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EDIÇÃO COMEMORATIVA DOS 21 ANOS DE FORMAÇÃO DO GRUPO - JUNHO DE 2003 (Atualizada periodicamente)
Toda a estória se quer fingir verdade. Mas a palavra é um fumo, leve de mais para se prender na vigente realidade. Toda a verdade aspira ser estória. Os fatos sonham ser palavra, perfumes fugindo do mundo. (Mia Couto) Uma lembrança é um diamante bruto que precisa ser lapidado pelo espírito. CHAUÍ, Marilena de Souza. Apresentação. In: BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 10ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram. Mas pelas astúcias que tem certas coisas passadas. (João Guimarães Rosa) Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir. (João Guimarães Rosa) A água que corre / Olha-me enquanto por ela passo / Não é ela que passa / Sou eu que fico / E penso que passo. (Iolanda Cristina dos Santos, In: Passagens) As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. (João Guimarães Rosa, In: Grande Sertão: Veredas) Só aos poucos que o escuro é claro. (João Guimarães Rosa, In: Grande Sertão: Veredas) O fato de somente o presente existir (...) não é motivo para ser infiel ao passado. (André Comte-Sponville) Temos que, necessariamente, ser incendiários na juventude e bombeiros na maturidade? (Paulo Motta, a partir de um comentário do Maestro Julio Medáglia sobre o filme Os Boas Vidas, de Fellini) O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta, esfria, sossega e depois desinquieta. Aperta e daí afrouxa. O que ela quer da gente é coragem. (João Guimarães Rosa, In: Grande Sertão: Veredas) A vida nunca é aquilo que diz de si mesma. (Paul Stofell) Confesso: eu prefiro uma experiência, mesmo fracassada, a uma uma obra bem sucedida. (Pierre Shaeffer, In: Pierret, Marc. Entretiens avec Pierre Shaeffer. Paris: Pierre Belfond, 1960, p. 105) Toda
história que se conta tem mentira dentro Acontece que o mundo é sempre grávido de imenso. E os homens, moradores de infinitos, não têm olhos a medir. Seus sonhos vão à frente de seus passos. Os homens nasceram para desobedecer aos mapas e desinventar bússolas. Sua vocação é a de desordenar paisagens.(Mia Couto)
Redação, edição e revisão: Paulo Motta. Obs. 1: Esta seção do Grupo de Artes Sônicas é sistematicamente revisada seguindo-se um cronograma de atualização determinado exclusivamente pelo editor. Qualquer eventual incorreção textual, omissão casual de nomes e datas, vínculos incorretos etc. serão oportunamente retificados. Caso o visitante identifique um ou mais desses problemas, favor contatar pmotta@artnet.com.br. O editor agradece antecipadamente as eventuais colaborações que certamente contribuirão para o mantenimento sempre cada vez mais otimizado deste sítio. Obs. 2: O conteúdo deste sítio está sujeito a alterações constantes e de total responsabilidade do editor, que se reserva o direito de considerar as informações nele contidas passíveis de serem complementadas e/ou modificadas, desde que obviamente não alterem a veracidade dos fatos e que não impliquem em inverdades acerca das pessoas e dos fatos nele citados. Colabore na otimização dessa seção do GAS notificando incorreções e sugerindo a inclusão de novos itens: pmotta@artnet.com.br. This website is periodically rebuilt. If you find things that don't work so well, please report to the webmaster.(Full english version is comming soon!) SUMÁRIO
Nota preliminar do editor: O texto que se segue procura descrever, sobretudo a partir de minhas recordações pessoais, a trajetória da formação e atuação de um grupo de pessoas que descobriram, em um determinado momento de suas vidas (mais exatamente no ano de 1982), interesses (artísticos) comuns; e que, em função deste fato, procuraram desenvolver um trabalho coletivo no qual, além das preocupações estéticas propriamente ditas, revelasse a forma como esses interesses eram compartilhados entre elas. O presente texto não tem a pretensão de ser a história (oficial) do grupo, mas sim uma história possível, fundamentada no meu olhar particular e, espero, não tendencioso e não parcial em direção àquele período (muito embora utilize também uma vasta documentação, sobretudo fotográfica e jornalística). No entanto, reservo-me o direito de evidenciar certos aspectos dessa história, mesmo porque não há como abranger pormenorizadamente todos os eventos ocorridos naquele período em função do tempo decorrido desde a formação do grupo (pois mesmo as matérias jornalísticas, por exemplo, por mais objetivas que pretendam ser, apresentam, via de regra, a perspectiva do repórter que a escreveu...). A maior parte dos materiais aqui disponibilizados - tais como as reproduções de fotografias, cartazes, amostras musicais, matérias jornalísticas - integra o meu acervo pessoal e, com essa nova versão da página, aparecem em maior quantidade relativamente à versão anterior (há também a transcrição de conversas informais com ex-integrantes do grupo e com pessoas que acompanharam a sua trajetória). No entanto, e devido ao fato desse material não representar obviamente a totalidade de informações disponíveis sobre o grupo, não foi possível e nem é pretensão minha, esgotar o assunto ou não admitir que certas informações se apresentam incompletas (No entanto, procurei desviar-me o máximo possível de uma perspectiva ficcional). Um exemplo dessa circunstância é a seção intitulada "Uavisiliu: antecedentes artísticos": as informações apresentadas restringem-se a um único evento, o que certamente não significa que não ocorreram outros fatos que contribuíram para a formação do grupo. Desta forma, e apesar dessas limitações, espero que o material disponibilizado neste sítio possibilite ao visitante uma apreciação relativamente detalhada sobre a formação e a atuação do grupo, assim como também auxilie o leitor a perceber o papel desempenhado pelo Uavisiliu naquele momento específico da história cultural de Juiz de Fora. O sítio original, ainda incipiente e incompleto, se comparado à atual versão, foi criado em fevereiro de 1997 (portanto, dezesseis anos após a formação do Uavisiliu), e, neste mesmo mês e ano, disponibilizado na Internet. Deste ano até o presente, o texto principal e o sítio propriamente dito passaram por várias revisões que, no entanto, não alteraram significativamente o seu conteúdo. No entanto, esta última versão do texto principal aqui apresentada, assim como da página como um todo - cuja revisão iniciou-se efetivamente em julho de 2003 e que começou a ser preparada em janeiro desse mesmo ano -, marca o vigésimo primeiro aniversário de fundação do grupo, apresentando retificações de eventuais incorreções, inclusão de novos parágrafos, de novas reflexões pessoais e descrições sobre o trabalho e a atuação do Uavisiliu, assim como também novas imagens, novos itens e novas subseções. Dessa forma, a presente edição em hipertexto de uma das possíveis histórias do Uavisiliu tem por objetivo - além de, certa forma, organizar minhas memórias pessoais sobre o grupo -, possibilitar a um público mais amplo, conhecer (com o auxílio da documentação disponível e com o detalhamento que a minha memória permite) a trajetória de um dos inúmeros grupos artísticos que surgiram nas últimas décadas do século passado em um dos inúmeros períodos de significativa efervescência cultural da cidade de Juiz de Fora (Minas Gerais, Brasil). E espero, com uma expectativa contida, que os demais ex-integrantes do Uavisiliu e as inúmeras pessoas que acompanharam a sua trajetória encontrem aqui uma descrição à altura das significativas experiências estéticas e existenciais pelas quais passamos; assim como também que os futuros visitantes e aquelas outras milhares de pessoas que já visitaram este sítio, venham a ter ou tenham tido a oportunidade de vivenciar em algum nível e a partir do conteúdo do mesmo, a experiência criativa e o "estado de disponibilidade poética" desenvolvidos pelo grupo Uavisiliu durante aqueles poucos meses de sua existência. Paulo Motta Resumo: Este artigo em hipertexto descreve a trajetória do Grupo Multimédia Uavisiliu, que atuou na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, no inicio da penúltima década do século XX. O Grupo Multimédia Uavisiliu priorizou a integração de diversas áreas artísticas - música, dança, artes plásticas, poesia e teatro -, em um trabalho que preconizava a experimentação artística. O texto é fundamentado nas memórias e documentos do acervo pessoal do autor, assim como em matérias jornalísticas e conversas informais com pessoas que participaram daquele momento único e específico da vida cultural de Juiz de Fora, no qual principalmente músicos, poetas e artistas plásticos compartilhavam entre si suas experiências pessoais desenvolividas em cada uma de suas áreas de atuação. O autor procura vincular a proposta estética do grupo a esse momento cultural, levantando a hipótese de que o trabalho desenvolvido por seus integrantes sistematizava - talvez involuntariamente - essa aproximação informal entre linguagens artísticas distintas. Tendo em vista a sustentação dessa hipótese, o artigo apresenta a descrição detalhada da formação do grupo e do trabalho desenvolvido (ao longo de aproximadamente dois anos de sua existência), amostras musicais, imagens dos componentes do grupo, de cartazes de concertos e cenários, descrição de peças musicais, discografia e referências ao grupo em artigos, hipertextos e publicações. Palavras-chave: Uavisiliu - Música - Dança - Artes Plásticas - Poesia - Teatro - Arte - Interdisciplinaridade - Multimédia. Abstract: This article describes the path of the Grupo Multimédia Uavisiliu, that acted in the city of Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil, in begin of the 1980's. The Group Uavisiliu prioritized the integration of several artistic areas - music, dance, visual arts, poetry and theater -, in a work that prioritized the artistic experimentation. The text is based in the memories and documents of the author's personal collection, as well as in journalistic matters and informal conversations of the author with people that participated in that only and specific moment of the cultural life of Juiz de Fora, in which mainly musicians, poets and visul artists shared your personal experiences developed in each one of your areas of performance. The author tries to link the aesthetics proposal of the group to that cultural moment, lifting the hypothesis that the work developed by your members it systematized that informal approach among different artistic languages. Tends in view to sustent this hypothesis, the article presents the detailed description of the formation of the group and of the developed work (along approximately two years of your existence), musical samples, images of the components of the group and of posters of concerts, description of musical pieces, discography and references to the group in articles, hipertexts and publications. Key-Words: Uavisiliu - Art - Music - Dance - Visual Arts - Poetry - Scenic Arts - Interdisciplinarity - Multimedia. Dedicatória: Este sítio é dedicado a todos que compartilharam, direta ou indiretamente, aqueles momentos de "criatividade irrestrita" vivenciados durante o curto, porém intenso, período de atuação do Uavisiliu - no qual, parafraseando os poetas Fernando F. F. Furtado e Walter Sebastião, "...sonhávamos frutos de outro pomar" e, talvez sem nos darmos conta, procurávamos "o sentido que existe num outro sentido"; em especial aos amigos e companheiros Osvaldo "Subudha" Alvarenga (Subudha, agora só falta a sua foto ao lado do Osho!!!), Angela Boza, Adriana Mourão, Cláudia Gaio, Petrônio Dias, Marcos Petrillo, Fábio Ribeiro, Alfredo Pereira Junior, Edle Frota (In memorian), Guilherme Bernardes e o TQ, Bia Ozório, Cris e Liana, Max Bastos, Carlos "Kain" H. Pereira, Myrna, Else Faria Motta (In memorian), César Brandão, Jeanne Peduzzi, Adauto Venturi, Patrícia Borges, Iacyr Anderson Freitas, Fernando F. F. Furtado, Priscila Frota, Marcelo Braga, Jorge Arbach, Maria Alice (Marrackech), Henrique Lott, Marcos A. G. Bentes, Anamir, Cláudia Rocha, Bré, Mara Bastos, Clarice Pereira, Lu Pereira, Alfredo Pereira (In memorian), Lê, Míris, Mário Nalon, Tadeu Grizendi, Craw, Roberto Vieira, Rui Merheb (In memorian), Marcelo Mega, Mário Gil, Walter Sebastião, Luis Henrique Boechat (Pico), Rodrigão, Virginie, Ian, Zavier (e os demais integrantes do Metrô), Laurent Cardon, Cat Gut, Daniela Salim, Humberto Nicoline, Grupo Elemental (SP) e tantos outros que, tendo ou não participado da formação do grupo, acreditaram, cada um a seu modo, na possibilidade de se criar novos sons, novos movimentos corporais, novas imagens e uma nova poesia a partir do risco, do experimento e da contínua transformação do conhecimento e da intuição artísticas como forma de aprimoramento e otimização das relações interpessoais.
A TRAJETÓRIA DO UAVISILIU Formação do grupo No final de 1981 surge em Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, um grupo que reunia músicos, dançarinos e artistas plásticos. A sua formação mais constante foi a seguinte (Obs.: A entrada dos nomes está disposta em ordem alfabética): Beatriz Ozório (voz, percussão e leitura de textos), Carlos H. Pereira (Kain)(violão de cordas de nylon, violão de doze cordas (de aço), piano, objetos sonoros, fita magnética e voz), Edson Zaguetto, Max Bastos (flauta transversa, saxofones soprano e contralto, piano, fita magnética e voz), Paulo Motta (piano, percussão, fita magnética, voz, cenografia e movimentos corporais) e Priscila Frota (movimentos corporais, voz, leitura de textos e fita magnética). Vários outros artistas locais participaram de suas atividades, dentre eles o artista plástico Cesar Brandão (cenografia), o fotógrafo Marcelo Mega, o dançarino Marcelo Braga e as dançarinas Cláudia Rocha (Cacá), Daniele Salim e Jeanne Peduzzi . O grupo se tornou, no meio artístico local, a referência de uma vivência e um fazer artísticos extremamente significativos e compromissados com uma linguagem sintonizada com a contemporaneidade e com uma estética que procurava romper com os modelos artísticos acadêmicos consagrados. Segundo o jornalista, poeta e crítico de arte Walter Sebastião, o grupo se constituía "numa inteligente fusão de música e dança, como uma forma de transcender os dois campos, e propor uma reflexão sobre a fragilidade das divisões entre os gêneros artísticos" (Jornal Tribuna de Minas, 12 de nov. de 1982, Caderno Dois, p. 3). Esse parecer de Walter Sebastião é complementado por Helen R. Mitchell - pesquisadora da Scarborough School of Arts, University of Hull, Inglaterra -, ao afirmar, em seu artigo Straddling the Intersection, que o Uavisiliu consistia em um grupo experimental com uma perspectiva estética preponderantemente eclética, que "objetivava a combinação de uma vasta gama de elementos em suas apresentações [cênicas], incluindo dança, poesia, música e artes visuais." Por outro lado, Carlos H. Pereira, muito embora reconheça essa perspectiva multidisciplinar, muito oportunamente considera que certamente o grupo procurou integrar diversas áreas artísticas "através de uma linguagem experimental, (...) mas [tendo sido a música uma das principais] manifestações [daquele] momento de efervescência cultural em Juiz de Fora", os integrantes do Uavisiliu elegeram a música como ponto de partida e motivação inicial para se estabelecer as aproximações entre os diversos gêneros artísticos com os quais trabalhavam. Naquele que talvez seja o único texto que procura definir as propostas do grupo - escrito (em julho de 1982) por Priscila Frota para o terceiro número da revista Bizzu (editada em Juiz de Fora por Marcos Petrillo de Paula durante a primeira metade dos anos 1980) -, encontramos um delineamento mais preciso, embora oportunamente poético em algumas passagens, da estética proposta pelo Uavisiliu, assim como também, até certo ponto, algumas pistas para o significado do enigmático nome do grupo (Obs.: O texto foi transcrito com os caracteres nos mesmos formatos do texto original):
Priscila Frota, fotografada por Paulo Motta em outubro de 2003. O nome do grupo, criado por Priscila,
pretendia significar, além de uma "forma de existir",
a proposta estética do Uavisiliu que, Fac-simile, com caligrafia de Priscila Frota, de uma das inúmeras tentativas de definição do neologismo UAVISILIU, e que eram frequentemente realizadas por ela e pelos demais integrantes do grupo. Neste caso, aproveitou-se as letras que integram o novo vocábulo para se definir - muito embora despretenciosamente - as perspectivas de criação coletiva. Prevalece, aqui, a livre associação de idéias, em detrimento de uma tentativa puramente racional de se procurar estabelecer definitivamente as perpectivas estéticas do grupo. Na verdade, o texto de Priscila, editado na Revista Bizzu, deixa entrever um dos trabalhos embrionários que deram origem ao grupo, e que vinha sendo desenvolvido anteriormente por ela e por Paulo Motta desde o início de 1981: a proposta de aproximação de linguagens artísticas diversas (no caso música, dança, artes plásticas e poesia) redundou na exposição Fragmentos, ocorrida na galeria do restaurante Marrackech (Juiz de Fora) em novembro desse mesmo ano. Em uma reportagem jornalística sobre o evento, menciona-se também um trabalho específico de aproximação entre música e dança desenvolvido pelos artistas, no qual a música, inicialmente, procurava estimular a realização de movimentos corporais. A matéria jornalística denominada Amanhã, no Marrakech, a mostra "Fragmentos", publicada no Jornal Tribuna de Minas em novembro de 1981, noticiou o evento:
Essas relações entre dança e música desenvolvidas nesse período que antecedeu à formação do grupo (e que também delineou as suas atividades nos primeiros meses de sua existência), poderiam ser assim resumidas:
A partir do momento em que Priscila Frota e Paulo Motta passam a se encontrar casual e esporadicamente com outros artistas (no caso, os demais futuros integrantes do Uavisiliu) que compartilhavam de interesses e perspectivas artísticas semelhantes, o grupo começa, de fato, a se formar. Há que se destacar aqui, o fato de que todos os integrantes do grupo foram fundamentais para a sua criação e produção dos trabalhos; ou seja, todos podem ser considerados membros-fundadores e responsáveis pela definição da(s) linha(s) estética(s) posteriormente desenvolvida(s). Essa particularidade ocorreu sobretudo devido ao fato de cada participante, mesmo permanecendo no grupo apenas em função da montagem de um espetáculo especifico (como foram os casos dos dançarinos Marcelo Braga e Cláudia Rocha), sempre encontrar espaço para contribuir com suas próprias idéias e práticas artísticas. Obviamente que ocorriam discussões acaloradas, por exemplo, durante os ensaios. Mas devido à motivação principal ser a de se procurar desenvolver uma espécie de "laboratório artístico" (no qual as idéias deveriam ser experimentadas à medida que surgissem e descartadas ou não a partir da avaliação de sua plausibilidade e relevância estéticas), essas discussões se tornavam apenas um momento de elucidação verbal das possibilidades de execução das idéias apresentadas. A estréia no Domingo Musical da UFJF: junho de 1982 Dessa forma, esse período de formação
do grupo, a partir dos encontros fortuitos entre os futuros participantes,
se estendeu entre o final de 1981 e os primeiros meses de 1982. E durante
todo o primeiro semestre desse último ano, com ensaios diários,
o grupo prepara-se para sua estréia no Domingo Musical (que
ocorreria na Praça Cívica da Universidade
Federal de Juiz de Fora no dia 6 de junho), organizado pelo Diretório
Central dos
Os dançarinos haviam criado seus movimentos corporais, até certo ponto, a partir dessa composição; mas, por outro lado, grande parte dos movimentos realizados durante a preparação espetáculo influenciaram o trabalho composicional dos músicos (conforme a proposta de trabalho original praticada e desenvolvida durante os ensaios). Na verdade, o resultado final se apresentava como um trabalho estruturado de forma determinada e, sob certo aspecto, definitiva no aspecto concernente à forma. Mas a música apresentada havia sido criada não apenas como um trabalho isolado dos músicos: esses últimos trabalhavam experimentalmente ao lado dos dançarinos; e esses, por sua vez, ao lado dos músicos, em uma constante troca de idéias. Esse talvez tenha sido o aspecto diferencial entre o Uavisiliu e os demais grupos de música e grupos de dança: a música não era composta previamente para que um grupo de dança criasse uma eventual coreografia (como "normalmente" acontece); e, por outro lado, os movimentos corporais não eram criados a partir de uma peça musical composta previamente. Ou seja, tanto a música quanto os movimentos corporais eram criados simultaneamente, sendo que músicos e dançarinos compartilhavam de um mesmo e único "momento de criação artística". Espaço Cultural, Noites do Bizzu e Lira Paulistana A segunda apresentação
do grupo ocorreu na primeira Noite
do Bizzu, ocorrida no dia 20 de Agosto de 1982, e que contou
Após o recebimento da notícia de que o grupo iria participar do Projeto, os integrantes do Uavisiliu iniciaram a composição e os ensaios de uma longa peça que viria a ter aproximadamente 50 minutos contínuos. Em função da saída de alguns integrantes do grupo, os remanescentes do Uavisiliu se viram diante da tarefa de reestruturar o projeto inicial dessa peça, que incluía, além da composição musical propriamente dita, ambientação cenográfica e coreografia. A execução musical ficou a cargo de Max Bastos, Carlos H. Pereira (Kain) e Paulo Motta; e a cenografia ficou sob a responsabilidade do artista plástico César Brandão. No entanto, percebeu-se que, muito embora a saída de um dos integrantes do grupo fosse redirecionar grande parte da estrutura da composição musical, o desfalque maior veio a ser o fato de não se poder mais contar com a única dançarina que permanecera no Uavisiliu após a primeira apresentação do grupo, Priscila Frota, sobretudo em função do grupo estar há poucas semanas de embarcar para sua apresentação no Lira Paulistana. Em decorrência, durante esse curto
período de tempo, os remanescentes do grupo se viram diante da
difícil tarefa de encontrar uma nova dançarina que, inclusive,
tivesse a disponibilidade de criar uma nova concepção coreográfica.
Em decorrência, foi convidada a bailarina Jeanne Peduzzi; e este
fato veio a ser extremamente importante para a memória Uavisiliu.
Jeanne estava impossibilitada, à época, de comparecer aos
ensaios do grupo e, consequentemente, de criar a coreografia. Tal circunstância
forçou os músicos a procurarem uma alternativa para que
Jeanne pudesse ter à sua participação garantida:
optou-se por se fazer uma gravação da obra que seria apresentada
em São Paulo, o que possibilitaria a Jeanne construir sua coreografia
sem necessariamente comparecer aos ensaios (neste caso, circunstancialmente
Jeanne criaria seus movimentos corporais a aritr de uma música
previamente composta). Além disso, Jeanne dispunha de um local
adequado para a efetivação de tal tarefa. As circunstâncias
da participação de Jeanne no Uavisiliu, desta
forma, motivaram a gravação do que é hoje
o único registro musical do trabalho do grupo (a fita magnética
enviada ao Centro de Artes Lira Paulistana, que continha a proposta
de trabalho original, parece ter-se extraviado após a finalização
das atividades do mesmo), recentemente editado em Em março de 1983, às vésperas da viagem para São Paulo - e ainda procurando se reestruturar - o Uavisiliu se apresenta no lançamento do livro Verso e Palavra, do poeta Iacyr Anderson Freitas, no Espaço Cultural em Juiz de Fora. Com iluminação de Ângela Boza, fotografia de Cláudia Gaio e ambientação cenográfica de Cesar Brandão, o público se viu, ao se dirigir às poltronas, diante da curiosa tarefa de retirar os fios de barbante que haviam sido entrelaçados sobre as cadeiras do auditório por Cesar Brandão. Além disso, foi colocado à frente do palco uma cortina de papel de seda branco, fechando completamente a entrada do palco, e sob a qual foram projetadas imagens em slide durante a execução de uma fita magnética. Ao término desta última, os integrantes do grupo, que se encontravam na parte posterior do auditório, correm em direção ao palco, saltam sobre a cortina de papel e, ao rasgarem-na, dirigirem-se tranqüilamente aos seus instrumentos, iniciando, assim, a apresentação. Após essa apresentação e após esse curto período de tempo durante o qual o grupo se dedicou à reestruturação e finalização dos trabalhos, o Uavisiliu viaja para São Paulo. As apresentações no teatro do Centro de Artes Lira Paulistana aconteciam em simultaneidade com vários outros grupos de São Paulo. Ou seja, as aprresentações ocorriam em períodos de duas semanas para cada dois grupos, os quais dividiam o tempo da apresentação (o ecletismo dos estilos musicais dos grupos participantes era acompanhado pelo ecletismo do público que comparecia aos eventos). O espetáculo apresentado pelo Uavisiliu demonstrou ser inusitado até mesmo para o público paulista, acostumado a espetáculos mais ousados em termos de linguagem estética: aqueles que compareciam às apresentações do grupo ficavam aparentemente hipnotizados com a performance de seus quatro integrantes. A peça musical apresentada no Centro de Artes Lira Paulistana, com duração aproximada de 50 minutos, consistia em um trabalho que, embora coletivo, evidenciava em alguns momentos a maior ou menor contribuição individual de cada um dos músicos. Max Bastos (saxofones soprano e contralto, flauta transversa, piano e voz) Carlos H. Pereira (violão, piano e voz) e Paulo Motta (piano e voz) iniciavam a apresentação apenas com a apresentação de uma fita magnética, na qual havia a gravação de um lento arpejo de piano intercalado ao arpejo do violão, com a emissão eventual de notas prolongadas do saxofone soprano. A introdução em tempo real da peça ocorre quando os três músicos executam o piano à seis mãos (duração aproximada de 15 mins.). Em seguida, Max Bastos executa o saxofone soprano intercalado à emissão de ruídos vocais. Em um certo momento, aparece as vozes modificadas (com recursos de reverberação) de Bia Ozório e Priscila Frota a partir de uma fita magnética previamente gravada. A performance de Max Bastos (com cerca de 50 segs de duração) denota o seu virtuosismo e vem a ser um dos momentos mais marcantes de toda a apresentação, tanto pelo relativo ineditismo de sua execução musical quanto pela demonstração do domínio técnico do saxofone. Logo após, Paulo Motta introduz uma seqüência ao piano que sustenta, rítmica e harmonicamente, as performances de Max Bastos e Carlos H. Pereira (duração: cerca de 4 mins.). Em seguida, há um jogo contrapontístico (não no sentido técnico do termo, mas no sentido da constituição dialógica entre timbres, ritmos e harmonia) entre os instrumentistas, no qual há uma livre associação de sonoridades (um dos momentos da peça com maior força expressivo-musical) (duração: cerca de 1 min.). Ao final dessa parte, Max Bastos volta a pontuar essa complexa mistura de sonoridades e ritmos com as emissões vocais intercaladas ao som do saxofone, contribuindo ainda mais para aumentar a dramaticidade da tessitura rítmico-sonora resultante da expressiva atuação dos músicos. Essa parte culmina com um caos de sonoridades e ritmos interrompido abruptamente, ao qual segue-se a introdução de uma fita magnética na qual havia sido registrada anteriormente os sons modificados de uma guitarra elétrica (duração total: cerca de 5 mins. 30 segs.). (Ouça uma amostra em mp3, 32 kbps, 15 segs., stereo) Segue-se um tema com um andamento lento, no qual se destaca a melodia da flauta acompanhada do piano e do violão de doze cordas (duração: cerca de 6 mins. 30 segs.). (Ouça uma amostra em mp3, 32 kbps, 15 segs., stereo) Contrastando com a "languidez melódica" do trecho anterior, surge novamente uma seqüência rítmico-harmônico na qual o saxofone se sobressai, primeiramente, com notas prolongadas e, num segundo momento - que acontece após um curto intermezzo do piano - com uma melodia pontual e que se completa à medida que se acentua o ritmo executado pelo piano e pelo violão (duração: cerca de 6 mins. 45 segs.) (Ouça uma amostra em mp3, 32 kbps, 15 segs., stereo) Logo após, com o decrescendo do piano e do saxofone, o violão gradativamente se destaca e transformasse em um pequeno intermezzo solo, predominantemente rítmico, executado por Carlos H. Pereira. Em seguida, Carlos introduz um tema sob o qual o saxofone contralto emite notas prolongadas e o piano executa eventuais tremolos (duração total: cerca de 2 mins. 20 segs.). (Ouça uma amostra em mp3, 32 kbps, 15 segs., stereo) Em seguida, Carlos H. Pereira volta com um breve solo (duração: cerca de 45 segs.) e introduz uma coda, na qual são apresentados em retrospectiva e em forma de pequenas citações, todos os temas anteriormente desenvolvidos (duração total: cerca de 3 mins.). (Ouça uma amostra em mp3, 32 kbps, 13 segs., stereo) A peça encerra-se com o piano executando arpejos que, gradativamente, cedem lugar à fita magnética apresentada no início da peça.
A última apresentação Isto eu gostaria que tu soubesses: existe na separação o mesmo mistério que há no encontro. Em ambos os casos, uma porta se abre. No primeiro, abre-se para o passado; no segundo, para o futuro. A porta é sempre a mesma. (Wiesel) Após este evento, os integrantes do Uavisiliu apresentam-se em Juiz de Fora apenas uma vez mais, em dezembro de 1983, no Espaço Cultural. Mas, para este evento, o trabalho composicional não foi predominantemente coletivo e nem mesmo foi creditado ao Uavisiliu, assim como também não houve a participação de dançarinos: Carlos H. Pereira (Kain), Max Bastos e Paulo Motta apresentaram, nesse espetáculo por eles denominado Cristal, composições individuais em três momentos distintos. O grupo perdeu, assim, sua característica original, que era a de ser um "laboratório" coletivo de experimentação musical e movimentos corporais. À GUISA DE CONCLUSÃO
O Uavisiliu atuou no cenário artístico de Juiz de Fora em um momento ímpar da história cultural da cidade, particularmente caracterizado por um intenso intercâmbio de idéias entre artistas e produtores culturais de áreas artísticas distintas. Dessa forma, músicos, poetas, escritores, artistas plásticos e dançarinos procuravam se aproximar mutuamente com o intuito de compartilhar os conhecimentos e práticas de suas áreas de atuação específicas. Segundo o poeta Iacyr Anderson Freitas, o período que se estendeu do início dos anos 1980 até meados da segunda metade dessa mesma década constituiu-se em um momento único da história cultural da cidade, no qual havia "uma necessidade de partilha, de diálogos múltiplos, de não ver a arte como algo estanque em guetos ou gêneros", necessidade essa que engendrou uma convergência de interesses relativos à troca de experiências estéticas, ensejando a organização de eventos artísticos nos quais, via de regra, músicos e grupos de música se apresentavam em lançamentos de livros, artistas plásticos convidavam bailarinos para atuarem nas aberturas de suas exposições etc. Ao se procurar fazer uma reflexão sobre aquele contexto cultural, poderíamos conjecturar que o Uavisiliu - esperando não correr o risco de sermos parciais e presunçosos -talvez tenha sido o único grupo que, em função de suas propostas estéticas e tendo atuado naquele momento específico da história cultural da cidade, procurou objetivar - como "um peixe que rasura a transparência do aquário" (Walter Sebastião) e com uma prática coletiva e multidisciplinar - esse "espírito" de união e aproximação entre linguagens artísticas distintas. E essa reflexão absolutamente não pretende ser definitiva, mas apenas uma possibilidade de interpretação daquele momento específico da vida cultural de Juiz de Fora "concretizado" no discurso textual; o qual, por sua vez, vincula-se mais ao "espírito" roseano de "contar uma estória" do que ser exclusivamente documental (muito embora seja óbvia a preocupação com datas e eventos que, não obstante, não abarcou a totalidade dos fatos e acontecimentos), pois contar uma estória é sempre um desafio, conforme, por exemplo, nos lembra Guimarães Rosa:
No entanto, e apesar de todos os meandros e descaminhos da memória e dessa "desatidão" rosiana inerente ao olhar retrospectivo, uma certeza (provisória?) parece se afigurar: em última instância, o simples desejo, por parte dos integrantes do grupo, de experimentar sobretudo novos meios relativamente inéditos de criação e expressão musical associadas aos movimentos corporais e que enfatizavam o processo de criação artística propriamente dito, possibilita hoje, a partir desse olhar retrospectivo, qualificar o Uavisiliu como um grupo que, sob um certo ponto de vista, representou uma tentativa relativamente mais sistemática de "concretizar" a aproximação de linguagens artísticas diversas. Enfim, o fato é que, tendo ou não esse nível de representatividade, certamente o Uavisiliu desempenhou - no nível das relações interpessoais - um papel extremamente significativo na vida pessoal e artística de cada um de seus integrantes, na vida cultural de Juiz de Fora, assim como também possibilitou ao público que assistiu às suas apresentações vislumbrar as possibilidades de outras formas de fruição estética e outros caminhos e práticas artísticas relativamente inéditos. -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Carlos H. Pereira (Kain)
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