Uma sociedade sem classes

Luiz Sérgio Henriques
O Tempo,
Belo Horizonte, 21 maio 1988, p. 8




É preciso buscar sinais, ainda que frágeis, que anunciem alguma crise ou brecha na pesada hegemonia liberal em vigor. Estes sinais podem vir tanto da realidade mais imediata da luta política e sindical quanto da chamada alta cultura. Neste último caso, vem-nos à lembrança uma observação de Keynes em seu livro mais famoso, sublinhando a decisiva importância das idéias de economistas e filósofos: políticos "práticos", diz Keynes, consideram-se isentos (ou quase) de qualquer influência intelectual, mas na verdade são invariavelmente escravos de algum economista ou filósofo morto.

Este comentário vem a propósito de um recente artigo do filósofo Richard Rorty, cujo conteúdo nos parece sintomático de uma nova orientação que pouco a pouco começa a ganhar força entre expressivos intelectuais americanos. Publicado na tradicional revista "Dissent" (número editado no inverno de 1997), o texto se chama significativamente "Back to class politics": de volta à política de classe. Mas, antes, uma constatação: bem conhecido nos meios acadêmicos, Rorty precisa de uma apresentação, mesmo que genérica, para que os não especialistas avaliem a importância e o peso de suas palavras.

Resumidamente, Rorty hoje é o mais importante filósofo da tradição do pragmatismo americano. Distancia-se, por exemplo, do "realismo" das posições marxistas clássicas em teoria do conhecimento ou teoria social. Os marxistas tendem a sublinhar a materialidade e a objetividade dos processos sociais, enquanto Rorty defende a hipótese da construção discursiva do mundo. Ou seja, para Rorty, o mundo tal como "realmente" é depende de nosso discurso sobre ele e modifica-se segundo nossos objetivos e interesses, igualmente sempre passíveis de transformação.

O que afinal interessa sublinhar, além da importância central dos trabalhos de Rorty na filosofia contemporânea, independentemente das discussões específicas que possam produzir, é que nosso autor não é um pensador marxista. E de nosso ponto de vista isto apenas realça a significação dos argumentos expostos em "Back to class politics", que passaremos a acompanhar em seguida.

Rorty anseia por uma retomada da aliança entre movimento sindical e intelectuais que marcou a vida política americana desde os tempos do "New Deal" rooseveltiano até, aproximadamente, a "Grande Sociedade" de Johnson. Era uma época em que acadêmicos como Daniel Bell, Arthur Schlesinger e John Kenneth Galbraith contribuíam, ao lado dos sindicatos, para estabelecer uma agenda pública marcada pelo ideal de criação da primeira sociedade sem classes do mundo -- resultado paradoxal da enorme capacidade de inclusão social demonstrada pela sociedade americana.

A Guerra do Vietnã, segundo Rorty, teria quebrado esta aliança. Não está em discussão, obviamente, o caráter injusto e a natureza genocida da intervenção americana. Mas o protesto estudantil, que toma conta dos "campi" junto com outras manifestações da Nova Esquerda (feministas, gays e lésbicas, afro-americanos, hispânicos), decorre num âmbito distanciado das lutas sindicais, assinalando a fratura de uma aliança que havia sido decisiva na política americana. Assim, a esquerda passou a se concentrar na luta propriamente universitária, abandonando a grande política: o resultado foi que, enquanto ela, a esquerda intelectual, fazia uma marcha triunfal pelos departamentos universitários, a direita republicana tomava conta da Casa Branca.

Rorty apela novamente para os valores mais característicos das lutas dos trabalhadores como antídoto para dois problemas básicos: o estilhaçamento do sonho americano de uma sociedade sem classes, que tem dado lugar a uma realidade em que as diferenças se agravam enormemente; e, associado a isto, o declínio moral, numa situação em que 1% dos americanos detém 40% da riqueza do país. A chamada "classe do conhecimento", composta pelos profissionais bem formados e abrangendo num cálculo aproximado os 20% mais bem situados na escala social, se encarregaria de executar as ordens dos super-ricos, criando uma América que teria sido inconcebível para Jefferson, Lincoln ou Walt Whitman.

A história do movimento operário, lembra ainda Rorty, está repleta de heroísmo, de "atos criminosos" do ponto de vista da legalidade vigente -- atos que agora são vistos como exemplos de desobediência civil, mas que em seu tempo foram brutalmente reprimidos. Esta história marcou profundamente a fisionomia moral da nação: a capacidade de auto-sacrifício, a solidariedade e mesmo o heroísmo são marcas do percurso do movimento sindical e constituem recursos a serem de novo utilizados, se o que se quer, como diz Rorty, é superar o individualismo liberal e retomar o que de fato conta: a construção de uma sociedade sem classes.