"No limite": darwinismo social e ideologia do controle

Paulo Denisar Fraga
Especial para
*Gramsci e o Brasil*














“A idéia de que o mundo quer ser enganado tornou-se mais verdadeira do que, sem dúvida, jamais pretendeu ser.” (Theodor Adorno e Max Horkheimer)
A Rede Globo acabou de apresentar “No limite”, seu mais novo sucesso televisivo, na verdade uma versão tupiniquim do programa “Survivor” (Sobrevivente), da CBS americana.
A notória aceitação do programa pelo grande público poderia sugerir que esse é o único critério para avaliá-lo, com aplausos. Realmente, como tudo que a indústria cultural fabrica, “No limite” parece imperiosamente simpático. Mas uma rápida análise crítica do seu conteúdo já revela o seu caráter instrumental, a serviço de formas refinadas de controle dos indivíduos e da perpetuação das condições sociais geradas pela dominação.
O enredo do programa não só é expressão nua e crua do modo de vida da sociedade capitalista, como também reprodução consciente e ativa da ideologia que lhe corresponde. A força dessa ideologia não está no que ela diz, mas na sutileza do que sugere e inculca homogênea e sistematicamente. Por isso, é preciso dissolver o fetiche da imagem perfeita e compacta, para vislumbrar alguns dos seus traços manipuladores e entender a natureza regressiva da ideologia que perpassa essa série.
Lidando não com atores ou manchetes da vida real, o apelo realista do programa, que lhe confere sucesso, corre por conta de duas equipes, que, sob situações predeterminadas, competem entre si num jogo cujos desafios implicam diretamente as condições de sua existência, tais como alimentação e abrigo. Como uma espécie de paródia do trágico, o programa familiariza-se com o público pela reprodução imagética de uma noção mais ou menos comum à vida social em crise: a de que viver tornou-se um desafio.
“No limite” realiza a sublimação estetizada do dilaceramento da vida humana na sociedade capitalista. Mas, no sistema da indústria cultural, toda sublimação é repressiva, porque é distração da sensibilidade crítica em favor do convite à diversão com formas variadas do sofrimento humano. A alma do programa é a competição, hiperpotencializada pela promessa ilusória de que a escalada da fama está ao alcance de qualquer um. Mas, nele, tudo está muito certinho. Os que perecerem no caminho é porque se mostraram menos “aptos”. Afinal, a concorrência dá a todos a sua chance, já que ela, como manifestação da “liberdade”, nunca tolhe o “justo” lugar dos “mais capazes”. É a estetização do darwinismo social, perfectibilização reacionária da idéia de que a vida social não é para todos e que só os “mais aptos” podem perseverar. É por isso que, no topo da pirâmide de “No limite”, só cabe um único indivíduo, assim como no capitalismo só cabe uma classe social.
Mas “No limite” não se deixa flagrar facilmente. Comporta em si indivíduos dos mais diferentes estratos sociais. A sugestão é de que o problema não está no sistema da desigualdade social e que a miséria não é questão de revolução, mas de vontade própria e determinação individual. É assim que o belo cenário natural, a utilização de uma linguagem com termos nativos da língua guarani e o reconhecimento das equipes como Sol e Lua, astros da natureza, correspondem à exigência liberal de naturalização da concorrência, ao mesmo tempo que recalcam a compreensão dos conflitos sociais como resultado das desigualdades da sociedade de classes.
Na hora de decidir quem sai do grupo após uma derrota, cada um que vota justifica-se entre a acusação e o lamento, espécie de autodefesa para expiar a razão de todos os problemas na figura singular daquele outro indivíduo, tudo seguindo a cega e mórbida lógica de que o sistema como um todo jamais pode ser questionado. Os telespectadores sentem-se realizados na exclusão do “mauricinho”, do “mandão”, e torcem pelos componentes mais humildes e solidários do programa. Não se percebe que isso funciona, psicologicamente, como uma válvula de escape para a qual o sistema canaliza a insatisfação social, oferecendo o descarte individualizado de alguns dos seus efeitos enquanto desvia a atenção do conjunto de suas causas. Na inquisição do indivíduo, sabota-se o próprio sentimento da indignação humana, para que esta nunca ouse se alçar à imaginação sob a forma do coletivo.
Porém, o ritual pareceria ser democrático; afinal de contas, as pessoas votam. Claro, a indústria cultural sempre precisou sustentar a ilusão do respeito à liberdade de escolha, para esconder que fabricou o próprio consumidor ao manipular o homem pela raiz, ou seja, na elaboração de suas mais íntimas necessidades. É assim, como disse Marcuse, que, “sob o jugo de um todo repressivo, a liberdade pode ser transformada em poderoso instrumento de dominação”, já que “o alcance da escolha aberta ao indivíduo não é o fator decisivo para a determinação do grau de liberdade humana, mas o que pode ser escolhido e o que é escolhido pelo indivíduo” (1). Ora, no interior do “ritmo de ferro” dos programas da indústria cultural, ninguém escolhe livremente nada, pois tudo já está previamente calculado, das perguntas às respostas. Afinal, como escreveram Adorno e Horkheimer, “só a vitória universal do ritmo e da reprodução mecânica é a garantia de que nada mudará, de que nada surgirá que não se adapte” (2).
O fato de ser um indivíduo aquele que vencerá a competição de “No limite” não significa nenhuma afirmação da individualidade. Pelo contrário, é expressão concreta da negação da humanidade como gênero, pois pressupõe a eliminação de todos os outros em vista de um. De fato, a indústria cultural, como advertiram Adorno e Horkheimer, só realiza o homem como ser genérico maldosamente, onde, sob o achatamento das diferenças individuais, “cada um é tão-somente aquilo mediante o que pode substituir todos os outros: ele é fungível, um mero exemplar” (3). Assim, não interessa quem fique ou quem saia, pois todos já estão reduzidos a engrenagens da mesma máquina. A expectativa sobre quem vai sair ou vencer é vazia. Não obstante, é ostentada com força total, pois dessa tensão depende a eficácia do sistema em canalizar a atenção do público para a sua forma pré-fabricada de ver o mundo, finalidade perante a qual a alegada preocupação com os índices de audiência não passa de meio e disfarce.
O método de “No limite” está inscrito em um processo mais amplo de consolidação progressiva da vida administrada, onde a diversão sádica com a especulação dos limites e mazelas da vida privada do outro carrega um veio totalitário. Não é à toa que a idéia das webcâmeras da internet, que transmitem 24 horas por dia a vida de algumas pessoas, é o mesmo método de cobertura que garante o sucesso de “No limite”, e encontra a sua inspiração original no Grande Irmão, o ditador do livro/filme 1984, de Georg Orwell, cujo olho eletrônico vigiava ininterruptamente a vida cotidiana das pessoas. Eis um dos motivos pelos quais a apologia acrítica dos teóricos do deslumbramento não é suficiente para esconder os aspectos regressivos da internet, os quais reatualizam toda a força crítica do conceito frankfurtiano de indústria cultural.
Enquanto cidades espalham câmeras por todos os lados, estrategistas projetam uma vida urbana em que os indivíduos seriam monitorados por cartões, que usariam para acessar todo e qualquer lugar, até a porta de suas casas. Mas a melhor fórmula de controle ainda é rebaixar a cultura ao extremo de transformar o sofrimento em diversão. A indústria cultural está apenas inculcando formas subjetivas de diversão, que, quando saírem completamente da virtualidade para a vida real, terão arregimentado tantas tendências irracionais que a sociedade inteira salivará diante do controle totalitário.

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Paulo Denisar Fraga é professor do Departamento de Filosofia da Unijuí, no Rio Grande do Sul.
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(1) Marcuse, H. A ideologia da sociedade industrial. 6. ed. Rio de Janeiro, Zahar, 1982, p. 28.
(2) Adorno, T., Horkheimer, M. Dialética do conhecimento. 7. ed., Rio de Janeiro, Zahar, 1997, p. 126.
(3) Idem. Ibidem, p. 136.