Gramsci, o dialético

O Globo,
4 dez. 1999.
Prosa & Verso,
p. 1.














Quando alguns professores e intelectuais já o davam por definitivamente soterrado sob as pedras da demolição do Muro de Berlim, o pensador comunista italiano Antonio Gramsci reaparece no palco da história das idéias vivas e volta a se tornar uma referência atual nas discussões teórico-políticas.
Graças ao cuidadoso trabalho de Carlos Nelson Coutinho, Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira, uma nova edição começa a ser publicada (A.Gramsci. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999. V. 1: "Introdução ao Estudo da Filosofia" e "A Filosofia de Benedetto Croce"). Está prevista para onze volumes. Com ela, toda uma nova geração de estudiosos passa a ter acesso direto aos textos originais nos quais Gramsci expõe suas concepções a respeito do Estado e da sociedade civil, bem como sobre o bom senso e o senso comum, sobre hegemonia e coerção, sobre a revolução passiva e a democracia cosmopolita, sobre guerra de posições e guerra de movimentos, sobre o conformismo e o nacional-popular, ou sobre os intelectuais e a organização da cultura.
Nenhum marxista se empenhou tão radical e rigorosamente quanto ele, ao longo dos anos vinte e trinta, na avaliação da importância das contradições e da dinâmica da cultura no plano da luta pela transformação revolucionária da sociedade.
Nenhum marxista militante foi tão fundo na crítica ao reducionismo econômico, ao determinismo histórico, ao cientificismo e ao positivismo que se infiltraram no pensamento dos autodenominados discípulos de Marx (tanto dos comunistas como dos socialdemocratas).
As condições trágicas em que foi compelido a viver seus dez últimos anos, nos cárceres de Mussolini, afastaram-no das tarefas urgentes da direção do seu partido. Reagindo contra o aniquilamento que lhe estava sendo imposto, o teimoso prisioneiro empreendeu uma reflexão original, ousada, a respeito de temas que -- embora cruciais -- freqüentemente eram subestimados por seus companheiros.
Gramsci se debruçou sobre os problemas da subjetividade, sobre as complicações da teoria, sobre a formação e o poder das convicções.
Contra um ponto de vista acentuadamente elitista, cheio de desprezo pela cultura popular, o nosso autor observou que em toda manifestação de qualquer modo peculiar de ver, em toda expressão de linguagem, mesmo entre os de "baixo", nas camadas sociais mais ignorantes, existe uma "filosofia", uma certa concepção do mundo.
E, por outro lado, contra um ponto de vista que idealiza romântica e ingenuamente a filosofia espontânea do povo, atribuindo-lhe um vigor crítico que ela não tem (nem poderia ter), Gramsci chamou a atenção para o fato de que cabe aos intelectuais revolucionários manterem -- sem arrogância! -- um diálogo com seus interlocutores das camadas populares, ajudando-os (e ajudando-se a si mesmos) a superar pelo fortalecimento do bom senso (o senso crítico e autocrítico) os limites estreitos do senso comum, isto é, as fronteiras que dependem da ampliação dos horizontes teóricos para serem ultrapassadas.
Gramsci sublinha tanto o que os teóricos precisam aprender com a prática, com a percepção empírica, como a responsabilidade que eles têm em face da tarefa que lhes cabe de contribuir para aperfeiçoar a construção consistente do conhecimento teórico (que, no entanto, jamais esgotará a riqueza da realidade).
Mestre do pensamento dialético, Gramsci ensinou que, para que a nossa história seja efetivamente um processo de libertação, o ponto de vista mais avançado -- aquele que desejamos alcançar -- precisa ser também o mais abrangente.
Na lógica de um conflito bélico, o sujeito procura golpear o inimigo em seus pontos mais fracos. Quando se trata, porém, de um esforço para compreender melhor, para conhecer mais profundamente a realidade (e poder transformá-la de acordo com um projeto mais conseqüente), o sujeito precisa reconhecer os pontos fortes do interlocutor, para incorporá-los criticamente à ampliação de seus próprios horizontes.

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Leandro Konder é filósofo e professor da PUC/RJ.
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