Nelson Werneck Sodré, o Iseb e a crise de 1964

Dênis de Moraes
Especial para
*Gramsci e o Brasil*














"Os mais esquerdistas sonhavam que estavam na Rússia de 1917." A frase escapou com amargura pelos lábios de Nelson Werneck Sodré. À minha frente, na tarde cálida de 26 de maio de 1988, estava o general reformado e historiador, aos 77 anos, com traços de melancolia no olhar e nos gestos, e fulminante rapidez e coerência para responder às perguntas sobre a crise político-militar de 1964. Cercado por estantes com livros encadernados e impecavelmente arrumados, Nelson explorou a lógica dos fatos para sustentar uma de suas teses centrais sobre a derrocada. Para ele, tratou-se de um golpe vitorioso na área política, a partir de uma ofensiva ideológica "espantosamente poderosa" das forças reacionárias, que isolou os setores militares nacionalistas.
Nelson Werneck Sodré não alimentava ilusões quanto ao dispositivo militar de sustentação do presidente João Goulart -- que se revelou um fiasco, para não dizer inexistente. Mas admitiu que acreditava no movimento de massas e numa possível repulsa popular à instalação de uma ditadura no país.
A entrevista começou pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), do qual Nelson foi um dos artífices. Criado em 1955 por Café Filho e implementado por Juscelino Kubitschek, o Iseb projetou-se como centro formulador de uma ideologia desenvolvimentista no país. Também sobressaiu enquanto matriz de uma concepção de cultura como elemento impulsionador de transformações socioeconômicas e de fixação de identidades nacionais.
O velho general não hesitou em afirmar que, no começo de 1964, o Instituto já não desfrutava do prestígio de anos anteriores. A luta interna, que opôs as tendências desenvolvimentistas e nacionalistas, havia terminado com a vitória destas últimas. Para Nelson, ao encampar teses "esquerdistas" durante a fase final do governo Goulart, o Iseb perdeu capacidade científica e influência política. "A esquerdização levou ao isolamento", lamentou o historiador.
Respondida a última questão, Nelson levantou-se da poltrona e deu alguns passos até a janela. Mirou por segundos o entardecer em Botafogo. A fisionomia contraiu-se de repente. Voltando-se para mim, ainda de pé, confidenciou:
— Eu ainda me lembro do telefonema que recebi de um amigo: "Nelson, o pessoal do Lacerda depredou a sede do Iseb!" Só voltei a passar por lá meses depois. Foi muito difícil.

Na crise de 63/64, como se apresentava o Iseb? Ainda tinha um pensamento organizado ou, como de resto todo o movimento popular, se debatia em contradições internas e dificuldades de ação?
Nelson — O Iseb não tinha mais contradições internas, já as tinha superado. A crise no Iseb, quando se separa a corrente nacionalista da corrente simplesmente desenvolvimentista, tinha ocorrido antes, com a vitória da ala nacionalista. O Iseb se tornou homogêneo depois da crise e participou de toda a luta ideológica, especialmente a partir de 1963. Agora, na realidade, essa homogeneização resultou em quê? Inserindo-se no conjunto das forças progressistas daquele momento, o Iseb também se esquerdizou.
A guinada esquerdista foi motivada também pela ação de forças reacionárias. O Iseb era uma instituição de pós-graduação que teria como estagiários pessoas já formadas, indicadas por instituições, inclusive governamentais. Cabia então à área do governo, como Ministérios e institutos, indicar pessoas para o Iseb, incluindo as Forças Armadas. Ora, estas áreas passaram a hostilizar o governo Goulart e não indicavam estagiários para o Iseb. Ao mesmo tempo, a UNE e a ABI, por exemplo, que eram afins com o ideário do Iseb, continuaram prestigiando os nossos cursos. Esse processo de esvaziamento imposto pelas forças conservadoras motivou uma unilateralidade, uma esquerdização do Iseb. A meu ver, o Iseb pecou por excessos, se sectarizou por posições demasiado esquerdistas.

Por exemplo?
Nelson — Em todas as posições dos seus indivíduos ou de sua doutrinação, sempre e sempre, porque foi empurrado para a esquerda pelas forças reacionárias. O Iseb, por suas posições nacionalistas, caiu no índex das forças reacionárias, que lhe moveram uma campanha tremenda. Só o jornal O Globo publicou um suplemento inteiro contra o Iseb. Evidentemente, um suplemento, com muitas páginas, custou dinheiro -- alguém financiou isto. Então, o Iseb se tornou um dos alvos prediletos da reação naquele momento. Na montagem do golpe de 1964, o Iseb foi uma das metas. Tanto que foi depredado na manhã do dia 1º de abril, por elementos ligados ao então governador da Guanabara.

O Iseb já tinha perdido, por força da radicalização política, a sua influência como fórum de discussão estratégica, de formação de quadros?
Nelson — O Iseb foi-se tornando cada vez mais débil, pelo isolamento. A esquerdização leva ao isolamento. A sua capacidade científica e a sua influência política reduziram-se. O prestígio diminuiu. O Iseb, até então, tinha notoriedade; sua sigla tinha ressonância. Repare: não era a força do Iseb, mas a ofensiva do inimigo que fazia do Iseb uma coisa espantosamente poderosa, capaz de influir no governo, controlá-lo, traçar rumos para o país. Isso era uma balela propagada com muita arte e engenhosidade pelas forças que estavam se articulando para dar o golpe. Elas se compuseram meticulosamente, organizadamente, isolando as forças progressistas, reduzindo-as à impotência.

O Iseb tinha informações sobre a marcha golpista, ou subestimou a conspiração?
Nelson — O Iseb tinha informações, até porque um dos nossos professores, Osvaldo Gusmão, era subchefe da Casa Civil do presidente Goulart. Nós tínhamos informações também da Casa Militar. Mas havia, em muitas áreas, a ilusão de que nós éramos fortes. Alguns diziam que, se reação colocasse a cabeça para fora, seria batida. Evidentemente, era uma ilusão que dominou muitas áreas -- o Iseb não ficou isento também. Refiro-me à instituição como um todo, porque eu, pessoalmente, não tinha ilusões.

O que o levava a não ter ilusões?
Nelson — A falta de estrutura da esquerda e de todo o movimento progressista, inclusive do movimento nacionalista. Ele abrangia certos grupos de elite, mas se esquecia ou não tinha capacidade para arregimentar forças, estruturá-las. Havia um pensamento nacionalista, pró-reformas, que não tinha articulado nem sequer uma base política, que é sempre necessária.

Faltou um projeto estratégico?
Nelson — Não, eu creio que foi o próprio andamento do processo histórico do país. O movimento progressista era ainda imaturo. Um dos aspectos da imaturidade é julgar-se mais forte do que se verdadeiramente é. Ter ilusões sobre o seu próprio poder. Pensar que o processo está mais avançado do que realmente está. Na realidade, o golpe de 64 não foi um golpe militar. Foi um golpe político, vitorioso na área política. Isolado o governo, deu-se a operação militar de ocupação. A derrota já existia politicamente. O governo estava politicamente vencido. O traço geral foi a incapacidade de reagir. Não houve reação nos sindicatos, nos partidos, nas Forças Armadas, no povo.

O presidente Goulart e a natureza de seu governo foram incompreendidos pelo movimento popular?
Nelson — Não, não foram incompreendidos. O governo Goulart foi muito flutuante, oscilante. O Goulart, como o próprio Vargas em sua época, era um homem de posições muito mutáveis. Às vezes, pendia para a direita, para a conciliação e para a composição. Às vezes, pendia para a esquerda. Essa oscilação o desprestigiava. Tanto que Goulart, na fase final, se aproximava de uma crise em que seria hostilizado pela própria esquerda, quando surgiu a campanha pelas reformas de base. Goulart montou nessa campanha, que lhe deu grande prestígio. Ele vinha sendo isolado até pelas forças de esquerda, inclusive pelo movimento sindical. Ele assume uma posição definida pelas reformas de base e realmente se reaproxima dos dirigentes sindicais, dos estudantes e dos intelectuais -- mas aí já era tarde.

Qual foi o pecado do movimento nacionalista dentro das Forças Armadas?
Nelson — O prestígio da idéia nacionalista dentro das Forças Armadas foi grande. Na luta política 63/64, esse prestígio se enfraqueceu devido à ofensiva da reação, principalmente através dos órgãos de comunicação. A reação tornava o nacionalismo sinônimo de comunismo. Baseada no anticomunismo, que até hoje é a ideologia da reação, e controlando os órgãos de comunicação, começou a bombardear. E realmente isolou as áreas nacionalistas que eram predominantes dentro das Forças Armadas.

O senhor acreditava que o esquema militar do presidente pudesse conter o golpe?
Nelson — Nunca acreditei porque eu o conhecia. Mas acreditava no movimento de massas. Acreditava na repulsa do povo a qualquer golpe para instalar uma ditadura. Tanto que a ditadura não se apresenta como tal; apresenta-se como legal, colocando o presidente Goulart na posição ilegal. Ele é que estaria exorbitando, montando o golpe com o fechamento do Congresso e a organização de uma República sindicalista. Ou seja, inverteram-se as posições: eles se apresentavam em defesa da ordem legal. O golpe é dado, há alguns atos de verdadeira violência política, como cassações de mandatos e suspensões de direitos políticos, mas permanece o Congresso funcionando, a princípio a imprensa tem liberdade de criticar.

A quebra da hierarquia foi mesmo fundamental para dividir o meio militar?
Nelson — A quebra da hierarquia, que tem uma ressonância muito profunda nas classes armadas, foi um dos episódios mais característicos da desorganização geral. Ora, se fosse possível no Brasil uma etapa revolucionária como alguns sonhavam estar vivendo, a passagem das Forças Armadas deveria ser a última etapa. E nós jamais estivemos próximos disto. Aqueles movimentos, como os de cabos e marinheiros aqui no Rio e o dos sargentos em Brasília, foram precipitações da esquerdização geral que havia. Evidentemente, a reação alimentou, estimulou esses atos de desvario, de indisciplina militar, e depois os explorou e os acusou. Tanto alimentou que os jornais davam uma cobertura extraordinária aos acontecimentos. Os movimentos esquerdistas davam a impressão de que estávamos vivendo uma situação como a da Rússia de 1917 -- coisa inteiramente falsa. Isso calou profundamente nas Forças Armadas, motivando uma posição de retraimento, até mesmo nas áreas nacionalistas. Como também trouxe receios à classe média, que apoiou o golpe. E áreas operárias também o apoiaram.

Conclui-se que o presidente Goulart não era um bom condutor das Forças Armadas.
Nelson — Goulart não teve capacidade de articulação da área militar não por falta de dotes, mas por falta de uma boa assessoria militar. No fundo do pensamento do presidente Goulart -- um homem com grande habilidade política -- não havia maior preocupação com a questão militar. Ele privava com poucas pessoas no meio militar. Tinha ao redor dele algumas pessoas válidas, mas também auxiliares que o acompanhavam apenas funcionalmente, porque ele era o presidente, a fonte de poder. Mas não eram adeptos das idéias dele, de sua orientação. Na realidade, nunca conheceu bem o problema militar. Fez promoções ruins. Aliás, Juscelino já vinha fazendo promoções ruins. Mas, a meu ver, este é um aspecto acessório, porque a derrota foi no nível político. Tudo o mais foi a reboque.

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Dênis de Moraes é professor da Universidade Federal Fluminense.
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