta simultaneamente o espaço à sua volta). A inteligibilidade parece não se dar conta de seu papel no contexto da existência ao ultrapassar os seus limites: o sensível se torna escravo do inteligível: o corpo escravo da "alma". Mas o que se pode fazer? Há séculos os entes humanos são bombardeados com esse aspecto nefasto da ideologia por uma minoria controladora, contendores ideológicos do prazer do corpo: "a alma é escrava do corpo", "não dêem ouvidos ao clamor dos prazeres do corpo", "subjulguem-no com a superioridade do espírito e da alma", dizem; "o significado e o sentido são escravos da impermanência do sensível", repetem reiteradamente. Depreciação do sensível. Contrapartida: necessidade de se retomar uma compreensão menos depreciativa do sensível. Não se trata de uma revanche ou da vitória do corpo sobre o "espírito"; não sim da "superação das dualidades", de se se criar as condições existenciais propícias para vivenciar dualidades mutáveis que, por sua vez, questionam mudamente o inteligível com a impermanência do sensível. Corpo: cenário privilegiado das emanações do sensível. O músico executa seus instrumentos musicais -o suporte do músico é externo ao seu corpo; o poeta lê suas poesias - o suporte do poeta também é externo ao seu corpo: negrume das palavras na brancura do papel. O olhar caminha sobre as palavras, iluminando-as, transparecendo-as. A poesia dança nas sonoridades da voz do poeta. A leitura da poesia, grafada nas palavras impressas, transporta o texto poético para o corpo do poeta: retorno ao lugar originário de seu nascimento: copoiésis, corpensamento poético. O olhar do poeta se desvia, por vezes, para o corpo em movimento da bailarina-dançarina (as sonoridades não carecem do desvio do olhar: sons são onipresentes). Mas a bailarina-dançarina não dança a dança, pois ela é a própria dança, o seu corpo é dança: seu corpo é ação sensível-inteligível: a brisa contém a tempestade, a tempestade contém a brisa; mas talvez não percebamos a brisa na tempestade, nem a tempestade na brisa; e talvez por esse mesmo motivo nos condicionamos a não perceber o perpassamento das polaridades, do que se nos apresenta como opostos excludentes, anulantes; mas que são, verdadeiramente, aspectos de uma mesma situação, experiência ou daquilo que denominamos como "realidade". Realidades múltiplas: essência? Essências e verdades em interatividades não excludentes, o que nos desafia à não acomodação e/ou não aceitação de trajetórias já instituídas e/ou pré-determinadas. Acreditamos (ainda?) equivocadamente superar as dualidades ao ignorarmos uma das partes que as compõem e objetivando nos tornarmos os protagonistas e defensores intranssigentes dessa polarização. Parcialidade da determinação. Alienação ao se igonrar a multiplicidade cambiante que integra o todo. Corpo versus Pensamento. Se a civilização contemporânea é, nas relações interpessoais (entre personas, máscaras), culturalmente "pós-modernosa", a relação intersubjetiva - obnubilada pela identificação - ainda é devedora da modernidade. Vivemos a modernidade tardia travestida em retalhos pós-modernsosos. As máscaras (personas) são modificadas conforme a necessidade, para que os atores pós-modernosos possam encobrir o temor de se colocar a subjetividade diante de si mesmos. Substitui-se as personas a todo momento - pois no guarda-roupas pós-modernoso há uma infinidade de máscaras - para se encobrir o sujeito. Os atores pós-modernosos são marionetes do vácuo de sentido, pois foram convencidos de que não há mais sentido em criar as possibilidades de busca do sentido, de sentidos. Identidade substituída pela identificação. Mas a modernidade tem um ranço medievalesco: Descartes com um pé na cruz e outro na modernidade laica: ou "como da fogueira "Santa" e "abençoada" da Inquisição. Pensamento Pós-Metafísico? Ma quem protagonizará esse pensamento? O Liberalismo Neo-Kantiano? Nem moderno, nem pós-moderno, nem liberal, nem cristão: Pós-cristão: assim deixam-se na berlinda todo e qualquer resquício de intransigência e autoritarismo travestidos de liberdade.

    Desvio meu olhar das coisas e dos entes humanos com um movimento de minha cabeça ou com o cerrar dos olhos; e interrompo meu olhar. Noite. Obscurecências. Anoiteço minha audição no adormecer, mas meus ouvidos continuam a ouvir sem a intersecção do olhar. Os "sentidos nobres" se distanciam no sono do corpo. O olhar solicita a cessação de suas atividades. Trégua. Pausa nas tentativas de decifração dos significados fugidios das luzes. A audição clarifica sem luminosidades a noite e os sonhos, imagens em um corpo adormecido. A audição extrema obnubila o ouvir. A audição contínua cega o ouvir e não possibilita o descanso do olhar e a percepção da sutileza dos sons-filigramas. Na noite adormecida do corpo, o descanço. Mas o ouvir se mantém alerta no afã de sustentar o repouso do corpo, do olhar. A constância do ouvir na noite do corpo sustenta o descanço dos olhos, do olhar, do corpo. Mas a audição também desperta o olhar e o corpo quando este último renasce de seu sono, de seu descanso. Então o olhar, após o seu repouso, volta novamente a viver no corpo, e no corpo do mundo. A audição não descansa, mas o olhar sim. E é no não- cessamento da audição, no ouvir sempre desperto da audição, que o olhar, durante a noite do corpo, deixa de trazer as imagens do mundo para o corpo. Repouso noturno do olhar na permanência ouvir. Mas o olhar parece não ter aprendido ainda a agradecer a disponibilidade da audição noturna em possibilitar o seu descanço. Ingratidão.

    Ingratidão de um sentido enaltecido e exacerbado por uma civilização decadente, sustentada por uma tecnocracia cientificista que ignora sistematicamente as nuances da existência humana, dos movimentos singulares dos corpos, da intersubjetividade dialógica dos entes humanos, da intertextualidade dos saberes e que perniciosamente instrumentaliza os sentimentos, a arte, a cultura, a vida. Fuga das incompletudes do sensível, domesticação do sensível; uma civilização de imposturas "democráticas" que nos convence que a possibilidade do prazer do corpo é possível apenas no execesso dos prazeres do próprio corpo coisificado na mídia, na reprodução obscecante de mentiras ardilosas que nos cegam, a todo instante, para a dignidade do sensível. Controle da vida e da existência sustentado por uma ruinosa inversão de valores que serve apenas aos "contendores do espírito", uma minoria vigilante que manipula os saberes, a vida e os processos de criação artística. Mas os corpos dos criadores não se deixam infestar pelos artifícios da manipulação das possibilidades de dignificação da existência a partir do enobrecimento das qualidades imanentes do sensível e dos significados dos sentidos que, por sua vez, constróem-se ininterruptamente nas relações intersubjetivas e no contato constante e inevitável com as coisas do mundo. A visceralidade da criação artística originária abre fendas nas imposturas da civilização contemporânea, imposturas invisibilizadas na instrumentalização tecnológico-cientificista que hostiliza e denigre sorrateiramente a construção de sentidos passível de surgir na dignificação do sensível, na dignificação dos prazeres dos corpos, no aqui-agora dos movimentos dos corpos dos entes humanos.

    No quintal de sua casa, o músico presencia uma cena inusitada: um beija-flor cai de asas abertas no chão. Surpreso ao presenciar a cena, ele o recolhe do chão com as mãos e, para sua surpresa, o pássaro não reage. O músico sente o calor do frágil corpo e o que parece ser a respiração e os batimentos do coração do seu corpo imóvel. O olhar do pássaro, assustado, parece demonstrar um receio velado de que as mãos do músico o irá ferir, mãos que, ora com movimentos tênues, ora com movimentos vigorosos, executa os instrumentos musicais. Não sabe da preocupação do músico em não ter a intenção de machucá-lo. Durante alguns minutos o músico acaricia a pequeníssima cabeça do minúsculo pássaro no intento de reconfortá-lo, no que certamente é um momento, no mínimo desconfortável, de sua vida. Ambos estão surpresos com a situação. Repentinamente, sai voando, ligeiro, o pássaro, e desaparece por entre as árvores. Os sons de suas asas soa longínquo, quase ináudivel. Poeira sonora. O músico, novamente surpreso, vê duas penas esguias em sua mãos. Duas penas maiores que as que recobrem o restante de seu corpo, duas lembranças de seu corpo diminuto. O músico continua a sentir o calor do corpo delicado do pássaro em suas mãos, lugar de repouso inusitado e passageiro de um amigo que, por alguns minutos confiou, na acolhida inesperada e talvez não necessária. O músico atina para o fato de que o ocorrido foi um evento muitíssimo inusitado; acontecimento raro, com possibilidades ínfima de que ocorrer novamente. Sincronicidades.

    A integração entre música, dança e poesia em TrêsCorpos é a queda inusitada de um pássaro. Os TrêsCorpos acolhem a sucessão dos momentos e dos movimentos sempre com perplexidades individuais compartilhadas. Sabe-se da urgência de se otimizar cada movimento, cada gesto, cada palavra, cada silêncio. Chances poucas de que se consiga reproduzir movimentos e sons e palavras e sons e movimentos e palavras - mesmo que as palavras do poeta já tenham a anterioridade da escritura; mesmo que os sons pré-gravados sejam sempre os mesmos; mesmo que algum ou outro movimento do corpo caia na trama da memória da corporeidade. Inapreensibilidade: em algum momento o passáro irá alçar vôo, e desaparecerá na folhagem da memória, mimetizando-se, emaranhando-se, confundindo-se, amalgamando-se com outros registros recônditos dos TrêsCorpos: as penas do pássaro ficam nas mãos do músico, mas por si só não permitem o vôo entrelaçado dos sons-movimentos-palavras. A voz do poeta e o movimento do corpo da bailarina ressoam silenciosamente nos instrumentos musicais silenciados e silenciosos. As duas penas do pássaro nas mãos do músico. O corpo-poesia, o corpo-dança e o corpo-música se distanciam ao término de cada ensaio, levados que são pelo corpo do poeta, pelo corpo da bailarina-dançarina e pelo corpo do músico. Mas o corpo-poesia, o corpo-dança e o corpo-música se entrelaçam nos TrêsCorpos em sons-movimentos-palavras. Mas "o artista jamais sai de si mesmo" (Budaleire). Vivências da dualidade. SeisCorpos em TrêsCorpos.

    A música acontece nos instrumentos musicais e nos alto-falantes amplificados como extensão do corpo do músico; a poesia acontece na voz do poeta, voz que invade o espaçotempo, como extensão do corpo do poeta. Mas o corpo da bailarina-dançarina é a prórpia dança. O corpo não dança: o corpo é a dança: corpodança, sem hífem distanciando um e outro, pois a inteligibilidade das palavras dicotomização e nos distanciam da vivência das dualidades, sufocando as imperfectibilidades fugazes do sensível. A voz coporal, na música eletroacústica solo, não registrada previamente em suporte fixo, teve, já nos primórdios da composição musical eletroacústica, a função de reintroduzir o corpo do ente humano musicista e/ou compositor, retirado e substituido (sobretudo o primeiro) do espaço cênico dos concertos pelos alto-falantes amplificados. A dança nunca sai do corpo da bailarina-dançarina, que dinamiza o espaçotempo, impregando-o fugamente com imagens residuais e impermanentes dos movimentos corporais. O suporte da dança, o corpo, é a própria dança. A voz no evento TrêsCorpos, aliada a execução dos instrumentos em tempo real, e ao lado do corpodança da bailarina-dançarina, redime a "desumanização" e a "mecanização" hertziana da composição musical eletroacústica. Mas o cessar das vibrações sonro-musicais não interrompe o fluxo contínuo de outras sonoridades, pois a "música acontece ininterruptamente", como nos alertava o bom e velho João Gaiola, vulgo John Cage. A música não está engaiolada no corpo do músico, muito embora aconteça em seu corpo. E, mesmo que esteja, há certamente sempre uma janela entrearberta: as janelas do corpomúsica nunca estão definitivamente cerradas. É o corpo, e não os ouvidos, quem ouve a música, pois as vibrações sonoras, deslocamento do ar, do spiritus, imprime suas marcas invisíveis no corpo do músico e do cantor. E voz, como o corpodança, é o corpo: corpovoz, corpodança. Há um corpo-poesia, corpoesia? A designação gráfica corpoesia deixa entrever essa talvez irremediável possibilidade, pois na leitura da poesia impressa em algum suporte (papel, monitores de compudator, nas imagens das palavras projetadas por algum dispositivo eletrônico...) não pode desconsiderar a ação do corpo-leitor. Na frequentação da arte há sempre um corpo humano como campo perceptivo, pois o corpo é o espaço-tempo privilegiado, insubstituível da percepção. Música, dança, poesia estão visceralmente encarnadas no corpo do músico, no corpo da bailarina-dançarina, no corpo do poeta. E a inteligibilidade do sentido (sentido no sigular, pois o inteligível universaliza o que é inevitável e ontologicamente do âmbito da multiplicidade) que pretende sorrateira e dissimuladamente esgotar, definir e determinar perenemente os significados da percepção pelos sentidos - deverá render-se à mutabilidade imperfectível e fugaz do sensível. Pois no afã de tomar um espaço-tempo que não é total e absolutamente seu, ela, a inteligibilidade, ofusca e subverte as possibilidades de se criar permanentemente os sentidos possíveis do sentir com os sentidos. Se o Ser habita a linguagem e os dizeres acerca das experiências sensíveis, ele, o Ser, se mutabilza constantemente no sensível. Mas o Ser não suporta a inconstância, a impermanência e a imperfectibilidade dos movimentos do corpo. Dissimulação da inconstância, da impermanência, da imperfectibildade e factibilidade do corpo nas tentativas do inteligível de nos cegar para a dignidade do sensível. O que há de permanente na existência - que se recusa a se "pasteurizar" nas imposturas do inteligível - é a possibilidade ininterrupta de produção de sentidos. Corpo: espaço da ação. A corporeidade nasce no corpo e é, ela mesma, o grau mais elevado de produção do inteligível: não é o pensamento que pensa, é o corpo quem pensa: corpensamento; e pensar é agir, é ação. Em TrêsCorpos, os corpos dos protagonistas, duplicados na dançamúsica, no corpodança e no corpoesia, pensar na ação da atitude estético-artística, e intencionam quebrar as limitações criadas século após século pelas imposturas da inteligibilidade. Pois compreende-se - talvez um tanto quanto pretensiosamente- que, no três corpos dos protagonistas de TrêsCorpos, a inteligibilidade ocupa um espaço-tempo não totalitário e acontece na ação estético-artística dos três corpos, dinamizados no corpomúsica, no corpodança e no corpoesia.

    O poeta escreve, em mensagem eletrônica enviada ao músico, palavras de uma poiesis visceral: dizeres fiados com "lã de zinco": "a performance... esse ensaio vivo.... é ensaio sobre o improviso, mas também ensaio sobre o suporte, ensaio sobre as impossibilidades, ensaio sobre as insuficiências.... o corpo só, solo sem chão é insuficiente, impermanente. A imersão em conjunta-ação é tentativa de colocar não mais as vistas-condicionadas em percepções, mas integração do todo possível. (...) Dicotomização... dois reduzem, pólos reduzem... somos plurais, não mais amarrados, mas nós."

    Nós tecemos os nossos próprios nós existenciais e a nós mesmos com a lã de zinco da existência. Desfazer os nós no aqui-agora existencial do espaço-tempo cria as condições necessárias para a auto-criação de outros nós. O novelo da ex-istência se desfaz, se refaz, se desfaz, se refaz... No nosso espaço-tempo cênico que é o corpo do ente humano no corpo do mundo. A pele abre fendas em si mesma e sangra significados, sentidos. Oferendas aos sentidos dos demais corpos.

    Assertivas estéticas pertinentes a TrêsCorpos (Excertos de FORMIS, Bárbara. Estética da indiferença: o tédio, sentimento paradigmático da arte contemporânea. In: REVISTA COMUNICAÇÃO, MÍDIA E CONSUMO, v. 2, nº 4, jul. 2 p. 77-102. São Paulo: ESPM, 2005.

    Até mesmo no que está estratificado encontramos novas brechas, fendas por onde os hábitos escapam em um embate com um caos exterior que vem bagunçar toda a harmonia anterior. A arte contemporânea parece querer desviar nossa atenção da própria arte. A indiferença tem a possibilidade de fornecer uma verdadeira estética? O tédio não é mais um sintoma de indiferença, mas é a sua forma de apresentação estética. O tédio é o ponto de visibilidade sensível da modalidade própria à estética contemporânea. A indiferença propõe a perduração do desinteresse no interior da própria experiência estética (tédio). Na arte contemporânea o ordinário não precisa se transformar em extraordinário para adquirir um valor estético. Pela tentativa de fazer perdurar o tédio na experiência estética, ele reaproxima a arte da vida ordinária. (...) Indiscernibilidade entre experiência estética e experiência ordinária. (...) A experiência estética e experiência ordinária são indiscerníveis. (...) A indiferença não faz distinção entre uma experiência estética e uma experiência ordinária. Tédio e deleite, arte e vida ordinária estão na experiência contemporânea misturadas e independentes.A indiferença faz apenas ampliar o desinteresse em relação às qualidades estéticas da experiência. Na arte contemporânea os objetos ordinários podem fornecer uma experiência estética sem a necessidade de ser filtrados por um processo estético. Como a vida nos entedia, o mesmo faria a arte contemporânea. A atenção e o julgamento são menos exigentes na vida do que na arte. Romantismo: é a vida ordinária que entendiava os artistas românticos e não a arte. Essa última, para eles, é a única escapatória ante o tédio; (...) tédio profundo como ferramenta para a criação artística. (...) Modernidade: coabitação entre o tédio profundo e o ordinário. A estética contemporânea radicaliza os critérios estéticos precedentes, despersonalizando não somente o sujeito, mas também a experiência estética ela mesma. As obras de arte contemporâneas não se deixam reduzir a critérios estéticos já existentes...A estética contemporânea não procura mais transformar o tédio ordinário em angústia. As obras de arte contemporâneas não atraem nosso interesse estético, mas sim lhe escapam; não agarram nossos sentidos, mas o distraem; não nos provocam nem prazer nem desprazer: em resumo, nos entediam, pois o tédio ordinário não estabelece mais diferença ontológica entre uma experiência estética e uma experiência ordinária. Para que haja experiência estética na arte contemporânea é preciso um objeto ordinário porque ele já é efetivo como fenômeno estético. A experiência estética é substituída pelo ordinário, o sentimento pelo tédio e o julgamento de gosto pela indiferença. A estética e a arte contemporâneas consistem em nos tornar sensíveis à natureza da experiência ordinária.

    Agenda

    A estréia de TrêsCorpos ocorreu no dia 1º de junho de 2007, no Anfiteatro da Faculdade de Letras, Universidade Federal de Juiz de Fora, às 18:30 h. Realização: Projeto AnfiteArte, (FALE) Faculdade de Letras - Universidade Federal de Juiz de Fora e CALE (C.A. de Letras). Entrada franca.

    Colaboração de outros corpos para TrêsCorpos

    A realização deste evento, em sua estréia, contou com a inestimável colaboração de Leonardo Candian (criação, diagramação e arte final do cartaz eletrônico), Daniel Candian (fotografia) e Paula Zagotta (fotografias); com a dedicação e o empenho de Rafael Miranda e Rafael Roque Leite; com o estímulo da Profª Terezinha Scher, Diretora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora; com os integrantes do C.A. de Letras; e com o inestimável trabalho de Tainá Novellino na arte do cartaz impresso e da filipeta, curadoria de imagens e na diagramação e edição do jornal Parabelo (cujo primeiro número teve sua publicação vinculada ao evento TrêsCorpos). O Jornal contou também com as participações de Tiago Macedo, Ben Shahn, Alex Badaró (ilustrações) e Tainá Novellino (ilustrações e fotografia); Romiti Drugo (fotografias); e Thalia Fersi (fotografia da 4ª capa). Colaborações, distribuição, contato com os colaboradores, sugestões e críticas ao Jornal: jornalparabelo@gmail.com.

    Grupos, instituições e eventos relacionados direta ou indiretamente a TrêsCorpos

    "Domínio Público": 03/08/2007, sexta-feira, às 22:00. Evento com várias linguagens artísticas em uma mesma noite. Exposição de poemas de Arnaldo Sobrinho que farão parte do seu primeiro livro. Os Poemas são ilustrados por Kauana Fernandes. Textos disponíveis para leitura e também para serem levados. Além disso, música com Silva Soul e o espetáculo "Domínio Público", com o trio Baila-co-Baco. Ingressos a R$8,00 com Arnaldo Sobrinho (32 8847-1619), no Cai e Pira Bar (Rua Roberto Stiegert,16, bairro São Pedro, Juiz de Fora, MG, ao lado do German Village) ou na Zandaly (Galeria General Roberto Neves, 125, Centro, Juiz de Fora, MG). O dia do evento: 03 agosto 2007. A hora do evento: 22 h. O local do evento: Cai e Pira Bar.

    "Grupo Multimétia Uavisiliu"

    "GOM - Grupo Oficcina Multimédia" (Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil): A partir de 1983, sob a direção de Ione de Medeiros, o Grupo mantém um permanente trabalho de corpo, voz, rítmica corporal, improvisação e pesquisa de material cênico, no processo de elaboração de seus espetáculos.

    "Fundação de Educação Artística" (Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil)

    "Picto-Rito"
    Intervenção Coletiva
    Música Corpo Cinema Literatura Pintura
    André Capilé Fabrícia Valle Ivo Regazi Raíssa Ralola
    06 de maio 2008 10h - Artes - IAD - UFJF - Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil

     

     


    "Eco" Performances Poéticas
    Participações de: Fernando Fiorese, André Monteiro, Anderson Pires, Carolina Barreto, André Capilé e os microfones abertos
    05 de junho 2008 20 horas Espaço Mezcla - Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil.

    “Diálogos com a beleza”
    Coletiva. Pintura: obras de Ricardo Cristófaro, Edna Resende e Eduardo Borges. Performances: Eduardo Reis (tearo); Paulo Motta (música). Mesa redonda com o arquiteto Rogério Mascarenhas, o estilista Luiz Fernando Ribeiro, o filósofo Tiago Adão Lara e o psicólogo Aristóteles Rodrigues e Afonso Rodrigues, mediador (professor do Instituto de Artes e Design da UFJF (IAD) e coordenador da especialização em Moda, Arte e Cultura de Moda). Palestra: Cláudia Matos: “A beleza sob a ótica de Schiller: o diálogo com a modernidade". Maio e junho 2008. Casa de Cultura da UFJF - Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil.

    “Ela perdeu... Rememorar”
    .Andréa Senra: Textos, fotos, objetos e instalações. Junho e julho 2008. CCBM - Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil.

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    trescorpos@gmail.com.br

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