A esquerda européia e italiana depois da derrota de junho

Guido Liguori
Especial para
*Gramsci e o Brasil*




As eleições de 13 de junho passado para o Parlamento europeu representaram, em quase todos os países da Europa, um momento de derrota e recuo para as forças de esquerda. A França constituiu a única e positiva exceção. Qual é o significado desta derrota, quais suas repercussões, sobretudo na esquerda italiana?
Tentemos, antes de tudo, fornecer um quadro geral do que aconteceu, sem nos atrapalharmos com cifras e dados numéricos excessivamente aborrecidos. A União Européia está levando adiante arduamente um processo de unificação entre os diversos Estados. Tal unificação realizou muitos progressos, sobretudo no aspecto monetário, financeiro e econômico (desde 1o. de janeiro está em vigor o euro, a moeda única européia, ainda que por ora ela seja uma entidade fictícia, que serve apenas para as transações bancárias), mas poucos no aspecto político-estatal, tal como se evidenciou, sobretudo, na recente "guerra dos Bálcãs", quando a falta não só de um exército europeu autônomo, mas também a de uma política exterior comum dos países que aderem à União permitiram que os Estados Unidos (da América) fizessem o que bem entendessem, obrigando os Estados Unidos (da Europa) a irem a reboque das decisões tomadas por Clinton.
Também por estes motivos se esperava que as eleições do Parlamento europeu constituíssem um momento de relançamento da união política do velho continente. E aqui se impõe uma primeira observação negativa: o percentual dos votantes foi muito baixo, inferior ao que se registra geralmente por ocasião das eleições políticas para os respectivos parlamentos nacionais. Isto significa que as forças políticas não se empenharam suficientemente e, acima de tudo, que as pessoas ainda não sentem o Parlamento europeu e a União Européia como entidades políticas reais e importantes.
À parte a alta taxa de abstenção, o segundo resultado do voto europeu é evidente: em todos os países, menos na França, venceram os conservadores; e isto apesar de em todos os países, inclusive a França, estarem hoje no poder governos nacionais formados e dirigidos por partidos de esquerda (com o apoio, muitas vezes decisivo, de partidos de centro ou moderados).
A pergunta que se impõe é a seguinte: existe alguma coisa que caracteriza a esquerda francesa e o governo francês liderado pelo socialista Lionel Jospin (e formado por socialistas e comunistas), com relação às outras forças de esquerda no governo no resto da Europa? Também aqui a resposta é fácil: o governo francês e a esquerda francesa se caracterizaram no último biênio por uma política muito mais acentuadamente de esquerda, vale dizer, centrada na defesa do Welfare State e do emprego, com relação às esquerdas dos outros países da União Européia.
Com isto não quero dizer que entre política "de esquerda" e vitória eleitoral haja necessariamente uma relação de causa e efeito: a situação é muito complexa (por exemplo, a política de Jospin se tornou possível com a melhor situação da economia francesa e do orçamento público) e qualquer formulazinha simplista serve mais para satisfazer nossas consciências do que para responder a pergunta que vem da sociedade. Resta o fato de que uma política de esquerda não tem necessariamente a derrota como conseqüência, como parecem sugerir aqueles políticos da esquerda moderada que enfatizam a importância das camadas médias e do eleitorado centrista nos sistemas político-eleitorais europeus, que se tornaram por fim, todos ou quase todos, fundamentalmente bipolares; noutras palavras, neles a competição eleitoral parece resolver-se com os deslocamentos, mesmo mínimos, do eleitorado de centro. Não é assim, pode-se vencer mesmo com uma política de esquerda, com um governo que defende Welfare e emprego, sem ceder às políticas neoliberistas. Já este ponto é algo que faz refletir.
A comprovação disto está no fato de que a derrota foi particularmente severa para aquela esquerda (especialmente inglesa e alemã) que mais longe caminhou na estrada da moderação, naquela "terceira via" propagandeada por Anthony Giddens (o célebre sociólogo, agora convertido no principal ideólogo de Tony Blair). O brilhante Blair, que foi punido pelo eleitorado britânico, se havia destacado ultimamente sobretudo pela continuação de um thatcherismo de fato, voltado para desmantelar o Welfare, e pelas posições fortemente comprometidas em sustentar a guerra da Otan nos Bálcãs. O alemão Schroeder havia inclusive forçado a demissão do ministro Lafontaine, o social-democrata alemão mais popular e mais sensível às instâncias de defesa do Estado social.
Vejamos a Itália. Aqui, a derrota da esquerda foi acentuada pelo resultado negativo também registrado nas eleições administrativas realizadas simultaneamente, entre outros lugares, em Bolonha, cidade-símbolo do Partido Comunista Italiano, antigamente, e de seu herdeiro, o partido dos Democratas de Esquerda, hoje.
A complexidade da derrota italiana é dada por um outro elemento: segundo uma consolidada (e em parte tola) teoria, haveria na Itália "duas esquerdas": uma moderada e de governo, outra antagonista e de oposição; a primeira, com componentes ideológicos neoliberistas, ainda que mitigados, a outra nitidamente contrária ao liberismo; a primeira, pós-comunista, a segunda orgulhosamente comunista; a primeira, favorável (ainda que de má vontade) à guerra nos Bálcãs, a segunda francamente contrária. Pois bem: estas "duas esquerdas" (DS, Democráticos de Esquerda, e PRC, Partido da Refundação Comunista) perderam. E não venceu, de fato, a "terceira esquerda" (o PDCI, Partido dos Comunistas Italianos), que se separou da Refundação recentemente para não deixar cair o governo liderado por Massimo D'Alema (ex-comunista, agora DS), permitindo assim a vitória certa da coalizão de direita liderada por Silvio Berlusconi. Estes três partidos da esquerda obtiveram, respectivamente, os seguintes resultados eleitorais: DS, 17,4%; PRC, 4,3%; PDCI, 2%. Nas eleições políticas anteriores (1996), os DS (então PDS) obtiveram 21,1%, o PRC e o PDCI, juntos, 8,6%.
Como ler estes resultados? Sempre há uma explicação racional, é tolo pensar que o eleitorado seja sempre vítima dos meios de comunicação e do sistema, e que os "estados-maiores" dos partidos não errem nunca. Com todos os limites das formas atuais de democracia, a indicação que vem do voto não pode ser espezinhada por partidos democráticos e socialistas, ainda que de diferentes tonalidades. Como ficamos?
Os DS, partido de D'Alema, pagaram indiscutivelmente o ônus do governo, a política de insuficiente defesa do Welfare State adotada, a submissão à decisão estadunidense de desencadear a guerra contra a Iugoslávia. Seu eleitorado tradicional, popular e de esquerda, puniu com a abstenção (com o não-voto) um comportamento político (o do governo) que não mais compreendia, e também a incapacidade do partido, dirigido por Walter Veltroni, de distanciar-se, mesmo que só em parte, deste governo. Infelizmente, deve-se dizer que a orientação política do governo não parece destinada a mudar: depois da recente eleição do ministro do Tesouro, Ciampi, como presidente da República (que na Itália desempenha um papel de garantia e prestígio, e nada mais), D'Alema nomeou como ministro do Tesouro Giuliano Amato, ex-ministro e número dois do PSI na época de Craxi: personagem inteligente e honesto, mas fundamentalmente de direita. Uma de suas primeiras declarações como ministro foi a seguinte: "A economia não é de direita nem de esquerda". Laura Pennacchi -- uma política moderada dos DS, mas alinhada em defesa do Welfare -- depois disto sentiu-se na obrigação de demitir-se do cargo de vice-ministra do Tesouro.
Se o eleitorado se sentiu traído pela política moderada de D'Alema, por que não premiou as formações mais à esquerda, dentro ou fora do governo, ou seja, Comunistas Italianos e Refundação Comunista? A resposta não me parece difícil: porque estes dois partidos não dão garantias suficientes de confiabilidade.
Os Comunistas Italianos são uma formação muito recente. Sua separação da Refundação Comunista teve bons motivos, mas, apesar de tudo, trata-se de uma cisão: as pessoas de esquerda estão cansadas de cisões, querem a unidade; e partidos minúsculos não têm futuro. Além disto, os Comunistas Italianos são liderados por Armando Cossutta, comunista inteligente e sagaz, mas com uma "mancha indelével": ter sido nos anos 70-80 adversário de Enrico Berlinguer a partir de posições filossoviéticas. Embora seu partido hoje se constitua de muitos jovens que naquela época eram crianças e tenha em suas fileiras até mesmo colaboradores ligadíssimos a Berlinguer e estimados por todos, como Adalberto Minucci, resta o fato de que muitos "comunistas italianos" acham difícil votar num partido dirigido por Cossutta.
E Refundação? O partido dirigido por Fausto Bertinotti não obteve o prêmio para suas posições políticas, em si justas e populares (não ao desmantelamento do Estado social, não à guerra contra a Iugoslávia), porque não consegue mais a confiança do "povo de esquerda". Há poucos anos, este partido, liderado em conjunto por Bertinotti e Cossutta, tinha 8,5% e todas as pesquisas indicavam o patamar dos 10%: uma força apreciável, que pesava ainda mais na política italiana porque -- mesmo estando fora do governo -- apoiava no Parlamento o governo Prodi (o primeiro governo baseado nos partidos de esquerda), buscando extrair deste a máxima defesa possível do Welfare State.
Mas Bertinotti e a maioria de seu partido decidiram-se pela queda do governo Prodi, dissociando-se completamente da "outra esquerda", a moderada. Um erro fatal: a cisão de Cossutta enfraqueceu o partido. O governo Prodi foi substituído por um governo mais moderado (insuficiente o apoio de Cossutta, os votos de Bertinotti foram substituídos pelos de Cossiga, ex-democrata cristão moderado). Os eleitores não esqueceram nem perdoaram este erro derivado de uma política movimentista e extremista, ou seja, incapaz de administrar alianças e de pôr sempre em primeiro lugar a capacidade de não deixar a direita vencer -- uma política que parece estranha à velha tradição do PCI, o partido de Gramsci e Togliatti, além de Berlinguer.
Agora, Refundação Comunista lambe suas feridas: em seis meses ou um ano (antes das próximas eleições) deve reconstruir sua aliança com os DS, sob pena de desaparecer do Parlamento. Os DS devem reconstruir sua aliança com Bertinotti, sob pena de se deslocarem ainda mais à direita, aliando-se com grupos ainda mais moderados, ou deixar que Berlusconi vença.
As "duas esquerdas" estão condenadas a conviver. São hoje complementares, não alternativas, como acreditou Bertinotti (e provavelmente como D'Alema também pensou). E os comunistas (que estão seja no partido de Bertinotti, seja no de Cossutta, mas também nas correntes denominadas "Esquerda DS" e "Comunistas Unitários", que fazem parte do partido de Veltroni e D'Alema) devem encontrar uma forma de relação e mesmo de unidade, se não quiserem tornar-se animais em vias de extinção, destinados a ser recordados só em Jurassic Park.

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Guido Liguori é redator-chefe da revista italiana Critica marxista.
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