O PT e o poder

Leandro Konder

Jornal do Brasil,
17 jun. 2001.




Lula vai aos Estados Unidos, tomando desde já as providências preliminares que precisam ser tomadas na definição da política exterior de seu eventual futuro governo em relação aos norte-americanos. Paralelamente, o presidente Fernando Henrique Cardoso declara ao Financial Times que a finança internacional exagera no medo que manifesta em face da possibilidade de que o PT venha a exercer a Presidência da República; e assegura que a estabilidade do país não seria ameaçada por um governo de esquerda (a própria estabilidade da moeda seria preservada).
O declínio da popularidade de FHC, a crise da energia, os escândalos de corrupção, bem como o amplo reconhecimento da seriedade do PT, tudo isso nos leva a indagar: o que tende a acontecer com o PT, caso ele se torne um partido no poder? Que concessões ele precisará fazer em nome da governabilidade? Em que medida o governo liderado pelo PT (que - obviamente - não governaria sozinho) pode vir a ser um governo de esquerda?
Vale a pena nos determos um pouco no esforço de limpeza do terreno teórico em que essas perguntas se situam, especulativamente, antes de serem enfrentadas na prática.
Somos forçados a retomar uma velha questão: o que é, concretamente, ser de esquerda?
É bem conhecida a origem dos conceitos políticos ''direita'' e ''esquerda''. Na assembléia, durante a Revolução Francesa, os deputados que exigiam mudanças sociais mais rápidas e mais profundas, no combate às desigualdades, se sentavam à esquerda; e os que se concentravam na preservação das condições sociais vigentes e só aceitavam mudanças moderadas e controladas pelos de ''cima'' ocupavam as cadeiras situadas à direita.
Desde que a designação se generalizou, multiplicaram-se ao longo dos séculos XIX e XX as declarações que proclamavam a morte dessa dicotomia. O ensaísta francês Alain, no início do século XX, observou, entretanto, que as pessoas que negam validade à contraposição entre ''direita'' e ''esquerda'' nunca são de esquerda.
Direita e esquerda, afinal, são tendências que expressam, legitimamente, setores, camadas ou classes sociais que têm interesses distintos. Não são equipes de heróis e quadrilhas de bandidos. Ambas constituem forças vivas que representam ou buscam representar na política (no governo ou na oposição) um programa capaz de corresponder aos anseios, às aspirações e às necessidades daquela parte da sociedade com a qual se sentem comprometidas.
Na história da sociedade brasileira, a esquerda - empenhada em representar os de ''baixo'' - nunca chegou a governar o País. Sua base social nunca lhe permitiu dispor de força suficiente para superar as barreiras erguidas pelos detentores do poder e da riqueza.
Como observou o historiador Sérgio Buarque de Holanda, entre nós, as reformas só são feitas quando se tornam imperiosamente necessárias e sempre de ''cima'' para ''baixo'', sob o estrito controle das classes dominantes. As camadas populares têm sido sistematicamente mantidas em condições de desarticulação. As transformações mais significativas são retardadas, como se viu no caso da abolição da escravidão negra e da criação das primeiras universidades, ou como se vê no fato de até hoje não se ter feito a reforma agrária. Darcy Ribeiro, com sua ironia ferina, escreveu que uma coisa não se pode negar aos nossos conservadores: eles têm sido muito eficientes na defesa de seus privilégios.
A esquerda, por outro lado, têm sido historicamente reprimida e tem cometido diversos erros políticos. O modelo leninista, importado, não funcionou como se esperava e se desgastou rapidamente. Nos anos da ditadura, porém, surgiu para a esquerda uma nova esperança: o Partido dos Trabalhadores nasceu pós-leninista e com as características de um partido de massas brasileiramente original.
Crescendo em ritmo acelerado, mostrando enorme vitalidade, o PT passou a ser visto como uma alternativa real de poder, como instrumento capaz de inaugurar uma nova era: a da hegemonia da esquerda.
Essa perspectiva desperta em algumas áreas da esquerda um vigoroso entusiasmo, quase uma euforia. Há quem se disponha a viver uma espécie de desforra pela opressão multissecular das massas e há mesmo quem já se veja nos umbrais de um Brasil socialista. Em outros setores, contudo, prevalece a sobriedade e são cultivadas sensatas preocupações. O que acontecerá, de fato, se o Lula vencer nas próximas eleições presidenciais?
Apeados do poder, removidos dos pontos mais elevados da direção do Estado, os conservadores continuarão a dispor de grande força, não só porque o aparelho do Estado está impregnado dos valores das classes dominantes, mas também porque o centro e a direita dispõem de uma base social bem organizada e orientada por líderes experientes, de inegável competência.
Além dessa dificuldade, há outro elemento complicador: os diversos partidos e correntes que estão presentes nas camadas populares e em princípio integrariam o novo governo não são confrarias de santos ou clubes de anjos; e é sempre difícil identificar a fronteira entre interesses politicamente razoáveis e interesses amesquinhadamente corporativos, estreitamente oportunistas, comprometidos com privilégios ou maracutaias.
Só quem não faz política se propõe a adotar uma linha de absoluta inflexibilidade (evidentemente, inócua). Aqueles que mergulham na ação sabem que precisarão assumir compromissos, entrar em acordos, fazer concessões. O desafio - delicadíssimo! - está na fixação dos limites. Pode-se sempre errar por excesso ou por insuficiência. Cumpre evitar tanto o gueto como a dissolução na geléia geral. A realidade é sempre mais rica do que os critérios adotados para conhecê-la e modificá-la.
No plano dos princípios, no entanto, podem se desenvolver algumas considerações teóricas abstratas, especulativas, que não dispensam o saber prático dos ativistas nem as análises específicas dos cientistas políticos, mas talvez valham, limitadamente, como advertências de quem, não tendo autoridade para fazê-las, pode ser ouvido com um sorriso indulgente.
Retomemos, então, as observações feitas por Sérgio Buarque de Holanda e por Darcy Ribeiro, há pouco lembradas. O que vem possibilitando ao PT impor algumas derrotas significativas à eficiência conservadora? O que permite ao PT apresentar-se como alternativa viável de poder, ameaçando inverter o esquema das transformações sempre conduzidas de ''cima'' para ''baixo'‘? Ou, formulando indagações mais incisivas: de onde o PT extraiu a força que fez dele o maior partido de esquerda do Brasil?
Vários fatores concorreram para o êxito da agremiação: seu enraizamento na realidade brasileira, seu descomprometimento com doutrinarismos, a relativa espontaneidade da sua gênese, etc. E mais: devemos lembrar que outros fatores foram decisivos, como seu compromisso com os movimentos sociais, sua articulação combativa do movimento operário, sua crítica radical e permanente da exploração do trabalho, seu combate à política econômica de concentração do capital e da renda, sua repulsa constante ao autoritarismo e às medidas que agravam as desigualdades sociais. Esse conjunto de fatores conferiu ao partido a cara que ele tem.
O PT conseguiu amplo apoio por parte das massas populares porque sua imagem ganhou credibilidade, mereceu a confiança de vastos setores da população. Foi reconhecido como expressão autêntica dos de ''baixo'', menos por seu programa do que por sua firmeza, pela nitidez da sua ação.
As próprias contradições internas (inclusive aquelas brigas entre facções, meio sem pé nem cabeça), na medida em que a ação do partido consegue absorvê-las, contribuem para realçar certa imagem de um partido efetivamente democrático, que inspira simpatia na opinião pública, mesmo em áreas que não se inclinam por nenhum tipo de socialismo.
Embora seja socialista, o PT não se propõe governar o País promovendo a transformação revolucionária da sociedade brasileira numa sociedade socialista. Isso não quer dizer que o partido deva renunciar aos ideais socialistas (que desempenham um papel estratégico essencial na perspectiva do aprofundamento conseqüente da democracia). Quer dizer que o programa de governo deverá ser realista, adequado às circunstâncias, exeqüível.
Do fato de não se dispor a realizar a revolução socialista também não se infere que o PT deva renunciar a qualquer dimensão revolucionadora em sua ação, no período em que venha a exercer o poder. Não passa pela cabeça de nenhuma pessoa séria a idéia de promover algo como um novo assalto ao Palácio de Inverno de Leningrado (o que seria ridículo). No entanto, seria preciso ser muito ingênuo para acreditar que o caminho das transformações vai ser idílico.
Impõe-se o reconhecimento de que, no encaminhamento das mudanças sociais imprescindíveis, são previsíveis conflitos, decorrentes da profunda insatisfação de setores privilegiados, que venham a reagir com violência contra a perda de seus privilégios. Mesmo se limitando às grandes reformas exeqüíveis, um governo de esquerda não pode deixar de se empenhar num complexo e tenso processo de revolucionamento da nossa sociedade.
O PT, no poder, precisa manter a serenidade e evitar cair em armadilhas e provocações, porém não pode deixar de realizar esse processo revolucionador de que as massas necessitam, e com a crescente participação delas.
Assumir o poder é a meta natural dos partidos políticos. O PT não é uma exceção. Para os petistas, contudo, o risco maior é o de serem de tal modo neutralizados no exercício do poder que fiquem impossibilitados de promover as mudanças possíveis. Reduzidos a figurantes impotentes de um teatro político melancólico, sofreriam uma descaracterização. Uma perda da identidade.
Se deixasse de corresponder às aspirações e aos anseios das massas, se perdesse a íntima sintonia com os movimentos sociais, se não conseguisse manter a confiança dos trabalhadores, o partido não só deixaria de crescer como definharia. Ficaria enfraquecido, anêmico.
E, quando tivesse que sentar à mesa para as inevitáveis negociações, seria fatalmente obrigado a fazer concessões mais pesadas e acordos mais dolorosos do que faria se, juntamente com sua identidade, tivesse conservado sua força.
Se o PT não conseguisse evitar esse desastre, as conseqüências poderiam ser terríveis. As massas que vinham se identificando com ele seriam mergulhadas na frustração, na amargura e no ceticismo. Toda a esquerda se ressentiria desse fracasso.
Por isso, os de ''cima'' estão se movimentando para que, se o Lula for eleito presidente, o PT só consiga fazer um governo chinfrim e se desmoralize. Por isso, a esquerda precisa se movimentar, com todas as suas energias, para que isso não aconteça.

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Leandro Konder é filósofo e professor da PUC/Rio.
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