Erros e acertos do passado

Leandro Konder
O Globo,
16 out. 2000




O passado, entre nós, tem má fama. Muita gente anda manifestando certa revolta contra ele. É compreensível: ele deixou marcas terríveis, dolorosíssimas, na sociedade brasileira. Contudo, já que ele se recusa a desaparecer, é melhor nós o encararmos do que tentarmos ignorá-lo ou cancelá-lo através de condenações retóricas.
Não adianta tentar intimidar o nosso passado com palavras altissonantes sobre o futuro que nos espera, como também não adianta declarar que a situação presente o eliminou. Ele não só é teimoso como é esperto e pega carona no discurso e nas atitudes daqueles que o negam.
Mesmo as grandes revoluções viveram essa experiência amarga. A Revolução Francesa do final do século XVIII queria criar uma nova democracia jacobina radical e acabou escorregando em Napoleão Bonaparte e na Restauração Monárquica. A Revolução Russa de novembro de 1917 começou com a efervescência leninista e acabou resvalando para a ditadura stalinista, até degenerar no conservadorismo de Brejnev. Por essas e por outras Kafka foi levado a uma conclusão pessimista: “A revolução se evapora e fica o lodo de uma nova burocracia”.
A frase de Kafka vale como uma lúcida advertência. Se não renunciamos a revolucionar a sociedade, se continuamos a enfrentar o desafio de transformá-la radicalmente, então devemos reconhecer que é necessário promover as mudanças imprescindíveis em profundidade, de maneira a modificar o quotidiano da massa do povo, mobilizando o pensamento, a sensibilidade, a vontade de todos e de cada um, num processo que não se reduz jamais a episódios militares ou a explosões de revolta.
O processo do revolucionamento da sociedade tem rupturas e também tem a dimensão da continuidade. A consciência capaz de compreendê-lo e estimulá-lo precisa se debruçar com espírito crítico, porém despreconceituoso, sobre o o passado. Precisa entender bem o que se passou para se situar na atualidade.
Nem tudo no passado efetivamente passa. Os melhores marxistas sempre souberam disso. A começar por Marx e Engels, que fizeram no “Manifesto Comunista” o elogio das conquistas alcançadas pela burguesia na transformação do mundo e às quais o proletariado, segundo eles, nunca deveria renunciar.
Lukács dedicou algumas das suas melhores páginas de crítica literária ao resgate das qualidades de autores “antigos”, como Balzac, Goethe, Lessing, Büchner, Shakespeare e Walter Scott, sugerindo aos escritores de esquerda que reaproveitassem no presente algo do espírito com que aqueles “clássicos” trabalharam.
E Gramsci alertava, nos Cadernos do Cárcere: “Uma geração que amesquinha a geração que a precedeu, que não consegue reconhecer as grandezas dela nem o seu significado necessário, é uma geração que mostra ser mesquinha, que não tem confiança em si mesma, ainda que assuma pose de gladiador e exiba mania de grandeza”.
Um dos maiores riscos que correm os detratores do passado é aquele que decorre da impressão que eles têm - e que lhes afaga a vaidade - de serem absolutamente originais. Na medida em que conseguem enxergar as limitações do horizonte dos que vieram antes, esses candidatos à completa originalidade fixam nessas limitações uma atenção exclusiva e unilateral, deixando de aproveitar a riqueza dos acertos de seus predecessores.
Os mortos não sofrem com essa injustiça, é claro. Quem sofre com o emburrecimento dos autores contemporâneos que cometem esse equívoco dos autores contemporâneos, quem paga o preço desse emburrecimento, somos nós, que estamos vivos e gostaríamos de compreender um pouco melhor o caminho que foi e continua sendo trilhado pela nossa sociedade.

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Leandro Konder é professor da PUC-Rio.
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