Os intelectuais, a política e a vida

Marco Aurélio Nogueira
Jornal da Tarde,
2 out. 1999
















O tema dos intelectuais é daqueles que costumam ser chamados de "clássicos". Entra ano, sai ano, passam as modas, e o tema persiste. Já houve quem pregasse o "fim das ideologias", quem se rendesse ao embaçamento das utopias, quem falasse em morte dos intelectuais (ou de um certo tipo de intelectual), mas não houve ninguém que deixasse de se interrogar sobre este personagem.

Digo isto não porque temos um intelectual na Presidência da República ou respeitáveis intelectuais em sua assessoria. Mas é evidente que muitos se surpreendem, e com razão, ao constatar que um "mero" professor universitário chegou ao principal cargo político do país e o exerce, digamos assim, sem pruridos e pondo de lado a maioria dos traços que tipificam o intelectual. Traços que o senso comum associa ao amor pelas idéias, ao linguajar prolixo, a uma certa dificuldade de viver o cotidiano, e que o pensamento teórico associa a disposição crítica, a capacidade de elaboração, a dedicação pública, a engajamento. O senso comum vê o intelectual pelo que ele tem de mais caricato, e o rejeita por isto, ainda que o assimile e quase sempre o respeite. O pensamento teórico o vê antes de tudo pelo ângulo das suas funções precípuas, e o valoriza por isto. São tantas as imagens possíveis dos intelectuais que qualquer pretensão de tratá-los como se compusessem um agregado homogêneo, distinto dos demais, estará sempre fadada ao mais rotundo insucesso.

Não é por outro motivo que a literatura está repleta de tentativas de entender os intelectuais, de decifrar seus papéis e suas relações com as classes, o Estado e a política. Alguns, como o francês Julien Benda -- autor de um livro famoso, La trahison des clercs, de 1927 -- querem o intelectual como guardião da cultura superior, dos valores universais (a justiça, a verdade, a razão), condenando todo aquele que trair este ideal e se "rebaixar" ao plano da política viva ou da contestação. Outros, como o marxista italiano Antonio Gramsci, vêem o intelectual como um protagonista estratégico da produção da autoconsciência crítica de uma comunidade: um organizador, um dirigente, um "especialista" na elaboração conceitual e filosófica, intimamente colado à aventura histórica de um povo-nação e, portanto, encharcado de política. Mais ou menos balizados por estas posições polares, diversos grandes pensadores deixaram sua marca no debate: Fichte, Ortega y Gasset, Weber, Mannheim, Croce, Sartre, Bobbio, para lembrar os mais conhecidos.

Trata-se, porém, de um debate que não prolifera apenas no terreno teórico mais abstrato. Está sempre invadido pela vida, que o enriquece com novas determinações e o acossa com novas inquietações. Com o que ficar: com as dúvidas mais "pessimistas" da razão crítica ou com as certezas mais "otimistas" da vontade política, com a "ética da convicção" ou com a "ética da responsabilidade"? O que esperar do intelectual que chega ao poder ou dele se aproxima? Um maior distanciamento em relação às exigências da política ou o abandono da condição mesma do intelectual? Que compromissos tem o intelectual diante das mudanças e dos dilemas do seu tempo?

A reflexão sobre os papéis e a natureza do intelectual só cresce em importância. Isto é assim porque política e cultura tornaram-se dimensões unidas demais e porque o mundo da cultura digital, das "tecnologias da inteligência", está impondo maiores desafios a todos os que desejam fazer algo com as idéias. E é assim, acima de tudo, porque vivemos em um momento no qual, tendo por fundo uma "globalização" ainda mal compreendida, flui sem empecilhos a idéia de que se acabaram os contrastes, de que temos de nos "adaptar" ao que está aí, de que há apenas "uma" explicação e de que, portanto, já não necessitamos tanto de inquietação crítica. Pensar o intelectual é deixar a porta aberta para um futuro que se anuncia na contramão do sistema.

Para quem se dispuser a seguir a trilha, há um pequeno mas saboroso livro, organizado por duas professoras da Unicamp, Elide Rugai Bastos e Walquiria Leão Rego, que merece ser consultado. Em Intelectuais e política: a moralidade do compromisso (Ed. Olho d'Água, 1999), elas não só organizam a trajetória desta discussão como fornecem um belo mostruário de algumas posições "clássicas" e atuais a respeito da questão. Uma leitura revigorante para os tempos de hoje.

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Marco Aurélio Nogueira, professor da Unesp, é um dos editores de *Gramsci e o Brasil*.
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