Serão os índios fascistas?

Caio Navarro de Toledo
Especial para
*Gramsci e o Brasil*














Quando Francisco Weffort, de armas e bagagens, embarcou na nau do governo FHC, capitaneada pela aliança PSDB-PFL e outras forças da direita brasileira, setores da esquerda manifestaram-se criticamente em relação a essa adesão – seja através da simples (e subjetiva) decepção, seja através da clássica denúncia de "traição". Afinal, Weffort foi um dos acadêmicos brasileiros que se destacaram no combate à ditadura militar. Sua tribuna eram os cursos na USP, as palestras, os livros e a intensa atuação como publicista. Enquanto Fernando Henrique Cardoso se abrigava no PMDB de Ulysses e Tancredo, Weffort ingressou no Partido dos Trabalhadores, que sempre condenou o "pacto das elites" e, por conseguinte, a chamada "redemocratização pelo alto".

Tornando-se dirigente nacional do PT, Weffort foi, até o dia da eleição presidencial de 1994, um dos principais conselheiros políticos de Lula da Silva. Como se sabe, seu rompimento definitivo com a esquerda e a conseqüente adesão a FHC se verificou através de um texto assinado: quem não se lembra do polêmico artigo "A segunda revolução democrática", em que Weffort manifestou regozijo e entusiasmo com a vitória do adversário de Lula ? Pequeno, mas eloqüente detalhe: o texto saiu publicado na Folha de São Paulo, na manhã do dia 4 de outubro de 1994, antes mesmo que um único voto da eleição presidencial – concluída poucas horas antes – tivesse sido apurado. Assim, enquanto Lula da Silva, na noite do dia 3, nos rádios e na TV, conclamava os militantes da Frente Brasil Popular para que fiscalizassem a apuração dos votos, seu conselheiro político dava os últimos retoques em seu artigo-passaporte... A história é conhecida; meses depois, em retribuição ao gesto do colega da USP, Fernando Henrique Cardoso dava posse, no Ministério da Cultura, a seu mais recente admirador, Francisco Weffort.

A trajetória intelectual e política de Weffort tem inúmeros pontos em comum com a de outros intelectuais e dirigentes partidários que se moveram do campo da esquerda (do socialismo, do comunismo, do anarquismo) para o campo do liberalismo-democrático quando não para o puro reacionarismo e conservadorismo políticos. Obviamente, este não foi o primeiro nem será o último caso de "flexibilização" ideológica no seio da intelectualidade brasileira. Como Weffort, outros intelectuais, no Brasil e no exterior, têm dado "adeus ao pensamento crítico" e embarcado alegremente na nave do mercado com toda sua corte de vantagens, promessas e encantamentos.

Se o conhecimento da história, com suas duras e amargas lições, nos ensina e nos adverte para não mais nos surpreendermos com as conversões, precoces ou tardias, dos intelectuais, nem por isso devemos, resignadamente, ceder ao cinismo da razão e ao amesquinhamento da vontade, tão disseminados nestes tempos de crasso pragmatismo. Ainda podemos nos indignar e lutar, no plano teórico e político, contra a subserviência e o conformismo da inteligência aos "poderosos do dia".

É certo que na comédia (e tragédia) de erros em que se transformou o reinado de FHC, todos os ministérios se equivalem em matéria de qualidade. O Ministério da Cultura à sombra nasceu e na obscuridade tem permanecido. Eis que, por ocasião da brutal violência cometida contra os índios, negros, sem-terra, estudantes, jornalistas e população em geral – quando das "comemorações dos 500 anos" –, os jornais nos informam que Francisco Weffort volta à cena festivo-cultural, agora na condição de sério candidato a ideólogo-mor do governo FHC.

Segundo o noticiário, o Ministro da Cultura não apenas apoiou abertamente a ação da PM comandada pelo governo da Bahia (tutelado pelo honrado ACM) e estrategicamente orientada pelo general Cardoso (Ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República), como também criticou as declarações do ex-presidente da Funai que, ao se demitir do governo, afirmou: "O tratamento que o governo dedicou à festa eu não havia visto nem na ditadura". Em plena temporada de comemorações e exaltação gilbertofreyriana, Weffort aproveitou o momento para – justificando a repressão policial – sociologizar: "Numa briga de baile, ninguém sabe quem é índio, negro ou branco. Graças a Deus, porque o povo brasileiro é essa mistura de raças"(O Globo, 24/04/00). Numa entrevista à Folha de São Paulo, deu lições de "boas maneiras" ao censurar o populacho – representado pelos índios, negros e os sem-terra –, que, convidado para o evento, deselegantemente, cuspiu (sic) no chão da festa... Ainda em suas declarações ao jornal carioca, Weffort, inovou em matéria de democracia: "O dia 22 de abril não é data para manifestações político-partidárias".

É de pasmar que essas frases tenham sido proferidas por um ex-professor universitário, cujo ofício impõe o esforço de se proceder à crítica permanente das representações difundidas pelo senso comum e ditadas pelos interesses mais imediatos. Mas o espanto logo cede quando se percebe que Weffort, ao contrário, aceita de bom grado o papel subalterno que os dominantes atribuem a alguns de seus intelectuais – a condição de meros ideólogos. Enquanto o general Cardoso usa o vernáculo de forma dura e crua para justificar a repressão, o ideólogo da corte abusa das figuras de metáfora e das piadas de salão. Um pensador crítico, muito citado, décadas atrás, pelo presidente Cardoso e seu Ministro – mas que, tendo saído "de moda", não mais convém lembrar –, dizia dos ideólogos vulgares: eles se limitavam a "sistematizar e pedantizar" as representações das aparências das coisas, proclamando-as como "verdades eternas" no interesse das classes dominantes.

Não podemos deixar de nos indignarmos face à recente ação repressiva do governo FHC; mas, a rigor, ela não se constitui em nenhuma novidade. Desde os primeiros meses de sua administração, as manifestações de trabalhadores e setores populares têm sido duramente reprimidas pelo governo. Já em maio de 1995, tropas militares ocuparam quatro refinarias da Petrobrás, com uma demonstração de força que em nada ficou a dever às dos tempos da ditadura militar. De lá para cá, diante dos protestos e manifestações populares, FHC e seus ideólogos – com ampla presença na mídia –, além de desqualificarem sistematicamente seus oponentes políticos e sociais, não hesitam em acusar seus participantes de "maus patriotas", baderneiros, arruaceiros e ... fascistas! Poucos dias atrás, a liderança do MST também foi estigmatizada pelo sociólogo-Presidente com esta arbitrária acusação. (No entanto, figuras importantes que, desde a primeira hora, apóiam o governo FHC – como ACM, Maluf, Roberto Marinho, Delfim, Roberto Campos e outros tantos que estiveram comprometidos com a ditadura militar e ainda são avessos às práticas efetivamente democráticas –, são agraciados com benesses e elogios permanentes.)

Na lógica política dominante, os governantes "democratas" devem repudiar os "fascistas", ou seja, aqueles que se opõem à política imperial ditada pelo Planalto. "Fascistas" são os outros, ou seja, os trabalhadores que contestam nas ruas a farra das privatizações, os sem-terra que questionam o "direito sagrado" da propriedade, os estudantes que se opõem ao desmonte do ensino público, etc.

Por um momento, assistindo o espancamento dos índios que caminhavam alegre e pacificamente para se encontrarem com o Presidente, Francisco Weffort talvez tenha se perguntado: "Os índios não seriam também fascistas?" Se teve resposta para esta possível dúvida, não sabemos; sabemos, sim, que o Ministro da Cultura não duvidou em apoiar a ação brutal da PM no emprego do "cassetete democrático" contra os índios desarmados. O Brasil, através dos novos civilizadores instalados no poder, reencontra as suas origens.

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Caio Navarro de Toledo é professor da Unicamp.