Brasilidade encarnada: artistas da revolução

Marcelo Ridenti
Especial para
*Gramsci e o Brasil*














Este artigo vem apresentar meu livro Em busca do povo brasileiro: do CPC à era da TV (Rio de Janeiro: Record, 2000). O título decorre de uma hipótese que permeia todos os capítulos: nos anos 1960 e início dos 70, nos meios artísticos e intelectualizados de esquerda, era central o problema da identidade nacional e política do povo brasileiro, na busca da ruptura com o subdesenvolvimento, típico de uma espécie de desvio à esquerda do que se convencionou chamar ultimamente de “era Vargas”, caracterizada pela aposta no desenvolvimento nacional com base na intervenção do Estado (1). Esse tema foi-se diluindo ao longo dos anos, especialmente após o fim da ditadura civil-militar. Com a mundialização da economia e da cultura, que atingiu diretamente a sociedade brasileira nos anos 90 - especialmente nos governos neoliberais de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, que se propuseram a enterrar a “era Vargas” -, voltaram à tona velhas questões mal-resolvidas sobre a identidade nacional do povo brasileiro. Nessa medida, o estudo de aspectos do passado recente talvez possa contribuir para lançar um pouco de luz nos debates do presente.
O livro trata sobretudo dos anos 60 e início dos 70, mas também arrisca sugerir alguns desdobramentos do engajamento de artistas e intelectuais daquele período nos anos seguintes. Por isso, um outro título possível poderia ser: Do CPC a FHC. Trata-se de um objeto que, além de fascinante e polêmico, é muito vasto e complexo, o que me anima a continuar pesquisas que dêem continuidade ao livro.
Seis capítulos compõem o livro: no primeiro, são expostos aspectos da constituição do romantismo revolucionário nos meios intelectualizados da sociedade brasileira nos anos 60 e início dos 70, marcados pela utopia da integração do intelectual com o homem simples do povo. Esse tipo de romantismo marcou as artes, as ciências sociais e a política no período.
O conceito de romantismo revolucionário foi adotado não para colocar uma espécie de camisa de força na diversidade dos problemas estudados, mas como fio condutor para compreender o movimento contraditório da diversificada ação política de artistas e intelectuais inseridos em partidos e movimentos de esquerda, enraizados socialmente sobretudo nas classes médias. Adoto o conceito no sentido proposto por Michael Löwy e Robert Sayre, para quem “o romantismo apresenta uma crítica da modernidade, isto é, da civilização capitalista moderna, em nome de valores e ideais do passado” (1995: p. 34). Dentre os diversos tipos de crítica romântica ao capitalismo, haveria um “romantismo revolucionário e/ou utópico”, com o qual Löwy e Sayre estão identificados, particularmente na sua vertente marxista, que estaria presente também em autores como Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Henri Lefebvre, E. P. Thompson, Raymond Williams e outros, sem contar o forte componente romântico da obra de Marx e Engels, esquecido pelo marxismo oficial da II e da III Internacional (1995: p.125).
O segundo capítulo mostra aspectos do romantismo na tradição cultural do Partido Comunista, o mais significativo e influente da esquerda brasileira até 1964. A partir de meados dos anos 1950, sob a influência das denúncias de Krushev acerca dos crimes de Stálin no XX Congresso do Partido Comunista da URSS, da consolidação da “democracia populista” e do florescimento de movimentos populares no Brasil, foram ocorrendo mudanças de rumo no PCB, em particular na esfera cultural, com o abandono do zdanovismo e a proposição de uma arte nacional-popular. Essas mudanças permitem visualizar certos traços românticos nos setores culturais do Partido, raramente perceptíveis nos documentos políticos oficiais, mas evidentes na prática e nas formulações diferenciadas entre si de seus militantes do campo artístico e intelectual.
Havia também leituras apenas progressistas e modernizadoras do nacional-popular - sem referência ao resgate do passado -, as quais não podem ser caracterizadas como românticas. Entretanto, no conjunto das atividades culturais, intelectuais e também políticas do pré-1964, quase sempre a utopia do progresso revolucionário ligava-se à busca romântica das autênticas raízes nacionais do povo brasileiro - e isso vale para toda a esquerda, não só para o setor cultural do PCB, ao longo dos anos 60. Tratava-se de buscar no passado uma cultura popular autêntica para construir uma nova nação, com uma modernidade alternativa à capitalista.
O terceiro capítulo destaca grupos de esquerda, depois de 1964, como as dissidências do PCB e os trotskistas, sempre vinculando sua atuação com a ebulição cultural do período, com ênfase na participação de artistas em suas fileiras. Seria um equívoco qualificar esses grupos - e o próprio PCB - de passadistas. Ao contrário: para eles, retrógrada era a ditadura militar, apoiada por latifundiários, imperialistas e setores empresariais, a quem interessaria manter o subdesenvolvimento nacional. Tratava-se, portanto, de pontos de vista modernizantes, que só podem ser chamados de românticos na medida em que a alternativa de modernização passava por certa idealização nostálgica do povo brasileiro - que variava de grupo para grupo.
Para pensar o movimento cultural de esquerda a partir dos anos 60, foram tomados como referenciais os compositores mais conhecidos e influentes politicamente da recente música popular brasileira - quer pelo talento, quer pela presença freqüente nos meios de comunicação de massa e pela inserção privilegiada na chamada indústria cultural -, Chico Buarque e Caetano Veloso. Eles jamais foram militantes políticos; entretanto, suas trajetórias artísticas e políticas até os dias de hoje só podem ser compreendidas a partir das origens na cultura política brasileira dos anos 50 e 60, marcada pela luta contra o subdesenvolvimento nacional e pela constituição de uma identidade para o povo brasileiro.
Seria cabível tomar como parâmetro a obra e o pensamento de muitos outros artistas brasileiros, marcados pelo florescimento cultural dos anos 50 e 60, como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, José Celso Martinez Corrêa, Augusto Boal, Vianinha, Ferreira Gullar, Antonio Callado, Hélio Oiticica e dezenas de outros - inclusive alguns que tiveram militância direta em organizações de esquerda, como os artistas plásticos Sérgio Ferro e Carlos Zílio, além de outros tantos mencionados nos primeiros capítulos da tese -, talvez até melhores artistas que Chico Buarque e Caetano Veloso, que não obstante foram escolhidos por sua popularidade ímpar, geradora de ampla influência cultural e política, difusa socialmente desde os anos 60.
A obra de Chico Buarque é paradigmática do romantismo revolucionário presente em setores da esquerda intelectual, artística e político-partidária, ao passo que o tropicalismo e particularmente as intervenções de Caetano Veloso têm um forte componente crítico do romantismo comunista, embora talvez possam ser considerados românticos por outra via. Contudo, vale reafirmar, o universo em que se movem ambos os autores é o da geração intelectual politizada nos anos 50 e 60, comprometida com o desenvolvimento nacional e a constituição de um povo brasileiro autônomo.
O quarto capítulo toma como referencial uma leitura do romance de Chico Buarque, Benjamim (1995), para fazer um balanço da dimensão sócio-política no conjunto das obras do autor, produzidas entre os anos 60 e os 90, período revisitado em Benjamim. O romance recoloca e atualiza o "lirismo nostálgico" e a "crítica social", paralelamente ao esvaziamento da "variante utópica" da obra de Chico Buarque, expressando a perplexidade da intelectualidade de esquerda às portas do século XXI.
O quinto capítulo trata da brasilidade de Caetano Veloso, figura mais conhecida do movimento tropicalista em 1967 e 68, e seu herdeiro de maior destaque junto ao público até hoje. A hipótese sugerida vai na contracorrente das idéias dominantes sobre o tropicalismo: esse movimento traz as marcas da formação político-cultural dos anos 50 e 60; isto é, o tropicalismo não foi uma ruptura radical com a cultura política forjada naqueles anos, apenas um de seus frutos diferenciados, modernizador e crítico do romantismo nacional-popular, porém dentro da cultura política romântica da época, centrada na ruptura com o subdesenvolvimento nacional e na constituição de uma identidade do povo brasileiro, com o qual artistas e intelectuais deveriam estar intimamente ligados. Ao encerrar o ciclo participante, o tropicalismo já indicava os desdobramentos do império da indústria cultural na sociedade brasileira, que transformaria a promessa de socialização em massificação da cultura, inclusive incorporando desfiguradamente aspectos dos movimentos culturais contestadores dos anos 60, como o tropicalismo e o nacional-popular.
Por fim, procura-se apontar no sexto capítulo o refluxo e alguns desdobramentos da herança do romantismo revolucionário de artistas e intelectuais na sociedade brasileira a partir dos anos 70, até chegar a uma certa recuperação em nossos dias das antes quase esquecidas idéias de povo, Estado-nação e raízes culturais, até como reação ao ímpeto transnacionalizante neoliberal.
As fontes de análise foram várias: uso da farta bibliografia disponível, levantamento de material publicado em jornais e revistas (Estudos Sociais, Brasiliense, Civilização Brasileira, Vozes, Opinião, Movimento, Pasquim, Arte em Revista, Voz da Unidade, Em Tempo, Teoria & Debate, Veja, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e outras), realização exclusiva para a pesquisa de inúmeras entrevistas com artistas e intelectuais - trinta delas foram transcritas e mais diretamente utilizadas -, depoimentos de intelectuais e artistas aos meios de comunicação e a outros autores (particularmente a Antonio Albino Canelas Rubim, que me cedeu algumas entrevistas inéditas de que dispunha), além de muitas obras produzidas no período, como discos, romances, poemas e filmes.
O livro não tem pretensões teóricas no campo da estética. Ele se insere no terreno da sociologia, mas dentro da tradição que vê uma unidade interdisciplinar nas ciências humanas. Ou seja, o objeto da análise é a inserção política dos artistas e intelectuais de esquerda na sociedade brasileira, pelas suas declarações à imprensa, participação em partidos e campanhas políticas, até mesmo pelo conteúdo e pela forma de suas obras, ainda que a análise não passe pelos critérios do que vem a ser a beleza estética. Nesse sentido, faço minhas as palavras de Janet Wollf: “não tentarei lidar com a questão do valor estético. Não sei a resposta para o problema da ‘beleza’ ou do ‘mérito artístico’, apenas afirmarei que não acredito que isso seja redutível a fatores políticos e sociais” (1993: p.7).
O centro da pesquisa é a atuação política dos artistas, a qual nem sempre tem correspondência imediata com suas produções - autores reacionários politicamente são por vezes autores de obras-primas que exprimem as contradições de uma época. Apesar disso - especialmente para a geração de artistas que se consideravam revolucionários nos anos 60, vinculando indissociavelmente sua vida e sua obra -, parece não ser fora de propósito analisar tanto os depoimentos, como as ações e as obras para melhor entender a inserção política e social de seus autores, ainda mais quando eles explicitamente fazem reflexões sobre a sociedade brasileira por intermédio de suas criações, mesmo que sem as reduzir a isso. Esse último aspecto, por certo controverso, merece ainda algumas observações.
Não se trata de fazer uma abordagem reducionista do campo estético, como se a obra de arte fosse imediatamente identificável com uma única mensagem política, que se veicularia pelas artes. Tampouco caberia o simplismo do marxismo vulgar, que em tudo vê o reflexo do "econômico", reduzindo as criações artísticas a elementos da "superestrutura" ideológica e política, determinada pela "infraestrutura" econômica.
Nos limites do trabalho proposto, não está em foco propriamente o valor intrínseco da obra de arte, mas sua temporalidade, vale dizer, a história de uma sociedade numa dada época pode ser contada também pela produção cultural.
Cientistas sociais identificados com o materialismo dialético - que pretendem analisar a sociedade historicamente, como totalidade contraditória em movimento - devem suspender o "dado para focalizar o modo de uma sociedade constitui-se como um dar-se", segundo Giannotti (1983: p.268). Aos que pretendem superar o dado, questionando-o pelas raízes, para captar o movimento da sociedade enquanto todo contraditório, cabe pensar a produção artística de uma época como indissociável de sua história social e política. Isso não significa recusar a especificidade das artes, nem reduzi-las a reflexo da economia política. Mas implica questioná-las como dado a-histórico.
Como o texto já vai deixando evidente, algumas proposições de fundo estão expressas ou latentes ao longo do livro:
1. Apesar das diferenças entre as várias ideologias e facções de esquerda a partir dos anos 60, surge ao menos uma permanência para artistas e intelectuais engajados: tem sido central para eles, ainda que diferenciadamente, a questão da identidade nacional do povo brasileiro, associada à ruptura do subdesenvolvimento.

2. O espírito revolucionário dos anos 60 e início dos 70 na sociedade brasileira - da luta da esquerda armada às manifestações político-culturais na música popular, no cinema, no teatro, nas artes plásticas e na literatura - pode ser caracterizado pelo conceito de romantismo, formulado por Löwy e Sayre, particularmente pelo que chamam de romantismo revolucionário.

3. A difusão pelo meio artístico de um diversificado ideário crítico da ordem estabelecida na sociedade brasileira, sobretudo a partir dos anos 60, explica-se não só pelo "traumatismo ético-cultural e político-moral" provocado em certos intelectuais pela realidade capitalista em determinadas conjunturas (na expressão de Löwy, 1979) - situação que Berman chamou de "cisão fáustica" de intelectuais de países subdesenvolvidos (1986) - mas também pela nova função das classes médias e de sua intelligentsia, na tradução e na articulação entre os interesses particulares e os públicos (Oliveira, 1988).

4. Pode-se acompanhar pelas declarações, pela atuação política e até mesmo pelas obras de diferentes artistas, os debates e as divergências no seio da esquerda brasileira a partir dos anos 60, inclusive a virada do eixo temático predominante no seu interior, que foi aos poucos deixando de ser o da revolução, para tornar-se o da democracia e cidadania.
Enfim, o livro retoma o florescimento cultural revolucionário dos anos 60, e posterior refluxo: CPC, Cadernos do Povo Brasileiro, Cinema Novo, Teatros Arena, Oficina e Opinião, Revista Civilização Brasileira e outras, literatura e MPB engajadas, mostras contestadoras de artes plásticas, tropicalismo, grupos teatrais alternativos, resistência à censura e à ditadura, exílios, mortes e prisões, concomitantes à incorporação do trabalho de artistas e intelectuais pela indústria cultural, especialmente a televisão - sempre mostrando as afinidades eletivas entre as organizações de esquerda e o mundo da cultura em sentido estrito.
Dito isso, convido os leitores para o debate que o livro enseja, sobre a revolução brasileira e o “ensaio geral de socialização da cultura”.

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Marcelo Ridenti é professor do IFCH da Unicamp e autor de O fantasma da revolução brasileira (São Paulo: Unesp, 1993) e Em busca do povo brasileiro: do CPC à era da TV (Rio de Janeiro: Record, 2000).
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(1) O termo "esquerda" é usado aqui para designar, numa formulação sintética, as forças políticas críticas da ordem capitalista estabelecida, identificadas com as lutas dos trabalhadores pela transformação social. Trata-se de uma definição ampla, próxima da utilizada por Gorender, para quem "os diferentes graus, caminhos e formas dessa transformação social pluralizam a esquerda e fazem dela um espectro de cores e matizes" (1987: p.7). Também Marco Aurélio Garcia trabalha com um conceito amplo de "esquerda", próximo do empregado aqui (1986: p. 194-195).

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Referências bibliográficas

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Cia das Letras, 1986.

BUARQUE, Chico. Benjamim. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

GARCIA, Marco Aurélio (org.). As esquerdas e a democracia. Rio de Janeiro: Paz e Terra/Cedec, 1986.

GORENDER, Jacob. Combate nas trevas - a esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada. São Paulo, Ática, 1987.

GIANNOTTI, José A. Trabalho e reflexão. São Paulo, Brasiliense, 1983.

LÖWY, Michael. Para uma sociologia dos intelectuais revolucionários. São Paulo: Ciências Humanas, 1979.

LÖWY, Michael, e SAYRE, Robert. Revolta e melancolia - o romantismo na contramão da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1995.

OLIVEIRA, Francisco de. Medusa ou as classes médias e a consolidação democrática. In: O'DONNEL, G. & REIS, F. W. (orgs.). Dilemas e perspectivas da democracia no Brasil. São Paulo: Vértice, p.282-295, 1988.

VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Cia das Letras, 1997.

WOLFF, Janet. The social production of art. 2a. ed. Londres: MacMillan, 1993.