Esquerda, eleições e crise

Luiz Sérgio Henriques
O Tempo,
Belo Horizonte, 2 jun. 1998, p. 8




O aquecimento da temperatura política não é função apenas da conjuntura eleitoral que se avizinha. Muito pelo contrário, dificuldades crescentes se interpõem no caminho da implementação da reforma liberal -- e são dificuldades de toda ordem, no campo da economia, da política e no da própria coesão social. Analisar estes temas sem ficar aprisionado no dilema típico das sucessões presidenciais -- uma disputa freqüentemente aberta à tentação plebiscitária, à irrupção de um voto meramente de protesto -- é tarefa difícil, capaz de deixar isolado quem tenta empreendê-la. Mas não nos intimidemos, vamos a ela.

O resultado dos anos 90, no Brasil, é verdadeiramente pífio: a Era FHC, até agora, consistiu essencialmente num gigantesco rearranjo patrimonial em benefício do capital financeiro, num quadro de inserção passiva do país na globalização em curso. O diagnóstico dos economistas de oposição começa inclusive a penetrar em ambientes absolutamente insuspeitos: basta lembrar o recente manifesto "nacionalista" de Benjamin Steinbruch a propósito da privatização da Acesita/CST, com passagens que parecem saídas de mestra Maria da Conceição Tavares. A hipocrisia, diria um cético, é a homenagem que o vício presta à virtude -- e no caso a observação não seria de todo inconveniente.

Amarrado a um crescimento econômico medíocre, nas palavras do próprio presidente, o país se vê ainda por cima permanentemente apontado como a "bola da vez", como o candidato mais forte a epicentro do próximo capítulo da crise financeira global. E o máximo que a elite dirigente consegue articular, na tarefa de Sísifo de acalmar o "mercado" -- esta palavra- fetiche que resume o conjunto de instituições multilaterais e poderes privados que regem a globalização neoliberal e em cujo nome todo o poder é exercido -- são promessas de uma "segunda geração de reformas constitucionais", na qual ponto qualificante é remeter o sistema de aposentadorias para os azares do capitalismo de cassino sob o qual nos foi dado viver.

Estão dadas as condições, portanto, para que a sucessão presidencial transcorra em meio a uma crise nacional de graves proporções -- ou, no mínimo, sob a perspectiva concreta de uma tal crise. Sucumbindo à tentação plebiscitária que acima mencionamos, a esquerda política, reunida evidentemente em torno do PT e partidos aliados, pode apostar todas as fichas na aposta simples -- simplista -- de catapultar seu candidato à "sala de comando", sem preparar-se para cenários alternativos, igualmente importantes para o destino da democracia entre nós e, em última análise, para o próprio país -- sua integridade, sua soberania, sua presença afirmativa neste perigoso mundo unipolar .

Inicialmente, é vital estabelecer uma estratégia que permita eleger uma ampla representação parlamentar, tanto no Congresso quanto nas Assembléias Legislativas. Isto pode parecer uma obviedade, mas de todo modo está longe de ser irrelevante num contexto em que o Executivo "desconstruiu" a bel-prazer a Carta de 1988, conseguindo sistematicamente maiorias de 3/5, ainda que, a bem da verdade, à custa de "ronivons" e outros métodos capituláveis no Código Penal. A presença de fortes bancadas permitiria condicionar democraticamente, "por baixo", este processo de rearranjo do capitalismo brasileiro, que até agora, tanto externa quanto internamente, esteve sob o monopólio de elites completamente dobradas ao credo liberal vigente.

Vital, ainda, seria compreender e estimular, no sentido justo, a ação dos movimentos sociais. Transformar os sem-terra em sujeito político que conta na cena nacional foi um indiscutível mérito histórico do MST. Trazer de modo organizado milhões de nordestinos para o mesmo protagonismo, inviabilizando a estratégia suicida de só conectar as áreas desenvolvidas às estruturas do capitalismo global, é o desafio que se apresenta sob nossos olhos, de cuja resolução depende rigorosamente a integridade territorial do país. E aí cada um de nós, democratas, fará o possível para que os dirigentes do MST, dos sindicatos, dos movimentos contra a fome ajam contra a lógica secular de manipulação dos flagelados, sem esquecerem que a desordem sempre costuma ser a melhor amiga da ordem.

Cabe mencionar um terceiro ponto para a reflexão daqueles que conjugam indissoluvelmente os termos "esquerda" e "democracia". Independentemente da campanha presidencial, a esquerda precisa inaugurar uma dinâmica unitária, afastando-se da lógica autodestrutiva dos "rachas" que atravancaram sua história. Este, talvez, o maior mérito da aliança entre PT, PDT, PSB e PC do B. Quem sabe, estamos no início de um processo constituinte à esquerda do espectro político, capaz de gerar novas (ou renovadas) formações à altura da função nacional que estão fadadas a ter, se souberem ir além de si mesmas e interferirem até nas atuais escolhas do centro, modificando-as para um terreno menos desastroso. Se for assim, teremos pontos de referência seguros diante da crise que se aproxima.