A industrialização paulista, segundo Edgard Carone

Lincoln Secco
Especial para
*Gramsci e o Brasil*














O historiador francês Fernand Braudel dizia que um dos grandes enigmas da história econômica mundial residia na explicação de por que o capitalismo desenvolveu-se primeiro, e de forma mais vibrante, numa pequena franja da Europa Ocidental e não em outros lugares. Ora, sabemos que os chineses foram muito mais inventivos do que os europeus. Os árabes tinham um pensamento matemático muito mais desenvolvido. Entretanto, a Europa saiu na frente.
Problema similar (certamente em menor medida) move este novo livro do Professor Edgard Carone, Evolução Industrial de São Paulo (1889-1930) (São Paulo, Senac, 2001. 207 p.): por que o Estado de São Paulo tornou-se esse centro de assombrosa hegemonia econômica na América do Sul? São Paulo, a cidade, não passava de uma vila humilde e isolada no período colonial, ultrapassada de longe pelas atividades econômicas que animaram a Bahia e, mais tarde, as Minas Gerais, naquilo que Roberto Simonsen chamou de ciclos do açucar e do ouro. Só depois de 1870 a cidade conheceu um progresso significativo. Como explica o Professor Carone, se o isolamento foi fator negativo no período colonial, tornou-se positivo no oitocentismo, quando novas perspectivas abrem-se para São Paulo, que nessa época via deslanchar a produção de café, basicamente na estreita faixa entre a Serra do Mar e a da Mantiqueira, ao longo do Rio Paraíba.
Foram muito variados os fatores positivos da nossa industrialização. As potencialidades excepcionais da terra roxa, usada no Oeste paulista depois do esgotamento dos terrenos do Vale do Paraíba, articularam-se à construção de ferrovias que possibilitaram a exportação do café através do Porto de Santos, o qual, por seu turno, começava a modernizar-se já em fins do século XIX. A política de imigração sustentada pelas classes dominantes permitiu o crescimento da população e do mercado interno consumidor, bem como a formação de uma força de trabalho sem preconceitos contra o trabalho manual e com uma mentalidade de poupança mais desenvolvida. Tais elementos associaram-se a uma adequada proteção alfandegária e a uma quase espontânea baixa histórica do câmbio que, desde a independência, encarecia as importações e abria amplo espaço para a indústria abastecer o mercado interno. O auge desse processo dá-se durante a chamada República Velha. Neste período, os paulistas gozam de hegemonia no controle do governo federal, o que se materializa na indicação de sete presidentes entre 1889 e 1930.
Vê-se que também a conjuntura política facilitou a industrialização: depois da constituição de 1891, os Estados tiveram maior autonomia e se responsabilizaram pela arrecadação do imposto sobre as exportações e sobre as mercadorias de sua própria produção, o que decuplicou as receitas paulistas. Esse dinheiro, entretanto, serviu para constituir uma infra-estrutura pública de qualidade, tornando nosso crescimento econômico sustentado. As elites políticas da época investiram em saúde, transporte e educação, o que pareceria tresloucado hoje para alguns economistas liberais. Um relatório da época reconhecia que as doenças endêmicas prejudicavam “gravemente o mecanismo econômico do Estado” e a sua “comunicação comercial”: pertencem à República Velha as obras de encanamento de água, esgotos, retificação de rios, estatização do serviço de limpeza, criação de institutos de pesquisa e análise química, de hospitais de isolamento, de vacinações, etc.
Ora, nenhum processo de desenvolvimento pode prescindir de uma adequada política industrial e do comprometimento de suas classes dominantes com essa política. Ou seja, os fatores espontâneos auxiliam, mas as atitudes práticas e mentais deliberadas das elites econômicas são condicionantes indispensáveis. São Paulo permanece como um exemplo bem sucedido de arrancada industrial sem par na história do Brasil e, se preferirmos, de toda a América Latina. Num período em que os estados brasileiros estão mergulhados na guerra fiscal e o país passa por notáveis transformações na sua matriz industrial, o livro em questão permite repensar fatores negativos e positivos da industrialização de um ponto de vista histórico.
Esta obra já se tornaria de leitura obrigatória pela reconhecida competência do autor, professor aposentado do Departamento de História da USP e um historiador experimentado em decênios de trabalho dedicado à pesquisa da história republicana do Brasil. Seu estilo seco e direto, sem rodeios, não deixa de agradar ao leitor comum, que encontrará no livro desde detalhes da geografia do Estado de São Paulo, de suas ferrovias e rios, até dados biográficos dos grandes industriais “paulistas”: Crespi, Matarazzo, Siciliano, Puglisi-Carbone, Scarpa, Jorge Street e tantos outros que construíram suas fábricas numa época em que as “classes conservadoras” (como então se denominavam) uniram seus interesses particulares a uma estratégica visão macroeconômica.

_______________

Lincoln Secco é doutorando em História na USP e pesquisador da Fapesp.

________________