Uma esquerda para dirigir o futuro (Discurso sobre o que vem depois de D'Alema)

Marco Aurélio Nogueira
Especial para
*Gramsci e o Brasil*














A demissão do ex-comunista Massimo D'Alema da chefia do governo italiano, no último dia 18 de abril, depois de uma complicada derrota nas eleições regionais, ganhou merecido destaque na imprensa internacional. Além de ter reaberto a discussão sobre as justificativas e razões da aliança de centro-esquerda que se tem tentado na Itália desde 1996 (quando se iniciou o governo da "Oliveira"), trouxe consigo o espectro da direita, ameaça sempre real neste país que já experimentou o fascismo e nunca se cansa de enterrá-lo. A direita cresceu ao longo de todo o decênio dos 90, ou seja, justamente no período que se segue ao fim do Partido Comunista Italiano, extinto em 1989 e substituído pelos que hoje são os Democratas de Esquerda (com suas expressivas correntes internas) e a Refundação Comunista. Ganhou posições de força, se renovou a ponto de incorporar os novos fenômenos sociais e de tentar responder ao processo da mundialização, conseguiu ter maioria suficiente para compor um gabinete de duração efêmera mas sintomática em 1995. A partir das últimas eleições, a frente direitista Pólo da Liberdade, do magnata das telecomunicações Silvio Berlusconi, controla algumas das mais importantes regiões italianas.

As eleições que derrubaram D'Alema não alteraram em nada a composição do parlamento italiano. Foram eleições "administrativas", regionais, não "políticas". Mas indicaram com tal vivacidade o deslocamento dos consensos que forçaram a direção dos Democratas de Esquerda a rever a conduta seguida até então: em vez de permanecer à testa da coalizão que ajudaram a viabilizar depois do fim do governo da "Oliveira" (Romano Prodi), dezoito meses atrás, afastar-se dela, tanto para preservar a coalizão da pressão direitista em favor da dissolução antecipada do parlamento, quanto para se preparar melhor para a grande batalha que culminará no primeiro semestre de 2001, quando se realizarão as eleições políticas nacionais.

A ascensão da direita e as dificuldades da coalizão de centro-esquerda (e, dentro dela, particularmente dos Democratas de Esquerda) já estavam anunciadas há algum tempo na Itália, assim como, aliás, na Europa social-democrática. Ao longo do ano passado, o próprio D'Alema havia tentado reciclar seu discurso (retomando, por exemplo, a referência a uma "esquerda de valores" e reforçando as menções aos problemas da fome e da injustiça no mundo) e melhorar as relações com Refundação Comunista, que não integrava a coalizão. A própria Refundação flexibilizou-se, buscou sair do isolamento e aceitou participar das eleições regionais à base de um acordo eleitoral com o centro-esquerda. Em decorrência de todo este esforço, a performance dos partidos derivados do velho PCI não foi propriamente negativa. Alguns milhares de votos foram recuperados em regiões de presença histórica da esquerda comunista (Bolonha, por exemplo), vitórias foram alcançadas em cidades praticamente "fechadas" para a esquerda. Não foi grande coisa, mas deixou evidente que a sangria de consensos e a derivação das opiniões para a direita podem ser contidas na medida em que a esquerda se unifica mais e se anuncia em termos claros, menos vacilantes e menos subalternos ao discurso dominante.

Inevitável, portanto, que se tenha de ligar um fenômeno ao outro. A morte do PCI, ao fracionar e descaracterizar o que era até então o maior partido comunista do mundo ocidental, não se fez acompanhar da invenção de uma nova, grande e forte esquerda, tal como haviam prognosticado os operadores da reviravolta. Em vez disto, foi seguida por uma forte expansão dos espaços de direita e pelo fortalecimento do centro político, vale dizer, por uma espécie de subalternização da esquerda. O comunismo democrático de antes – marcado por uma singular combinação de identidade política, capacidade propositiva e base de massas – ruiu, mas em seu lugar não surgiu uma proposta capaz de empolgar e apaixonar. Antigas travas e tralhas ideológicas foram dissolvidas, mas em vez de liberação de energias alcançou-se uma espécie de paralisia: uma crise de identidade, na qual inovação passou a ser sinônimo de aceitação sem muitas reservas do ideário liberal ou neoliberal. Não ter mais partido tornou-se moda onde antes havia engajamento organizado. A abstenção eleitoral cresceu nos ambientes de esquerda, algo inimaginável uma década atrás. Um legado se estilhaçou, amplificando, em vez de diminuir, as velhas divisões da esquerda italiana. Formou-se um universo de poucas transparências e muita névoa, no qual se flutua entre uma ala "maximalista", intransigente e quase fundamentalista, e uma ala pragmática, reformista, bem-comportada e disposta a se "modernizar" e se inserir no sistema, ainda que à custa de sua própria autonomia cultural. A confusão passou a prevalecer.

Não foi por outro motivo que Giuseppe Chiarante, antigo dirigente do velho PCI, chamou de "vida infeliz" a primeira década de existência dos Democratas de Esquerda (Critica Marxista, nº 5, setembro-outubro de 1999). Nesse período, pôs-se em movimento um partido "que jamais conseguiu dar a si próprio uma precisa identidade cultural e política; que permaneceu oscilante entre uma ideologia dos direitos e da modernidade de tipo liberal ou mesmo abertamente neoliberal e uma herança do passado que continuava a portar consigo inúmeros traços da história do movimento comunista; que, sobretudo, não soube encontrar um ponto de mediação entre a ambição de dar vida a uma esquerda moderna e a contínua preocupação de ser um partido de governo capaz de ganhar a confiança até mesmo das camadas economicamente dominantes. Tudo isso explica a progressiva dissipação do patrimônio eleitoral e político da esquerda italiana, dissipação esta que não por acaso se acentuou nos últimos anos, precisamente quando os DS chegam à Presidência do Conselho de Ministros".

A queda de D'Alema foi um capítulo a mais nesta história. Reabriu todas as feridas. Não só levou a que se pensasse, mais uma vez, nas chances de uma esquerda dividida e sem personalidade própria, como também pôs em destaque o que parece ter-se convertido numa das grandes questões da esquerda para o século XXI: a relação com o governar. Deixou evidente que, daqui para frente, não se poderá mais relegar a segundo plano um problema "clássico" da esquerda, qual seja, o de saber se a esquerda deve privilegiar a chegada ao governo ou a construção de uma identidade, entregar-se sem preconceitos à lógica da política ou manter com ela um relacionamento de maior tensão, de modo a ter folga para afirmar valores e perspectivas abrangentes, em suma, preocupar-se mais com controles, gestão e poder ou mais com direção ético-política e hegemonia.

Formulando de modo provocativo: a esquerda deve trabalhar para formular programas de governo ou para elaborar concepções do mundo, ou seja, aquilo que vem antes e está acima da mera opinião com que se governa? Dando-se como óbvio que quem está na política aspira sempre ao governo, que preço é razoável pagar para que se arque com os desafios e os custos do governar numa época que parece produzir sempre mais obstáculos para a materialização de uma razão governativa superior, uma época que pressiona no sentido da "homologação" de todos os governantes? A esquerda estaria, assim, mais uma vez, naquela encruzilhada que integra sua própria história: esforçar-se para ser "igual" aos demais atores políticos ou insistir na construção de uma cultura própria – de uma "alma", com a qual seja possível personalizar, distinguir e animar a conduta prática do "corpo" político que se pretenda inserido no terreno do reformismo democrático e socialista.

Depois de décadas de discussão e de uma intensa movimentação política e social, não faz muito sentido pensar em esquerda como sinônimo de intransigência ou oposição eterna, uma posição sempre distante de responsabilidades de governo ou da gestão de crises. É insensato achar que o sistema capitalista – por ter ficado complexo e estar tomado por uma hegemonia perversa e poderosa – tornou-se "unidimensional" e só possa ser combatido "de fora", a partir de coletividades virtuosas de "párias" ou "excluídos". Mas é igualmente insensato imaginar uma esquerda desdentada, pragmática, que não entra em atrito com o mercado ou que se recuse a fazer a crítica radical do modo de vida capitalista. Uma esquerda que se reporta enfaticamente a "valores" mas não diz como pretende torná-los realidade e que muitas vezes age, quando vai ao governo, contradizendo aqueles mesmos valores, é tão inconseqüente quanto uma esquerda que toma posições de luta mas não se preocupa nem com o governo da sociedade nem com idéias e perspectivas abrangentes. Ambas, a rigor, são esquerdas de um modo muito especial. Na Itália, na Europa ou no Brasil.

Por isto, as perguntas formuladas acima estão longe de ser gratuitas. O mundo globalizado parece querer caminhar às cegas, dissolvendo as identidades políticas. Há como que uma subversão estrutural da política. Em vez de se ligarem a determinados setores sociais para, a partir deles, proclamaram-se representantes dos interesses de todos, os políticos são impelidos a fincar raízes num todo sempre mais abstrato para poderem representar interesses sempre mais particulares. Tornaram-se protagonistas de uma política midiática, espetacularizada, onde vingam decisões plebiscitárias, hostis à democracia substantiva. Os eleitores, por sua vez, não são tratados como seres ativos, capazes de ascender a formas superiores de subjetividade, mas como pessoas que têm interesses e precisam ser "satisfeitas". A competição política tende a se reduzir a uma batalha por votos, não por opiniões, a uma luta por apoios e recursos de poder, não por pessoas e consciências, a um combate para animar ou esfriar o descontentamento, não para oferecer perspectivas aos descontentes.

Nesta nova forma da política, esmaeceram-se os vínculos tradicionais, que mantinham a esquerda atada à classe trabalhadora, por exemplo, mas, em seu lugar, não se estabeleceram vínculos novos, até mesmo porque os integrantes dos novos segmentos são individualistas, não querem vínculos e desconfiam de tudo o que se associe ao público, ao político, ao Estado. Há muita movimentação, mas quase sempre no campo da "sociedade civil", do "público não-estatal", tanto quanto possível longe da esfera institucionalizada da política.

Neste contexto, como fixar distinções substantivas?

Não pode surpreender, por isso, que palavras como comunismo ou socialismo tenham desaparecido do léxico da esquerda. Fala-se, quando muito, em estabelecer "compromissos entre o capitalismo e a democracia", em temperar as razões da economia com as razões da política, em usar a "sociedade civil" contra o Estado, como ficou usual nos discursos de muitos líderes da chamada "terceira via" (com a exceção talvez dos socialistas franceses) ou nos discursos oficiais de muitos partidos interessados em ser vistos como alinhados da "terceira via". Para não confessar que já não há mais um coração vermelho, ou que ele pulsa muito fracamente, o vocabulário socorre-se de vez em quando da indignação, da defesa dos pobres do mundo, da repulsa ao arbítrio e à exclusão. A retórica torna-se desfibrado e sem substância. Em certa medida, acaba por ser condicionada pela tática, ou pelo taticismo.

Acontece que a "terceira via" não é uma imposição dos fatos. É uma opção. Não é algo irreversível, que não se possa recusar, mas uma escolha fundamentada em convicções. Em boa medida, é uma opção da esquerda pela "normalidade", por estar dentro do sistema, integrar-se a ele, "modernizar-se", se necessário metamorfoseando-se. Trata-se de algo que tem história. No início dos anos 80, o então secretário-geral do PCI, Enrico Berlinguer, detectou um movimento análogo e marcou posição: "Não pode existir inventividade, fantasia e criação de algo novo se se começa por sepultar a si próprio, à própria história e à realidade". Ele apostava na explicitação daquilo que distingue. Foi derrotado em seu próprio partido.

Hoje, a esquerda não se empenha mais por revoluções, mas por reformas. Sua parte mais "triunfante" aderiu a um reformismo adaptativo, dificilmente diferençável da fúria reformadora neoliberal. É tão grave a situação que a idéia mesma de reforma parece hoje muito mais um atributo do neoliberalismo do que da prática política de esquerda, que é levada a ser defensiva quando está na oposição e a gerenciar o capitalismo quando chega ao governo.

Mas o mesmo processo que estiola a esquerda, embaralha seus passos e a sobrecarrega de dilemas, exige sempre mais saídas à esquerda. Exige não só políticas agressivas de distribuição, justiça e bem-estar, como também lutas dedicadas a defender direitos e conquistas ameaçadas, a promover novos avanços, a empreender a real democratização da sociedade. Exige a presença viva de sujeitos políticos capazes de se enraizar na sociedade em mudança, de sentir seu pulso e relacionar-se intimamente com ela, de modo a se propor como um de seus dirigentes. Exige, por isto, organizações de esquerda capazes de reinventar a si próprias, adquirindo uma leveza, uma agilidade e uma plasticidade compatíveis com o ritmo frenético da vida moderna e de suas surpreendentes demandas.

Fora da esquerda ou sem a esquerda – ela e seu patrimônio, sua cara, suas organizações –, não parece possível nem que se reponham as bases do consentimento, nem que se defenda e se recrie o Estado de bem-estar, nem que se caminhe rumo a uma sociedade em que se viva com dignidade. Num mundo em que os valores dominantes fomentam individualismo e competição, só a esquerda pode fornecer parâmetros consistentes para a convivência social. Não apenas por méritos seus: é que não cabe à direita este movimento, e os liberais não têm apetite para interpelar as pessoas, organizá-las e oferecer-lhes saídas.

Será porém inútil a simples reposição do velho repertório de esquerda. O reformismo de que se necessita hoje requer uma esquerda nova: orgulhosa de seu passado e de suas tradições, ciosa dos valores que lhe dão identidade, mas inteligente o suficiente para se separar da parte podre de sua história, incorporar à sua cultura as novidades da vida e dialogar com as novas realidades. Dialogar com a globalização, sem dúvida, mas não com o propósito de assimilar-se a ela, e sim de domá-la, dirigi-la e redirecioná-la. Para a esquerda, como sempre, o que surge de "novo" serve como alimento, como norte, como um desafio a ser submetido à crítica e a ser colocado sobre base radicalmente democrática.

A experiência italiana dos últimos anos tem inúmeros aspectos positivos. A coalizão de centro-esquerda foi determinante para que a Itália saneasse sua economia, administrasse a inflação e assimilasse a moeda única européia. Chegou-se em boa medida a uma espécie de "ajuste à italiana", também ele balizado pela cartilha monetarista do "pensamento único". Mas é também verdade que este período de governo não foi marcado, até agora (e não parece que venha a ser, depois do afastamento de D'Alema), por realizações sintonizadas com as grandes razões da esquerda. Não se projetou um novo modelo de desenvolvimento, não se conteve o desemprego, não se recuperaram os salários nem as políticas sociais de bem-estar. A Itália se capitalizou e se mercantilizou de modo ostensivo. Como em todos os demais países europeus governados pela social-democracia (também aqui talvez se deva excetuar a França), foi sob a condução da esquerda que isso se cumpriu. E cumpriu-se sem que se pusesse em marcha, simultaneamente, um projeto reformador de outra qualidade: aquilo que os italianos chamam de um "programa reformista em sentido forte" – com qual sociedade, com qual Estado, com qual trabalho e qual escola se pretende viver? Sem este projeto forte, a política perdeu qualidade, as divisões aumentaram e o momento mágico da chegada ao poder começou a se desfazer. Incapaz ou impossibilitada de jogar o jogo de outro modo, impotente para fazer com que prevalecesse um governar diferenciado, a esquerda perdeu terreno, votos e consensos.

"Não há por que se escandalizar – escreveu, ainda no ano passado, o diretor da revista italiana Critica Marxista, Aldo Tortorella (nº 5, setembro-outubro de 1999) – quando se constata que a esquerda italiana chegou ao mínimo histórico dos consensos, paralelamente às derrotas sofridas pelas social-democracias européias que estão no governo na Europa, com exceção da francesa. Se a política das esquerdas não consegue se distinguir claramente (ou em nada) da política que seria conduzida por um normal governo moderado, a desafeição dos cidadãos é uma conseqüência óbvia".

As dificuldades da experiência italiana do centro-esquerda, portanto, parecem indicar que a esquerda não encontrará a si própria nem se relançará com força no cenário atual se simplesmente derivar para o centro, se apelar para os moderados em nome da "governabilidade", se aceitar a agenda dominante em nome da "modernização". Deste ponto de vista, trata-se de uma experiência com valor universal, que pode servir de base para que se pense em outras experiências de governo social-democrático ou socialista, na Europa e fora dela. Um capitalismo com rosto humano, a abnegada dedicação à reforma institucional, a fidelidade ao Ocidente ou o diálogo com as forças democráticas não bastam para projetar a esquerda. Estas são coisas que precisam ser feitas com os olhos além. A busca do centro só faz sentido se houver um pólo esquerdo claro e forte para servir de referência. É insensato procurar o centro sem que os cacos em que se fragmentou a esquerda tenham sido minimamente aproximados e costurados por uma alma comum. Uma "esquerda de governo" não pode se erguer sem uma "esquerda de valores" ou sobre as cinzas de uma "esquerda de luta".

Estará a esquerda preparada para esta operação? No fundo, é disso que se trata quando se fazem as contas para determinar se vale ou não a pena apostar tudo numa corrida rumo ao governo. Chegar ao governo é uma das mais consistentes razões da política e sempre valerá a pena se bater por ela. Quem não aspira ao governo não se completa como sujeito político. A questão, porém, é saber de que modo se deseja chegar ao governo (à base de qual política e de qual movimento) e se existem condições para se fazer com que o governar sirva para mudar de fato as coisas. Vencer a corrida e ao final se despojar dos valores, princípios e idéias com os quais se afirmava uma identidade, é não só uma "traição" à própria história mas também um enorme equívoco – o equívoco de achar que se pode avançar apenas porque se tem, no governo, uma nova e melhor classe política, que por ser nova e melhor pode se dispensar de manter vivas as referências sociais, os compromissos, os vínculos (dizendo, por exemplo, que eles são fluidos e passam com o passar do tempo histórico).

Na medida em que souber unir a perspectiva do governo à perspectiva da sociedade – o Estado e a política ao social e aos cidadãos –, e conseguir encontrar um equilíbrio entre a necessidade de repor uma "tradição" e a necessidade de se manter em permanente renovação, a esquerda resolverá a equação que lhe atravessa a garganta. E poderá então mostrar que é competente não só para governar e "fazer política", como também para se diferenciar e para transformar a política em algo colado à realidade viva das pessoas, às suas expectativas e aspirações, à sua disponibilidade para tentar, coletivamente, construir mundos sempre mais humanos e habitáveis.
(Abril-Maio de 2000)
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Marco Aurélio Nogueira é professor da Unesp e pesquisador da Fundap/SP.