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Temas de política: 20 anos de anistia & Uma questão de identidade: Ciro Gomes e o PPSMarco Aurélio Nogueira |
Jornal da Tarde,São Paulo, set.-out. 1999 |
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![]() 1. Vinte anos depois (1 set. 1999) Eles chegaram aos poucos. Alguns com receio, desconfiados, pela sombra, outros de modo mais ostensivo. Houve quem veio de longe, após ter conseguido o passaporte até então negado, e houve os que simplesmente emergiram, rompendo o círculo de cuidados e precauções em que viviam, exilados em seu próprio país. Vieram os mais jovens e os mais velhos, os anônimos e as personalidades, os comunistas, os nacionalistas e os liberais, os religiosos e os ateus. Todos com uma história para contar, um passado de lutas para lembrar, um legado político a defender. Todos sem um pedaço de si, com uma perda a lamentar, um trecho de vida a reconstruir. Aquele amplo arco de biografias políticas carregava consigo o que a sociedade tinha de melhor -- seu heroísmo, suas lutas, suas identidades -- e o que tinha de pior: sua face soturna, mesquinha, arbitrária. Retornando à vida pública "normal", deixavam evidente que o processo abria uma chance para a convivência inteligente dos que pensavam o mundo de modo não propriamente igual. Inseriram-se na vida do país. Quase todos pela política. Era um momento inaugural, de muitas promessas, de transição. Ao projeto de distensão lenta e gradual do regime opunha-se o processo político real, impelido pelas contradições e pela vontade democrática da sociedade, que geravam outros projetos e propostas. A ditadura não estava derrotada, tanto que ainda faria sentir sua presença nos anos que se seguiriam até 1984, quando finalmente cederá. Todos reapareciam dispostos a colaborar para uma operação de resgate: democratizar o país, reformá-lo em termos sociais, depurá-lo da onda de ódio e intolerância em que vivera desde 1964 e sobretudo desde 1968. Vinham na maioria reciclados, com uma visão mais ampla do mundo e da política. Unidos por um consistente eixo comum, mas nem por isso irmanados na mesma doutrina e nas mesmas convicções. O eixo comum se desdobrava numa frente de luta, onde cabiam todos, com suas experiências concretas e suas distintas maneiras de conceber o modo de avançar. Reagindo às iniciativas da ditadura, a frente foi-se enriquecendo. Avançou-se de fato. Entre 1979 e 1980 completou-se o retorno. Partidos ilegalizados ressurgiram e voltaram a circular. Outros foram organizados nas brechas abertas pela diáspora forçada, buscando responder melhor à dinâmica de uma sociedade que mudara sua estrutura e seus protagonistas. Foi um período de muita criatividade e invenção, em que a rigor tudo parecia ser possível. Não houve quem não se sentisse mordido pela necessidade de se auto-renovar. O processo caminharia à base de muita transação, com mais cálculo que paixão. A ditadura chegaria ao fim de modo controlado, mas nem por isso menos eficiente. Tivessem sido outras as opções e outros os encaminhamentos, talvez tivéssemos demorado mais para ter o que rememorar hoje. Vinte anos depois da lei que sancionou a anistia no Brasil, não podemos dizer que somos os mesmos. A sociedade se modernizou acelerada e intensamente, mas os avanços fizeram-se junto com a reiteração do passado, com a afirmação de novas hegemonias e com muitas complicações. A agenda dos desafios e das dificuldades ganhou corpo e massa muscular. Alguns ideais ficaram de lado, alguns protagonistas mudaram de campo, novas causas surgiram. Perdeu-se o consistente eixo comum de antes, reduziu-se a nitidez das identidades, já não é tão claro contra quem pelejar. A idéia mesma de "anistia" chega ao final do século identificada com uma nova pauta de causas de liberdade. O país está democratizado, mas são muitos os seus problemas e é imensa a esfera dos excluídos. Há brasileiros demais que não se beneficiaram com os avanços políticos do país; que estão fora dos circuitos civilizados do progresso, que não têm direito a um trabalho, a uma identidade, a um futuro. Ainda há pessoas demais pagando o custo de opções governamentais movidas por argumentos "técnicos" ou eleitorais. Ainda é profundo demais o hiato que separa o político do social, os "simples" dos "superiores", dificultando a configuração de uma autêntica comunidade política. Não é prudente nem correto jogar com as palavras. Mas a generosidade entranhada nas lutas de vinte anos atrás certamente autoriza que se diga que, hoje, a idéia de "anistia" não perdeu sua razão de ser. Posta junto com a democracia política -- sua anima maior --, funciona no mínimo como um alerta, uma espécie de escudo para atravessar os tempos difíceis. E sempre como disposição para manter atados os fios que explicam a história deste país e dão sentido ao presente. 2. Uma questão de identidade Já se falou muito a respeito da passagem de Ciro Gomes ao primeiro plano da política nacional e é bem provável que se continue a falar. Não ocorre o mesmo, porém, com o crescimento vertiginoso de seu partido, o PPS, que lucra diretamente com sua ascensão e visibilidade. O partido tem motivos de sobra para comemorar a explosão orgânica que o está acometendo. Anos atrás, poucos diriam que ele conseguiria ir além do ponto a que chegara o PCB, sua casa de origem. Hoje, o PPS exibe números que não só incomodam muita gente como podem, se bem interpretados e aproveitados, garantir-lhe um sólido lugar ao sol nos próximos anos. Seus dirigentes e militantes parecem preocupados. Sabem que o partido está crescendo na mesma trilha que impulsiona Ciro Gomes, enfiada entre a captura do PSDB pela direita e a paralisia propositiva do PT. Sabem, portanto, que a próxima fase não será fácil, até mesmo porque o governo FHC ainda dispõe de algumas "reservas" operacionais e a oposição ainda não mostrou suas armas. Mas como fazer para dar substância à expansão atual, sendo ao mesmo tempo fiel à herança do Partidão e receptivo aos desafios do terceiro milênio? Sem isto, o partido tenderá a se converter numa versão menos rasteira do tradicional pragmatismo político. Ciro Gomes pouco agrega em termos de militância orgânica (isto é, comprometida com uma prática, uma "disciplina" e um ideário) e inflaciona o partido de heterogêneos aderentes de última hora: cria, com isto, para o PPS, o desafio adicional de ter de fornecer uma "educação", um discurso e uma cara aos novos inscritos. É por isto que o grande problema deste PPS em expansão é o da identidade. No início da década, quando o partido decidiu "descontinuar" seus vínculos com o PCB e adotar um novo perfil, o problema já havia aparecido. Que partido seria aquele que não queria mais ser "comunista" e optara por se chamar "popular socialista"? O PPS ficaria à esquerda não tanto pelas opções que tomaria a partir de então, mas porque estava vivo demais o seu vínculo com a história do Partidão. Agora, o partido está novamente diante da necessidade de dar um rosto a si próprio, algo que seja convincente tanto para "dentro" quanto para "fora" de suas fronteiras. O partido faz questão de dizer que deseja encarnar a "opção de centro-esquerda" que as oposições abandonaram e o PSDB jamais chegou a postular. Mas não vai muito além disto; persiste numa posição imprecisa, declarando-se distante tanto do conservadorismo quanto do neoliberalismo e favorável à constituição de um amplo bloco democrático. Pouco tem feito, também, para recriar e fortalecer as relações com a esquerda (sobretudo a petista, de peso e expressão inquestionáveis), preferindo criticá-la por "ser esquerda demais". Terá como mudar o discurso e reconstruir relações mais adiante, se e quando o processo político avançar, para então poder atuar com ao menos um "eixo de esquerda"? O PPS afirma que é preciso ter condições de dirigir a sociedade e governar, não somente chegar ao governo. Recusa-se a participar de operações políticas estreitas, "apenas com a esquerda". Quer ser o animador de um amplo leque de forças favoráveis à mudança. É um discurso avançado, que toca no calcanhar de Aquiles de toda e qualquer prática de esquerda no mundo de hoje. Mas a essência da idéia vale sobretudo para o próprio partido. Terá ele como agir em sintonia com este discurso? Seu candidato à Presidência é um político que fez fama por ter a língua afiada e uma imagem de arrogância e auto-suficiência. Traz consigo um ideólogo bem-pensante mas sem contato com a política viva e atraído demais pelas "soluções definitivas", bombásticas, categóricas. O partido parece sem ter como reagir a esta irrupção. Não consegue romper o círculo que o sufoca, de grave isolamento em relação à intelectualidade do país, o que compromete seus próximos passos. Se quiser ter futuro, o PPS terá de acumular, no curto prazo, condições efetivas para se impor como força decisiva no campo da esquerda e da democracia. Sem resolver com audácia a questão da identidade, o partido não terá como agregar os quadros técnicos, políticos e intelectuais de que necessita para ganhar massa muscular, interferir com destaque na política nacional e quem sabe governar. E desperdiçará os ventos da Fortuna que o beneficiam no momento atual. _______________ Marco Aurélio Nogueira, professor da Unesp, é um dos editores de *Gramsci e o Brasil*. |