Revoluções passivas

Marco Aurélio Nogueira
Jornal da Tarde,
São Paulo, 24 dez. 1997, p. 2














           Não há como fugir da constatação de que a atual fase de mudanças aceleradas, precisamente por revirar os fundamentos mesmos da vida contemporânea, suspende a possibilidade de se colocar em curso uma revolução propriamente dita, isto é, um processo firme de rupturas políticas conscientemente orientadas.
           "Não se vive mais o tempo das revoluções", observa o cientista político Luiz Werneck Vianna em A Revolução Passiva. Iberismo e Americanismo no Brasil (Rio: Editora Revan, 1997). A decadência "heurística" da revolução está associada tanto aos vários aspectos da "globalização", quanto aos efeitos "do assemelhamento universal e do esvaziamento da categoria trabalho como variável sociológica explicativa dos processos sociais". O vigor das mudanças parece provir mais dos "fatos" do que de decisões políticas, com os processos assumindo a forma e o ritmo de verdadeiras "revoluções passivas": não há grandes rupturas, mas a modernização capitalista avança sem cessar.
           Não é que os operadores políticos tenham feito uma opção pelo "reformismo". Trata-se bem mais de uma "imposição" da realidade. Algo que põe no mínimo uma questão: a força avassaladora dos processos objetivos estaria trazendo consigo a "morte" dos sujeitos? Ou, ao contrário, estaria promovendo a transfiguração dos protagonistas da movimentação social? Dizendo de outro modo: estaríamos assistindo à substituição das classes, com seus partidos e seu protagonismo abrangente, pelos grupos de interesses corporativamente posicionados em torno de questões de "novo tipo" (direitos, benefícios, serviços públicos)?
           A questão diz respeito à interpretação da época atual e à definição dos termos e instrumentos com os quais se faz política. O reconhecimento de que vivemos uma época de "revoluções passivas" é acima de tudo um critério de interpretação, com o qual os atores interessados na mudança podem delinear uma estratégia de intervenção e de luta hegemônica mais consistente, baseada na inteligência metódica das "guerras de posição" e não na virulência das explosões populares.
           A mesma perspectiva, porém, converte-se em programa de ação quando manuseada por elites conservadoras. Da constatação de que vivemos hoje sob o império das imposições coercitivas da "globalização" capitalista não seria difícil, por exemplo, extrair um programa político dedicado a materializar a idéia de que tudo ficaria facilitado se, ao invés de resistir, buscássemos nos acomodar aos fatos. Exageros retóricos à parte, é o que fazem os arautos da "grande transformação" em curso: para eles, existiriam apenas pequenos interesses se superpondo à falência dos grandes interesses (nacionais ou de classe), num quadro em que faltam condições objetivas para projetos políticos fortes. Donde não se justificar, dizem, oposições ao "novo": as tentativas de defender direitos "passados", as organizações e ideologias alternativas, assim como as atitudes de inconformismo e rebeldia, seriam no mínimo pouco legítimas. Bloqueariam a plena fruição das vantagens de um ajuste corajoso e acelerado.
           No bojo desse programa político estrutura-se um plano inconfesso: mudemos o mundo tão depressa quanto possível, mas conservemos o fundamento mesmo da ordem pretérita -- a exclusão social, a democracia minimalista, a oposição inofensiva, o domínio do grande capital, o individualismo. Em suma: façamos a revolução passiva, enclausurando a história num círculo de chumbo.
           Mas a "morte" dos grandes atores classistas não representa o cancelamento da subjetividade política. A questão dos sujeitos, do conflito e da contestação ressurge incessantemente, alimentada pelos próprios "fatos" atuais: a crise social, o desemprego, a democratização do acesso a informações e serviços, as multidões multiplicadas, a luta por direitos. Embora esteja suspensa a possibilidade da revolução, encontra-se mais acesa do que nunca a disputa para saber quem se capacitará para comandar e orientar os processos de transformação. Da própria realidade material emergem as condições para a reposição de velhos protagonistas e a plena maturação de personagens novos. De modo tão forte e inusitado que se cria mesmo a imagem de uma sociedade civil hiperativa, espaço gerador de formas de organização societal capazes de desempenhar funções eminentemente estatais, isto é, de "substituir" o Estado em áreas nas quais ele falha ou não se mostra competente.
           Resta evidentemente a questão de saber como impedir que essa nova situação crie uma espécie de selvagem "sociolatria" oposta à velha "estatolatria" de antes. A questão de saber, em suma, como politizar e unificar a sociedade civil, pensá-la como algo fundido à economia, à política e ao Estado, como espaço adequado para que atores efetivamente qualificados superem a prevalência dos particularismos e se ponham como intérpretes de interesses gerais. Descobrir como isso poderá se dar no contexto atual -- no qual estão gravemente dificultadas as agregações superiores -- é o grande desafio dos cientistas sociais de hoje.
           Desafio a que já se pôs a responder Luiz Werneck Vianna, um de seus principais representantes no Brasil. Seu belo A Revolução Passiva, que acaba de ser premiado pela Biblioteca Nacional como melhor livro de 1997 na categoria "ensaio social", é uma prova de que o pensamento crítico continua vivíssimo. Com menos facilidades do que antes, é verdade, mas com a mesma contundência e criatividade que sempre o distinguiu.