Mito e Brasil

Rubem Barboza Filho
O Tempo,
Belo Horizonte, 3 jun. 1998, p. 9




Não quero assustá-lo, amigo leitor, com antiguidades. Mas penso que Fernando Henrique anda despencando nas pesquisas porque ainda não descobriu que este nosso Brasil é barroco e precisa de metafísica para viver e se movimentar. Na verdade, não me lembro de outro governo com uma visão racional tão ampla e precisa sobre o país. O conjunto de reformas proposto por Fernando Henrique abriga uma clara elegância cartesiana, mas uma harmonia interna que só provoca frouxos de emoção em cientistas. A cascata de argumentos e raciocínios que o governo despeja sobre nós tem lógica, mas é gelada como lâmina de guilhotina. O que o governo não nos ofereceu, ou não conseguiu desenhar, foi um mito correspondente às suas ambições reformadoras e refundadoras do país. Não a emoção barata dos marqueteiros, mas um sentido que permitisse à sociedade uma poderosa intuição de si mesma e de seu destino.

Deixe-me explicar melhor, paciente leitor, esta história de barroco e metafísica. Não somos barrocos apenas pelas origens históricas. A visão de mundo do barroco materializava, nos séculos XVII e XVIII, uma "vontade de crer", uma ânsia de sentidos e significados estáveis para a vida, diante dos estragos relativistas da ciência nascente e da incerteza quanto à nossa salvação eterna. O avanço da razão recheava de dúvidas o mundo, e o barroco organizava a estratégia de reconstituição de um quadro de valores vitais, reclamando da metafísica um enorme esforço reflexivo para a fixação de significados claros para a vida. Ciente da precariedade da própria metafísica, enquanto exercício de razão, o barroco mobiliza a arte para a certificação sensorial destes valores. Daí a sua gesticulação exagerada, torturada, espetaculosa, testemunhal, destinada a conferir veracidade aos valores que não podiam ser afirmados no campo exclusivo da razão.

Pois somos barrocos, leitor, porque vivemos num país e duvidamos dele. Du- vidamos de seu destino, sempre cercado de precariedade e marcado pela exploração, pela injustiça, pela falta de desenvolvimento. Mas não podemos esperar nenhuma salvação fora dele. O seu fracasso é o nosso fracasso e a nossa perdição. Precisamos acreditar nele, encontrar para ele um significado e um destino, e isto não é tarefa para as frias lâminas da razão. Precisamos é de um mito sobre o país, de uma imaginação que nos devolva permanentemente a fé em suas possibilidades, por mais irracionais que pareçam. Precisamos de um mito que nos envolva e arrebate, e justifique esta vida de misérias e sacrifícios no cotidiano. E necessitamos dos gestos de verismo, de manifestações concretas, pictóricas, sensoriais, que tornem este mito presente, visível, material e eficaz.

Os norte-americanos ergueram os Estados Unidos com um mito: o de um país da liberdade e da abundância. Mas este mito, e qualquer um, seria reles mentira se a realidade nada tivesse a ver com ele. Por isso ele não pode ser produzido por técnicas de manipulação simbólica. Só existe como o desenho vivo de um conjunto de valores exigentes, que sincronize e empolgue os governos e a sociedade. Vargas e JK sabiam disto. A era Vargas sabia do nosso barroquismo político, da nossa necessidade de metafísica e de sinais comprobatórios do nosso destino, como Brasília.

Ao proclamar a intenção de uma ruptura com o passado, de refundar a nossa vida, Fernando Henrique deveria redefinir o nosso mito nacional, reconstruindo-o de modo mais poderoso e envolvente. Foi o que não fez, entregando-se à administração prudente, racional e técnica das restrições objetivas de uma complicada conjuntura econômica. O presidente esqueceu que o país precisa ser vivido como uma epopéia coletiva, não apenas como ilustrada mesa de debates. Por isso seu governo é frio e distante. À medida que se aproximam as eleições, vamos assumindo cada vez mais a condição de animais metafísicos e brasileiros barrocos. Não é de se admirar este alvoroço das pesquisas. Ninguém parece ter ainda rasgado o véu do que precisamos. Nem a oposição.