Apesar de tudo, em defesa da política

Carlota Boto
Especial para
*Gramsci e o Brasil*














Os anos da globalização têm sido tempos de rejeição da política. A espetacularização do consumo como suposto consolo para o lugar vazio dos insaciáveis desejos humanos, a fragilização institucional provocada pelas promessas não cumpridas do liberalismo triunfante, a traição ideológica da pauta socialista - tudo contribui para um determinado descrédito coletivo quanto às possibilidades da ação política. Neste cenário - mas na contracorrente - o livro de Marco Aurélio Nogueira faz jus a seu título: Em defesa da política (São Paulo, Editora Senac, 2001) O autor, pela obra, atualiza sua vocação de intelectual, fazendo deslizar o sentido da responsabilidade de sua arguta ética da convicção. Responsabilidade perante o futuro, perante as novas gerações, perante o compromisso para com projetos e prospectos de mundo que honrem a trajetória histórica de construção da alternativa democrática.
Pautado por uma clara e explícita defesa da ação política, Marco Aurélio vale-se de recursos intelectuais complexos em uma linguagem clara, fluente, serena e, sobretudo, sólida. O rigor conceitual do cientista político - cujo constante diálogo com o pensamento de Gramsci ressoa fundo no livro - alia-se claramente à habilidade do escritor. Fazendo com que seu estilo de redação coincida com o explícito intuito de compartilhar idéias com um maior número de leitores, o autor debate temas imprescindíveis para a agenda do pensamento político da atualidade. Destaca-se, entre eles, a diferenciação entre a política dos políticos, a política dos cidadãos e a política dos técnicos, esta última sintomaticamente nomeada ‘política sem política’. A pior política é exatamente esta: a que se recusa a aparecer como tal. Esta ‘política sem política’, fantasiada de racionalidade neutra e objetiva da pretensa atitude administrativa, justifica seus atos mediante a sujeição calada de corações e de mentes temerosos e fragmentados, solitários e solapados. Tal ‘política sem política’ age pelas margens: planeja, governa, calcula, articula, seduz, conspira, trai - e oculta as armas. A ‘política sem política’ ajusta e flexibiliza; mas se esquece do sentido primordial e do verdadeiro lugar das reformas na produção de transformações. Rejeitando sua própria vocação, trai seu tempo, não contribui para o bem comum, pospõe seu compromisso com o futuro.
Acerca do tema, este texto nos instiga e nos interpela: é possível reinventar o valor público da cidadania? Como pensar formas alternativas e criativas de vida e de convivência? Como mobilizar as inovadoras tecnologias da informação para a produção de novos registros da inteligência? O mundo digital nos impõe sua lógica: o que fazemos para socializá-la e mobilizá-la para a construção de uma sociedade que crie a interlocução como referência e como método?
Enfim, o livro de Marco Aurélio Nogueira constitui, nas entrelinhas, um implícito convite para radicalizarmos as fronteiras da democracia, tanto no que toca à visualização dos direitos quanto no que diz respeito ao dever público de implementá-los e de protegê-los: ‘direitos no sentido forte’ requerem deveres de cumprimento cidadão. Requerem cultura cívica: engajamento, militância e aposta social para fundar novos pactos. Se, ao fazer política, disputamos espaços e governamos territórios, gerimos paixões e organizamos interesses, ao empreendermos a defesa da política, é fundamental assumirmos o compartilhar dos rumos e o coletivo das direções. É esta a ‘política com muita política’ de que fala este livro: é isto que, com ele, defendemos.

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Carlota Boto é professora de História da Educação na Faculdade de Ciências e Letras / Unesp - Campus de Araraquara.
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