Dois livros sobre Caio Prado Jr.

José Antonio Segatto & Raimundo Santos
Especial para
*Gramsci e o Brasil*














1. Raimundo Santos. Caio Prado na cultura política brasileira. Rio de Janeiro, Mauad, 2001, 300 p.
É possível compreender o pensamento e a prática sócio-política no Brasil, no século XX, excetuando ou ignorando a cultura política dos comunistas? Raimundo Santos acredita que não; tanto é que, nos últimos anos, tem insistente e parcimoniosamente – e contra a corrente – procurado explicitar e resgatar o patrimônio histórico-político pecebista.
Agora, neste novo livro, suas preocupações voltam-se para o grande historiador e publicista, Caio Prado Júnior. Esclarece como este intelectual – comunista, quase dissidente, que viveu sempre uma relação tensa com seu partido interpelando-o constantemente –, não obstante as diferenças e críticas, e o PCB tinham objetivos comuns: a construção do socialismo via uma revolução nacional e democrática, implicando na reestruturação da economia e da política do país – "socialismo de reformas capitalistas".
Mostra ainda como este intelectual elaborou uma complexa análise do processo histórico brasileiro, através da interpretação das especificidades da formação social (de passado escravista e colonial), dela extraindo uma teoria da revolução brasileira, onde procura apontar os rumos de uma práxis efetiva: uma revolução "agrária não-camponesa", sem feudalidade, sem capitalismo clássico e sem burguesia nacional.
Apesar deste intelectual manter uma certa respeitabilidade acadêmica por suas teses sobre a colonização e a questão agrária, não são poucos aqueles que procuram desqualificá-lo com pensador ultrapassado, com concepções problemáticas ("circulacionista", "marxista esquisito", etc). Contrapondo-se a estas e outras críticas, Raimundo Santos resgata para o debate interpretações e formulações do pensador comunista e de seu partido – o resultado é considerável e instigante, principalmente neste momento de embaraços e dilemas que vive a esquerda no Brasil
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José Antonio Segatto é professor da Unesp de Araraquara.
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2. Bernardo Ricupero. Caio Prado e a nacionalização do marxismo no Brasil. São Paulo, Ed. 34, 2000.
Nada melhor para começar a lembrar neste ano os primeiros dez anos do desaparecimento de Caio Prado Jr., em 21 de novembro de 1990, do que o livro de Bernardo Ricupero, Caio Prado Jr. e a nacionalização do marxismo. Pela forma de uma co-edição (Departamento de Ciência Política da USP, Fapesp e Editora 34), o livro já revela o interesse que vem animando teses e ensaios acadêmicos, que continuam aparecendo em livros e revistas. Para este ano estão programados alguns simpósios e pelo menos quatro títulos, três deles no prelo (Caio Prado Jr. e a Cultura Política Brasileira, da Mauad, 10 anos sem Caio Prado Jr., uma coletânea da Brasiliense, e o livro de Rubem Murilo L. Rêgo; e ainda são esperados dossiês em suplementos e na revista Estudos de Sociologia da Unesp, sem falar em outras iniciativas de tipo político-cultural.
Em seu livro, B. Ricupero propôs-se associar a obra caiopradiana com o marxismo, a partir do realce nas implicações políticas das análises do historiador. Ricupero faz uma das melhores recensões crítico-temáticas e alarga o reconhecimento que a bibliografia faz ao método marxista da historiografia de Caio Prado Jr. como exemplo de abordagem do materialismo histórico para explicar o Brasil. Mas deixa pontos pendentes, como o do significado específico - no pensamento social - da desconfiança de Caio Prado Jr. no industrialismo (“truncado”, observa Ricupero) e o da valorização do trabalho no capitalismo existente no país, sobretudo no mundo rural.
O autor opta por buscar Caio Prado Jr. no marxismo latino-americano, terreno entre a doutrina que vem com as revoluções e os pensadores da região, e deixa bem posto o imbroglio brasileiro de se ter um rico pensamento social com o problema de, nele, o componente marxista não aparecer propriamente como tal. Ricupero chega a aduzir a descoberta uspiana de uma linguagem adequada ao marxismo como mais um traço da tese do aparecimento do marxismo brasileiro propriamente dito na universidade, no final dos anos 50, distante do partido do “primeiro marxismo”, o PCB.
Pena que o autor não avance mais no ponto do marxismo marcado pela história nacional, como o de Gramsci, que é emblema de um marxismo político que se refaz inclusive como marxismo teórico, na sugestão de Bobbio; um marxismo que produz conceitos amadurecidos na reflexão sobre a Itália, como os de “intelectual” (Renascimento), de “bloco histórico” e “hegemonia” (Risorgimento) e, ainda, as distinções entre momento “econômico-corporativo” e momento “ético-político” (movimento operário italiano) e “guerra de movimento/guerra de trincheiras” (o fascismo).
Também entre nós, Caio Prado Jr. escreveu toda uma obra como marxismo político, feito e refeito para a sua circunstância, o que lhe trouxe os problemas do “circulacionismo” e do “idealismo”, bem como a incompreensão do seu partido, o qual, pobre em teoria, influente na política, é o que o explica como autor de uma publicística seminal.
Se procede falar em algo como “mentalidade de pensamento social da esquerda brasileira”, pela qual Caio Prado Jr. teria se batido, ao querer que o marxismo brasileiro fosse menos cosmopolita e organizasse práxis efetivas, hoje se poderia dizer, por exemplo, que o seu agrarismo sindical teria se consumado na Contag, tanto na primeira dirigida pelo PCB, quanto na segunda, sob o comando do PT; e o seu conceito de “reforma agrária ampliada” também estaria presente no plano do Governo chamado “Novo Mundo Rural” e nas áreas reformadas sob impulso do MST, naquilo que José Graziano da Silva chama de “reforma agrária não essencialmente agrícola”.
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Raimundo Santos é professor do Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural Rio de Janeiro.
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