Os enigmas da modernidade, segundo Octavio Ianni

Carlos Nelson Coutinho
Especial para
*Gramsci e o Brasil*














A compreensão do Brasil deve muito à obra de Octávio Ianni. Entre os sociólogos brasileiros, Ianni foi certamente um dos pioneiros no uso do método dialético para desvendar os enigmas de nossa formação histórica e as contradições econômicas, políticas e sociais que marcaram a nossa transição e o nosso ingresso na modernidade capitalista. Em seus primeiros trabalhos (sobretudo no já clássico As metamorfoses do escravo), Ianni nos forneceu uma das mais lúcidas interpretações do período colonial brasileiro. Em obras como O colapso do populismo e Estado e planejamento econômico no Brasil, ele nos revelou alguns dos traços fundamentais da constiuição do Brasil moderno, no período que vai de 1930 até o golpe de abril de 1964. Em A ditadura do grande capital, encontramos uma das mais lúcidas análises sobre a natureza de classe da ditadura implantada em 1964, uma análise que evita claramente o uso de categorias ambíguas, como "autoritarismo" e "burguesia de Estado", e desvenda o vínculo estrutural entre aquela ditadura e os interesses privados do capital nacional e internacional. Do conjunto destas obras-primas, que abrangem uma análise do passado e do presente de nosso País, com projeções para o futuro, emerge uma imagem do Brasil que - pela sua riqueza e complexidade - integra e complementa aquelas que nos foram legadas por pensadores como Caio Prado Júnior e Florestan Fernandes.
Nos últimos anos, Ianni ampliou seu âmbito de interesses e tem se dedicado fundamentalmente à análise dos processos de globalização (A sociedade global, Teorias da globalização, etc.). Ao fazer isso, não rompeu com seus antigos temas: ele busca agora entender as características da nova etapa do capitalismo na qual o Brasil está hoje envolvido, de modo passivo e subalterno. A visão da globalização que nos é proposta por Ianni é enriquecida por um traço peculiar, que sempre marcou sua produção intelectual: ao contrário dos sociólogos acadêmicos que se restringem aos marcos estreitos de sua especialização, Ianni nunca deixou de incorporar às suas pesquisas temas e problemas que provêm de diferentes esferas do ser e do pensamento sociais, que estão hoje arbitrariamente alocados em outros âmbitos das chamadas ciências sociais particulares. Temas antropológicos, culturais e estéticos sempre fizeram parte do universo das preocupações de Ianni, o que torna suas análises do Brasil e suas mais recentes reflexões sobre a globalização bem mais ricas do que as pesquisas que se limitam à definição das dimensões políticas e econômicas dos fenômenos analisados .
Esta visão claramente universalista reaparece de modo pleno neste novo livro de Ianni: Enigmas da modernidade-mundo é uma brilhante e madura tentativa de percorrer os processos que constituíram a sociedade contemporânea, valendo-se de recursos teóricos que provêm das várias esferas do pensamento social. O resultado é uma obra instigante, que nos oferece um quadro dos dilemas e dos impasses da modernidade, fugindo dos apressados diagnósticos dos chamados pós-modernos. Com este novo livro-síntese, Ianni nos revela que - apesar da variação dos temas abordados em sua vasta produção teórica, que já se estende por mais de quarenta anos - continua fiel ao seu paradigma metodológico originário: contra uma visão fragmentada e empobrecida do real, Ianni sempre adotou e continua a adotar o ponto de vista da totalidade. Essa fidelidade metodológica, de resto, tem uma base ética: Octávio Ianni conserva íntegra a sua posição crítica e contestadora do existente, posição que sempre iluminou sua vida exemplar e sua fecunda obra teórica.

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Carlos Nelson Coutinho é professor da UFRJ e co-editor de *Gramsci e o Brasil*.
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