Resultados eleitorais

Gildo Marçal Brandão
Diário do Grande ABC,
4 out. 2000




A essa altura, quase tudo deve ter sido dito sobre os resultados eleitorais, mas imagino que uma visão mais distanciada das paixões do momento pode ser de alguma serventia. Assim, a primeira observação a fazer é que a impressão inicial de que os grandes vencedores dessa eleição municipal teriam sido o PT e o PFL deve ser confirmada e relativizada.
De fato, esses dois partidos estão colhendo o fruto do investimento pesado que têm feito em profissionalização de quadros e construção de identidades ideológicas e programáticas claras. Partindo de pontos opostos, ambos estão crescendo capilarmente, se espalhando pelo país. Na origem, o PT era um partido paulista. Hoje, não apenas se afirma como a segunda ou terceira força na maioria das capitais e grandes cidades, como vem conseguindo ultrapassar a barreira histórica da esquerda e ser votado nas pequenas e médias cidades e áreas rurais. Antes, só tinha um grupo de capitães oriundos da liderança sindical do ABC e dos remanescentes da classe média de esquerda que havia se engajado na luta armada. Hoje, tem lideranças estaduais, mudou a composição social de sua elite dirigente e gerou uma quantidade razoável de sargentos, capazes de fazer a ponte entre os soldados e seus capitães.
Parte substancial de seu êxito nessas eleições tem a ver com o fato de que encarnou como ninguém a necessidade de ética na política, mas também com a circunstância de ter conseguido generalizar a partir de sua experiência e apresentar nacionalmente uma cesta básica de propostas para a administração municipal - orçamento participativo, políticas de renda mínima, banco do povo, integração regional entre municípios afins, etc. Pode ainda ser deficiente em termos de propostas para o país, mas não há dúvida de que vem se tornando parte e expressão de um movimento de revitalização da representação política e das administrações municipais.
Já o PFL há muito deixou de ser o partido dos grotões e basicamente nordestino. Partido de notáveis, é cada vez mais um partido de quadros enraizado urbana e nacionalmente. Em estados como Pernambuco e mesmo Bahia, onde tradicionalmente as correntes conservadores dominavam apenas os cafundós rurais, foi capaz de contestar o direito divino de que a esquerda se julgava investida, de dirigir politicamente a massa urbana da capital. Se souber fazer, a decadência de Paulo Maluf em São Paulo pode ser a oportunidade para finalmente fincar os pés no maior colégio eleitoral do país. Por outro lado, tratando-se de um partido de direita, seu esforço de consolidação ideológica é até mais surpreendente do que o do PT, tanto mais que isso se faz não em prejuízo, mas a serviço de sua capacidade de combinar arroubos populistas, retórica liberal e prática usual.
Posto isso, a impressão de que os dois são os vitoriosos deve ser relativizada. Em primeiro lugar, porque num sistema político como o nosso, que combina um sistema eleitoral proporcional de listas abertas com um partidário estadualizado, é sempre difícil saber quem ganhou e quem perdeu eleições - a não ser em situações francamente plebiscitárias. Na verdade, dado o alto grau de fragmentação do sistema, todos ou quase todos ganham e perdem alguma coisa, de modo que só no longo prazo é possível detectar as tendências consistentes e não apenas conjunturais, as mudanças históricas na correlação de forças e equilíbrio entre os partidos
Por isso, quase todos podem alegar bons resultados. Não é verdade, por exemplo, que os ônus do governo federal ficaram todos com o PSDB, que teria sido o grande derrotado. Ao contrário, ele não só obteve o maior número de votos no país como se consolidou como um, senão o, partido do centro. Num estado como São Paulo, conseguiu substituir inteiramente o velho PMDB e, apesar do terceiro lugar, obteve um extraordinário êxito na capital, onde tradicionalmente era frágil. Seus 17% dos votos transformam o vice-governador Geraldo Alckmin, cuja base política real é o interior do estado, em forte candidato ao governo em 2004.
Quanto ao PMDB, sua votação é sempre decrescente em relação aos seus áureos tempos e foi varrido em São Paulo, que já foi sua principal base eleitoral e partidária. Apesar disso, conserva muitos redutos e teve proporcionalmente a segunda maior votação do país (cerca de 15,5%, enquanto o PSDB obteve 15,8, o PFL 15,1, o PT 14,3, o PPB 8,1 e o PPS 3,9%, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral). Trata-se de um feito não desprezível, considerando-se que se trata de um partido há muito sem qualquer identidade programática (e nenhuma vontade de reconquistar uma) e cuja coesão é em grande parte fisiológica. Acontece que o PMDB é o partido mais federalizado que existe no país: sua inserção nos estados é efetiva e sua política nacional não é senão a soma de seus interesses estaduais - é daí que vem a sua força.
De qualquer maneira, salvo engano, o PMDB, o PPB e o PDT foram os partidos que mais perderam. Por motivos óbvios, está se formando no país a frente mais ampla e quem sabe progressista que a história do país registra: a de todos aqueles que querem ver Paulo Maluf pelas costas. Não me refiro exclusivamente aos seus inimigos naturais, mas também aos seus competidores do PFL e aos seus correligionários não-paulistas do próprio PPB - todos estão esperando ansiosamente o cortejo passar.
Já o PDT parece ser uma estrela francamente decadente. Ele sempre foi um partido regional e ainda que resista bravamente, está ferido de morte tanto no Rio Grande do Sul como no Rio de Janeiro. Na competição dentro da esquerda, parece-me que partidos como o PPS e o PSB terão maiores chances, o primeiro evidentemente mais do que o segundo, não apenas em função da candidatura presidencial de Ciro Gomes e da liderança decadente e hoje interiorana de Miguel Arraes, mas também porque está se enraizando nacionalmente e, bem ou mal, tem vocação e proposta política nacional.

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Gildo Marçal Brandão é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo.
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