Gramsci e a crítica da modernidade

Leandro Konder
Jornal do Brasil, 2 jun. 2001.
Caderno Idéias-Livros, p. 8.














Acaba de ser lançado o quarto volume da nova edição brasileira dos Cadernos do Cárcere, do italiano Antonio Gramsci. É um acontecimento que não pode deixar de ser saudado com grande alegria e com imenso orgulho pelos numerosos admiradores que - teimosamente - continuam fiéis ao autor (entre os quais se inclui, obviamente, este resenhador).
Por que reagimos com alegria e orgulho? Primeiro, porque o lançamento confirma a coragem, mas também a capacidade da editora de persistir na ambiciosa publicação, pondo à disposição dos brasileiros textos que vêm sendo incluídos por todos os estudiosos - tanto pelos simpatizantes como pelos adversários - entre os mais importantes do pensamento de esquerda. E segundo, porque a nova edição brasileira, cuidadosíssima, primorosamente traduzida por Carlos Nelson Coutinho e Luiz Sérgio Henriques, foi organizada de maneira a apresentar pontos de vantagem sobre as duas edições italianas: é mais completa que a edição Platone/Togliatti e é mais acessível que a edição Gerratana (a edição crítica).
Este quarto volume é, talvez, ao lado do primeiro, o mais notável da série dos Cadernos. Contém as anotações feitas por Gramsci durante os anos em que esteve preso, na época da ditadura fascista de Mussolini, sobre temas de cultura e política cultural, sobre a religião e a Igreja, bem como sobre “americanismo” e ”fordismo”, entre outras coisas.
Nas “orelhas” que escreveu como apresentação do livro, Luiz Werneck Viana sublinha a originalidade da abordagem gramsciana da modernidade, sua disposição não só para criticá-la em seus aspectos negativos, mas também para reconhecer suas conquistas e assimilar seus aspectos positivos (evitando a unilateralidade da condenação veemente que se encontra, por exemplo, em Adorno e Horkheimer, pensadores clássicos da “Escola de Frankfurt”).
Gramsci observa que, na sociedade capitalista norte-americana, apesar das características intrinsecamente perversas do sistema, se constata a inexistência de “classes absolutamente parasitárias”, e isso se liga a um vigor extraordinário na indústria e no comércio.
Na contracapa do volume se lê, também, uma observação de Michael Löwy a respeito do esforço realizado por Gramsci no sentido de pensar não só a distorção ideológica, as formas conservadoras da religião, mas igualmente a sua “dimensão utópica”, o seu poder de mobilização das energias populares, com a possibilidade de inseri-las na ação que pode transformar a sociedade.
Gramsci foi inovador em sua análise e reflexão sobre a dinâmica da sociedade norte-americana, sobre a pragmática eficiência de sua organização do trabalho. Foi inovador, ainda, no encaminhamento de uma atitude crítica (às vezes até áspera) mas não estreita e sectária em face da religião. É curioso vê-lo louvar a Igreja Católica por ter sabido manter certa unidade entre a elaboração teórica sofisticada dos seus intelectuais e a consciência popular das suas bases, evitando que uma se afastasse muito da outra e, apesar das enormes diferenças, fazendo-as conviver na mesma fé.
Há, contudo, um outro campo temático ao qual o pensador italiano trouxe uma contribuição inovadora e sobre o qual esta resenha vai se deter um pouco mais prolongadamente: o da política cultural.
Nas notas constantes desse quarto tomo dos “Cadernos”, manifesta-se o tempo todo a convicção de que a luta pela hegemonia é longa e complexa, não pode esperar a conquista do Estado para ser travada, exige o fortalecimento do poder de persuasão por parte dos revolucionários, precisa de um bom embasamento teórico e suas vitórias decisivas passam pela esfera da cultura.
Nenhum marxista antes de Gramsci havia reconhecido uma importância política tão grande na batalha das idéias, nos conflitos culturais. Para o teórico italiano, o avanço e a consolidação do movimento dos trabalhadores, numa sociedade de tipo “ocidental”, depende de uma sempre difícil “guerra de posições”, depende de um bom planejamento, de uma eficiente organização, quer dizer, depende de conhecimentos, necessita de uma sólida preparação.
Ao contrário da “guerra de movimentos”, que se faz muitas vezes com manobras súbitas de pequenos grupos, com ações fulminantes de minorias (agindo em nome da maioria), que se serve de golpes de mão, a “guerra de posições” exige a participação ampliada, a construção do consenso.
Na “guerra de posições” cada avanço precisa ser bem calçado. A mobilização só pode ser suficientemente profunda e ter efeitos duradouros se puder se apoiar em consciências coesas e articuladas, em um pensamento rigoroso e lúcido. A transformação da sociedade, nas condições da complexidade moderna, não poderá seguir um caminho revolucionário se não aproveitar as lições proporcionadas pelos duelos da política cultural.
Em outras palavras, para passar da rebeldia à revolução, da contestação à construção de alternativas, a perspectiva com que os socialistas enfrentam os combates que travam pelo fortalecimento da “sociedade civil” necessita de instrumentos teóricos e de uma competência argumentativa que só poderão ser desenvolvidos no campo de batalha da cultura.
E Gramsci dá indicações metodológicas preciosas para a ação revolucionária nesse campo. Comparando, por exemplo, a comunicação escrita (livro, revista, jornal) com a comunicação falada (na época, o rádio e o cinema), ele reconhece a maior rapidez da comunicação falada, a maior amplitude da sua área de ação e sua maior “simultaneidade emotiva”. Porém alerta seus leitores socialistas para o fato de que muitas vezes essa vantagem se dá “na superfície, não em profundidade”.
Outra advertência importante é a de que os socialistas não devem subestimar o adversário. A desqualificação do oponente serve com frequência unicamente para disfarçar nossa fraqueza e nossa incapacidade. Se condenamos em bloco a geração que nos precedeu, estamos nos amesquinhando. Se não reconhecemos nenhuma grandeza nos que viveram antes de nós, é porque nos está faltando grandeza, a nós. O sujeito que supõe que a grandeza nasceu com ele é um parvo, no sentido etimológico do termo (em latim, parvus é pequeno).
Um último ponto que não pode deixar de ser sublinhado neste quarto volume dos Cadernos e que aproxima o teórico italiano dos anos vinte e trinta do século passado dos brasileiros deste início do século XXI: Gramsci estava atento para a avaliação dos valores éticos na política. .
Numa das passagens mais curiosas do seu texto, Gramsci nota na cultura do seu país certa tendência a atenuar a crítica à canalhice, sob a alegação de que os canalhas, afinal, não são inteiramente canalhas, há sempre um lado deles que mostra qualidades humanas, méritos que devem ser reconhecidos. (Essa tendência, aliás, é facilmente perceptível no Brasil atual.)
O autor dos Cadernos combate esse amolecimento do juízo ético, chamando a nossa atenção para ao fato de que os canalhas que nós costumamos identificar e devemos condenar moralmente não são os fictícios “totalmente canalhas”, e sim, justamente, os canalhas reais, os “semicanalhas”.

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Leandro Konder é filósofo e professor da PUC/Rio de Janeiro.

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