Lutas sociais, reformas & revolução nas tradições das esquerdas brasileiras

Daniel Aarão Reis Filho
















Quando a gente pensa
de todas as maneiras
dele se guardar,
sentimento ilhado, morto, amordaçado
volta a incomodar

Fagner


1. Esquerdas & Passado: uma problemática de rejeição

          Quando Leonel Brizola reuniu, em Lisboa, em 1979, às vésperas da anistia, os adeptos da proposta de refundação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), houve uma atmosfera de (re)inaugurações. Não se rejeitaram as tradições trabalhistas, longe disso, mas os congressistas não se deram ao trabalho de efetuar um balanço crítico da experiência acumulada, das lutas sociais que sempre acompanharam o trabalhismo, de suas promessas, programas e ilusões, de suas derrotas e vitórias. As tradições eram mencionadas e reverenciadas nos discursos, mas o ânimo que predominava era o de um recomeço.

         A idéia era a de que estava nascendo um novo PTB. Moderno. Aberto a articulações internacionais, pretendia inserir-se na Internacional Social-Democrata. Disposto ao diálogo no país, queria desligar-se das derivas radicais que o haviam caracterizado na conjuntura que precedera a instauração da ditadura militar em 1964. Tratava-se de enfrentar as tarefas do presente, preparar o futuro como um partido renovado. Esta renovação, de resto, manifestava-se nas figuras presentes no plenário do Congresso, onde se mesclavam, ao lado de velhos dirigentes políticos e sindicais, alguns vindos do Brasil, ex-participantes das autodenominadas organizações revolucionárias dos anos 60 e intelectuais socialistas. O próprio Leonel Brizola, durante longos anos tido e havido como um político intratável, emergiu com propostas construtivas e moderadas, favoráveis ao diálogo, voltadas para o futuro, sem cultivar mágoas e ressentimentos. Como líder máximo do Partido, ele era a própria personificação de um processo que se queria livre dos liames do passado.

         A mesma orientação, ainda mais enfática, voltaria a predominar, menos de um ano depois, no Brasil, por ocasião da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT).

         Estavam ali acontecendo vários fenômenos inéditos na história política do país, sem dúvida. Na esteira de amplos movimentos sociais, vanguardeados por segmentos operários dos centros industriais mais modernos do país, apareceram lideranças sindicais não apenas interessadas em lutar por melhores condições de vida e de trabalho, mas também em construir uma alternativa político-partidária para o país. Articularam-se então com políticos e intelectuais provenientes dos mais variados quadrantes, inclusive das organizações que haviam participado das ações armadas nos anos 60, além de lideranças das correntes cristãs, católicos em particular, que haviam participado das lutas contra a ditadura militar, para formar um partido legal, aberto, comprometido com as lutas sociais, mas sem perder de vista a necessidade de participar das lutas institucionais. O socialismo, como perspectiva, embora em termos vagos, constava explicitamente do programa.

         As novidades e as rupturas reais geravam também uma euforia de inaugurações. O PT não teria compromissos com o passado, com as tradições elitistas, corruptas e clientelistas da política nacional. Seria um partido das bases esquecidas, das vozes silenciadas, dos que viviam do próprio trabalho. Algo novo no contexto da história do país, uma espécie de marco zero. Suas figuras de proa o atestavam, a começar pela do dirigente máximo, um líder sindical, operário. O PT era uma verdadeira frente política, onde estavam representadas variadas tendências alternativas, inclusive organizações autodenominadas revolucionárias remanescentes: a Ação Popular (AP), o Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP), a Convergência Socialista (CS), entre outras.

         Nestas circunstâncias predominou, quase que consensualmente, a idéia de que o partido recém-nascido só tinha amarras com o futuro. Um dirigente mais ousado lançaria, anos depois, a peregrina idéia de que o PT não era o último Partido do socialismo do século XX, mas o primeiro do século XXI. Uma bravata, evidentemente, mas que exprimia muito menos a miopia de um militante do que a opinião média de um partido que se queria como negação de todo um passado que não parecia lhe dizer respeito.

         Este desprezo pelo passado, esta maneira, como diria o poeta, de ilhar o passado de todas as maneiras, cercando-o pelos mares do presente e do futuro, não fora uma invenção do PTB, refundado em Lisboa, nem do PT, criado no Brasil, mas a expressão, retomada, de uma idiossincracia que mergulha raízes na história das esquerdas brasileiras, e vai fundo no tempo.

         Nos anos 60, todo o movimento da chamada esquerda revolucionária, ou nova esquerda, compartilhou desta volúpia pelo novo. O passado era um entulho de derrotas e de enganos, de erros e traições, nada tinha a ensinar. Considerá-lo, seria uma perda de tempo. Os usos e abusos do conceito de populismo desempenharam então um papel devastador. A versão que passou a predominar era a de que os trabalhadores haviam sido desviados de seus autênticos interesses por líderes populistas (PTB) e reformistas (PCB). A ditadura militar, apesar de todo o seu cortejo de horrores e tragédias, teria, ao menos, este mérito: faria cair as máscaras. Os derrotados sairiam agora de cena, criando-se as condições propícias para o avanço revolucionário...

         Se o observador recuar mais ainda no tempo, analisando as variadas tendências das esquerdas diversas, não teria dificuldade de flagrar o fenômeno, em diversas nuanças, condicionadas pelo tempo e pelo lugar, mas sempre recorrente.

         O que isto poderia significar? Existiria uma barreira metafísica entre as esquerdas e o passado? Uma maldição histórica, induzindo as esquerdas à amnésia?

         Nem uma coisa nem outra, evidentemente. Sem pretender esgotar o assunto, proponho algumas sugestões para ajudar a compreender as difíceis relações das esquerdas com o passado.

         As esquerdas são filhas legítimas da modernidade, onde nada dura e as mudanças vão adquirindo ritmos alucinados (tudo o que é sólido se desmancha no ar). Neste tempo lançado para o futuro, elas se apresentam como fatores dinâmicos, os mais comprometidos, os mais decididos e os mais favoráveis à sua chegada, aos ventos que hão de vir. Por esta razão, entre outras, estarão sempre se demarcando dos chamados Antigos Regimes, caracterizados como tempos velhos, estagnados, mortos.

         Além disso, por sua própria natureza, as esquerdas estão comprometidas com as mudanças. Precisam tensionar todas as suas forças contra os interesses adquiridos, a Ordem vigente, a Tradição. Nesta difícil luta é preciso cerrar fileiras, apurar a coesão interna, a capacidade de arrostar perigos e incompreensões que cercam sempre os que desejam inovar, reformar, revolucionar. O culto ao novo tem aí um poderoso estímulo. Não gratuitamente, nas grandes revoluções, não poucos se imaginaram dando início a um Novo Tempo, com direito, inclusive, a novos calendários. Até aqui estas observações são válidas para as esquerdas em geral, não apenas para as brasileiras.

         No caso do nosso país, é preciso aduzir as frequentes rupturas ocasionadas na trajetória das esquerdas, periodicamente tendo seus partidos fechados, seus líderes exilados ou mortos, interrompendo percursos, dificultando o exercício da memória.

         Sem falar na marca das derrotas. Abrir uma reflexão sobre um passado de derrotas é reabrir feridas, permitir processos de acusações mútuas, liberar o fantasma da desagregação. A história das reviravoltas dos comunistas brasileiros é emblemática deste ponto de vista. Sempre houve um cuidado muito grande em silenciar sobre o passado do qual se estavam desligando.

         Finalmente, não se pode esquecer um inevitável mimetismo em relação às tradições dominantes, que impregnam a cultura política da sociedade. Ora, é sabido como as elites dominantes brasileiras cultuam e adoram empregar o termo novo. A Nova República (depois de 1930), o Estado Novo (em 1937), a República Nova (depois da ditadura), entre muitas outras, são expressões bastante conhecidas e disseminadas, mas basta observar as campanhas eleitorais para perceber, até mesmo entre os candidatos conservadores, a inclinação e o gosto pela exploração do novo ( a campanha vitoriosa de Fernando Collor foi típica), o que corresponde, certamente, a uma ansiedade, difusa na sociedade, por mudanças, em outras palavras, por novas propostas, novas realizações, etc.

         Filhas da modernidade, comprometidas com as mudanças que apontam para o futuro, marcadas por periódicas rupturas, temerosas de abrir feridas ainda mal cicatrizadas, imersas numa cultura política que cultua o novo e a novidade, as esquerdas brasileiras acabaram entronizando uma profunda aversão pelo estudo e pela compreensão do seu próprio passado, ou seja, criando as melhores condições para serem tiranizadas pelos seus piores aspectos.

         Este pequeno ensaio quer remar contra esta maré, ele é um convite a uma viagem ao passado, às tradições das esquerdas. Se ele estimular a reflexão a respeito, já terá cumprido seu papel.

2. As tradições das esquerdas brasileiras: trabalhismo, comunismo, cristianismo social e socialismo democrático

         Vamos remontar à conjuntura do imediato pós-1945, quando foi deposto Getúlio Vargas e se encerrou, ao menos formalmente, o Estado Novo.

         Naquela conjuntura construíram-se, ou se reconstruíram, alternativas político-partidárias que marcaram profundamente a trajetória das esquerdas brasileiras, não apenas no período que se estendeu até 1964, como se admite correntemente, mas também até os dias de hoje, como sustentaremos neste artigo.

         a) O trabalhismo e o programa nacional-estatista

         Em primeiro lugar, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

         Foi um erro grave de avaliação imaginá-lo como fruto exclusivo das manobras maquiavélicas de Getúlio Vargas e de seus parceiros íntimos. Houve ali a participação de inúmeras lideranças sindicais, de políticos expressivos e de intelectuais. Ao longo de sua existência, aliás, o PTB manteve esta capacidade de atração e de aglutinação, transformando-se, até 1964, e gradativamente, no grande canal político-partidário através do qual se exprimiram os anseios de uma parte considerável das classes trabalhadoras urbanas. Nos grandes movimentos sociais do período, pela afirmação da soberania nacional e pelas reformas de estrutura, o PTB, apesar das contradições internas e da variedade das nuanças existentes em seu interior (desde os bigorrilhos fisiológicos até os radicais de esquerda), soube conservar a sintonia com os trabalhadores urbanos e, por isso mesmo, recebia, maciçamente, os seus votos.

         Elaborou-se, ao longo desta experiência singular, um programa nacional-estatista, baseado em dois eixos fundamentais: a soberania nacional e a justiça social. Por soberania nacional entendia-se a capacidade do país internalizar seus centros básicos de decisão, ou seja, de garantir autonomia no contexto das relações internacionais. Um requisito essencial para isto seria a existência de um Estado forte, ativo, intervencionista, definidor de políticas públicas que impulsionassem o desenvolvimento econômico com distribuição de renda e justiça social. Por esta última compreendia-se a necessidade de aprofundar as garantias inscritas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), editadas em 1943, e estendê-las ao mundo rural. Estas formulações correspondiam às propostas então muito em voga na Europa do pós-guerra e que, um pouco mais tarde, se corporificariam no assim chamado Estado do Bem-Estar Social (Welfare State). Exprimiam igualmente o prestígio das teorias que propunham regular o mercado (J. M. Keynes), evitando-se o caos que poderia advir, como foi o caso na crise de 1929, do livre jogo dos interesses capitalistas. Tais teorias haviam deixado a sua marca nos arranjos internacionais que levaram à criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Internacional de Reconstrucão e Desenvolvimento (BIRD), o chamado Banco Mundial. Por outro lado, não se deve deixar de recordar o imenso prestígio com que a URSS emergiu da II Guerra Mundial. Ora, o seu sistema social era regido pela força de um Plano estatal, centralizado, e tal experiência irradiava-se por todo o Terceiro Mundo, seduzindo as lideranças e os partidos afro-asiáticos e o que de havia de mais progressista na América Latina. Mesmo entre aqueles que não eram partidários da destruição do capitalismo, disseminavam-se as noções do Plano, da Intervenção do Estado, da Regulação do Mercado.

         O programa nacional-estatista no Brasil aparece, portanto, num contexto latino-americano e internacional. Mas não nasceu pronto e acabado, ao contrário, iria sendo retocado até alcançar sua expressão mais acabada no início dos anos 60, com as chamadas Reformas de Base, onde um Estado todo-poderoso, escoltado por inúmeras empresas estatais, seria o grande cérebro e motor de um processo de transformações estruturais. Neste modelo, os trabalhadores, organizados em sindicatos e controlando os Institutos Previdenciários, desempenhariam um papel chave, apoiando e sustentando o processo.

         No período de 1945-1964, as lutas sociais que então se desencadearam, desde a campanha do Queremismo, passando pelas lutas pela Petrobrás, nos anos 50, até os grandes movimentos pelas reformas de base, nos anos 60, foram hegemonizadas, em larga escala, pelo programa nacional-estatista. Estas lutas assumiam várias dimensões: lutas salariais e por melhores condições de vida, mal chamadas (e desprezadas), num certo jargão, como econômicas; lutas políticas propriamente ditas, visando a revogação ou a reforma de dispositivos legais ou constitucionais, ou o próprio poder político; lutas eleitorais, por determinadas candidaturas.

         Para conduzi-las, ou realizá-las, além do PTB e de frentes parlamentares mais amplas, aglutinando lideranças de outros partidos, como a Frente Parlamentar Nacionalista, recorria-se às estruturas sindicais, criadas no âmbito do Estado Novo e não eliminadas pela Constituição de 1946. Apesar de controladas pelo Estado, era possível, por isso mesmo, dependendo da conjuntura, dispor de amplas margens de manobra. No final do período, inclusive, estimuladas pela radicalização das lutas sociais e bafejadas pelo apoio e proteção do governo João Goulart, começaram a surgir inúmeras estruturas sindicais paralelas, formalmente ilegais, mas que eram, na prática, toleradas pelo governo e reconhecidas pelas entidades patronais.

         Nunca seria demais insistir que o apoio, a aliança e a articulação com instâncias do Estado – empresas estatais, institutos de previdência, os próprios órgãos governamentais, em seus vários níveis (município, estado e União), etc. – desempenhavam papel central na dinâmica dos movimentos sociais.

         Na concretização do programa nacional-estatal, grandes avanços foram registrados, principalmente nos governos presididos por Getúlio Vargas (1950-1954) e por João Goulart (1961-1964). Os trabalhadores, especialmente no último período, alcançaram níveis inéditos de influência e participação no poder político. Além disso, estavam conseguindo índices significativos de participaçào no produto nacional bruto. No governo de Jango, como o programa passou a ser rejeitado, de forma cada vez mais virulenta, pelas classes e elites dominantes, apareceram tendências radicalizadas, e mesmo revolucionárias dentro do PTB. O impacto da revolução cubana, vitoriosa em 1959, da revolução argelina, em 1962, o processo geral das independências afro-asiáticas, a guerra do Vietnã estavam então abrindo horizontes onde tudo parecia possível alcançar em termos de reformas – ou revoluções – de estruturas sociais.

         Formou-se, assim, uma subcultura política, articulada em torno de um programa, de determinadas estruturas organizativas e de certas lideranças carismáticas: o trabalhismo.

         A ditadura militar, quando se instaurou, pretendeu destruir para sempre esta tradição, mas, como veremos, ela sobreviveu ao tempo dos generais-presidentes.

         b) Os comunistas: a difícil busca de uma identidade nos marcos da aliança com o trabalhismo

         Em 1945, no contexto da queda do Estado Novo, emergiram da clandestinidade os comunistas, constituindo-se como partido legal, amplo, com propósitos de participar ativamente das lutas sociais e institucionais. O partido tinha tradições e experiências acumuladas, desde 1922, mas cedo se percebeu pressionado pelo imenso prestígio do PTB e de seus líderes nas classes trabalhadoras.

         A aliança com o trabalhismo passou então a dominar a sua trajetória.

         Foi esta aliança, sem dúvida, a responsável pela inserção dos comunistas nos movimentos sociais. Na campanha queremista, ainda em 1945, nas lutas nacionalistas dos anos 50, no grande movimento pelas reformas de base, os comunistas estariam ombro a ombro com os trabalhistas, aliados pela consecução do programa nacional-estatista. Muitos críticos acusariam o velho Partidão de capitulacionismo no âmbito desta aliança, onde se esmaecia seu perfil e desaparecia sua personalidade própria. Mas era como se as circunstâncias das lutas urbanas não abrissem outro caminho.

         Porque eles foram tentados e testados. Quando o Partidão foi posto na ilegalidade, por exemplo, em 1947, e até 1952/1954, prevaleceu a proposta de enfrentamento armado com a Ordem vigente. Houve apelos neste sentido, definiram-se programas, inspirados, em parte, na triunfante revolução chinesa (1949), algum esforço foi despendido na organização de guerrilhas rurais. Sem resultados. A partir de 1952, as próprias bases operárias do Partidão começaram a pressionar e a executar na prática, uma reorientação que privilegiava, mesmo nas difíceis condições da clandestinidade, as lutas sociais e institucionais e o programa que fazia parte do horizonte traçado pelo trabalhismo.

         Foi esta reorientação que permitiu aos comunistas participarem com êxito das campanhas nacionalistas dos anos 50, saindo do gueto político a que os relegaram as propostas de luta armada.

         Entre 1961 e 1964, no contexto da radicalização das lutas sociais, emergiram novamente, entre os comunistas, tendências radicais, favoráveis ao enfrentamento armado. Como no interior do trabalhismo, e no de todas as demais correntes populares, formou-se com força considerável a idéia de que as classes e elites dominantes no país não abririam mão de seus privilégios, que seria preciso arrancar as reformas de base à força. Um slogan sintetizou esta perspectiva: reforma agrária na lei ou na marra. Seus partidários, na prática, já não acreditavam que seria possível conseguir as reformas nos quadros da legalidade e passaram a advogar o confronto, se fosse o caso com armas nas mãos, como via para a realização do programa nacional-estatista.

         Esta opção teria continuidade, apesar da derrota política de 1964, depois de instaurada a ditadura militar. No contexto da desagregação dos partidos comprometidos com as reformas de base, emergiu um conjunto de forças políticas dispostas a levar à frente o enfrentamento armado com a Ordem. Imaginando-se revolucionárias e radicalmente novas, não se davam conta de que, pelos seus ideais e programas, e pelos seus métodos, estavam mais próximas do que distantes das tendências que desejavam superar. Em nenhum momento conseguiram formular uma teoria – ou um programa – fora dos marcos das tradições construídas e legadas pelos trabalhistas e comunistas. O reduzidíssimo eco que encontraram na sociedade apenas confirma o estado de desorientação e desmoralização políticas que se abatera sobre os movimentos sociais favoráveis às reformas de base.

         c) O cristianismo social – religiosidade e movimentos populares

         O cristianismo tem uma longa tradição conservadora no Brasil, embora sejam registradas fricções e disputas entre seus representantes e a Ordem vigente. Nas primeiras décadas da história republicana, e até 1964, a hierarquia da Igreja Católica, principal expressão no país da religião cristã, manteve-se distante, quando não contrária, às principais lutas populares. No contexto da guerra fria, iniciada logo depois do término da II Guerra Mundial, o fantasma do comunismo acentuou estas inclinações. Não gratuitamente a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil – a CNBB – abençoou o golpe militar.

         Entretanto, ainda antes de 1964, impulsionados pelo processo de aggiornamento, conduzido pelo Papa João XXIII, inspirados pelas encíclicas que chamavam atenção para os problemas sociais e para os interesses dos desfavorecidos de todas as misérias, grupos e movimentos católicos começaram a se agitar. Da Juventude Universitária Católica – a JUC –, emergiu uma organização radical, a Ação Popular, a AP, que reuniu forças suficientes para se tornar hegemônica na União Nacional dos Estudantes (UNE) e participou ativamente do amplo movimento das reformas de base.

         A AP, apesar das tentativas de preservar um perfil próprio, foi arrastada pela onda do programa e das lutas nacional-estatistas do período. Depois da vitória do golpe militar, suas diversas alas se dividiriam nos padrões da esquerda autodenominada revolucionária, sendo jogadas no gueto político onde permaneceram até o fim da ditadura.

         No interior do catolicismo, contudo, começaram a aparecer notas dissonantes. O apoio ao golpe fora dado em nome da restauração da democracia, não para a instauração de uma ditadura de duração indefinida no tempo. Além disso, a ditadura associava-se, cada vez mais, a um projeto de desenvolvimento do capitalismo que se realizava com soberano desprezo pelos valores religiosos e pelas desigualdades sociais.

         Setores da Igreja foram se passando para o campo da crítica e da luta contra a ditadura. Ordens religiosas, eminências diversas, bispos, cardeais e numerosos contingentes dos leigos, organizados nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), constituíram fator de resistência maior às ações dos governos militares. No seu interior desenvolveu-se inclusive um programa radical, elaborado por um grupo minoritário, mas que chegou a assumir real expressão, o da teologia da libertação.

         Impregnada pelos valores religiosos proclamados pelas encíclicas papais, ganhou nova expressão uma antiga tradição cristã, crítica aos valores do capitalismo, ao individualismo, ao consumismo, ao lucro fácil e exagerado, extraído à custa da miséria e das desigualdades, ao culto ao bezerro de ouro, ao materialismo. Esta orientação, para além do catolicismo, em cujo âmbito ela se enfraqueceu nos anos 80, em virtude da reação conservadora de João Paulo II, ganharia outras confissões cristãs, que iriam num crescendo ao longo dos anos 70 e 80, inclusive como reação – e lugar de refúgio – à dinâmica alucinada de mudanças imposta pelo capitalismo triunfante.

         Os representantes do cristianismo social, depois da ditadura, tomaram parte na fundação ou na refundação dos partidos populares, agregando-se, com suas características, às tradições plasmadas pelo nacional-estatismo.

         d) O socialismo democrático, uma semente para futuras colheitas

         Na conjuntura do imediato pós-guerra, articulou-se uma outra corrente política. Proveniente de diversas origens, grupos formados fundamentalmente por intelectuais, mas também por algumas lideranças operárias, formularam um programa socialista e democrático e construíram um partido político: o Partido Socialista Brasileiro (PSB). Criticavam os comunistas, entre outros aspectos, pelo seu autoritarismo e pela submissão acrítica às orientações de Moscou. Quanto aos trabalhistas, rejeitavam suas grandes lideranças, entre as quais Getúlio Vargas, e a valorização excessiva do Estado, a negligência com que tratavam os valores democráticos, as idéias, consideradas ilusórias, de que seria possível construir um capitalismo reformado.

         Espremido entre as tradições trabalhistas e comunistas, o PSB tentou, mas não conseguiu, obter expressão política e social. Acabou também envolvido nas lutas nacionalistas dos anos 50 e, nos anos 60, participaria igualmente da frente política que lutava pela realização do programa nacional-estatista.

         A tradição socialista e democrática seria, contudo, cultivada em pequenos grupos dissidentes, alternativos. Ganhou força ao longo dos anos 60 e 70, entre os que resistiram à ditadura nas estreitas margens legais, e, no exílio, entre os que descobriam as virtudes dos valores democráticos.

         Na fundação do PT, na refundação dos demais partidos identificados com as transformações sociais, esta tradição se faria presente com idéias, personalidades, propostas e valores.

3. Cultura política: o lombo duro das tradições

         Neste rápido e necessariamente imperfeito balanço, pretendeu-se elaborar uma viagem às tradições das esquerdas em nosso país.

         A ditadura quis varrer com elas, particularmente com o trabalhismo e com o programa nacional-estatista, vistos, com razão, como expressão e legado da abominada era Vargas. Não conseguiu. Um de seus esteios básicos – a estrutura sindical corporativa – permaneceu e foi reforçado, estendendo-se ao mundo rural. De dentro dela, inclusive, sairiam grande parte dos líderes populares dos anos 80 e 90, como Lula, Olívio Dutra, etc., o que atesta sua relativa autonomia e vitalidade.

         Por outro lado, a partir do segundo governo militar, retomou-se a proposta desenvolvimentista articulada em torno do Estado, levada ao paroxismo sob o general Geisel, quando se lançaram projetos que, se realizados, poderiam assegurar ao país uma real autonomia econômica no plano internacional. A hipertrofia do Estado e o enxame de empresas estatais eram a prova viva da existência de bases materiais favoráveis à reemergência eventual de um programa nacional-estatista.

         De fato, aspectos importantes deste programa renasceram com a fundação ou refundação dos partidos de esquerda no início dos anos 80. Talvez a maioria não tenha percebido, no alarido do novo, a presença de antigas propostas. Mas elas estavam lá, basta conferir os programas então formulados. Por isso mesmo, quando se empreendeu a destruição das tradições nacional-estatistas, ao longo dos anos 90, uma obra dos governos Collor e FHC, as esquerdas encontraram-se imersas em lutas defensivas, de retaguarda. A cruel ironia: os partidos novos (PT, PDT, etc.), agarrados na defesa do velho programa nacional-estatista.

         Os partidos políticos populares fundados e/ou refundados em fins dos anos 70 e inícios dos anos 80, embora aportando aspectos inovadores e mesmo rupturas radicais, cometeram a grande imprudência de se julgarem livres dos legados e das tradições. Ora, se as tradições políticas podem, em princípio, ser inventadas, não é qualquer invenção, em qualquer circunstância, que se afirma e se consolida.

         As tradições políticas impregnam uma sociedade, constituem uma cultura, um tecido difícil de rasgar e jogar no lixo. Não adianta ilhá-las e amordaçá-las porque, nos momentos mais imprevistos, elas voltam a incomodar. Impossível fazer política sem partir delas, o que não quer dizer que é preciso se conformar passivamente a seu império.

         Mas, para superá-las, é preciso aprofundar o conhecimento e o diálogo com elas. Embora bastante dilapidadas pelas novas formas assumidas pelo capitalismo, as tradições aqui visitadas permanecem vivas e ainda estão presentes. Em tempos de crise, ou de enfrentamentos, poderão reemergir com a força das coisas ignoradas.

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Daniel Aarão Reis Filho é Professor de História Contemporânea da UFF.