Garotinho, Gênova, Salvador: o exorcismo da política

Luiz Eduardo Soares

Especial para *Gramsci e o Brasil*




Algumas das fotos mais recentes dos nossos principais jornais deveriam nos fazer pensar com redobrada preocupação: Carlo Giuliani, 23 anos, está morto no chão de Gênova; anarcopunks atacam policiais que respondem na mesma moeda, mas com armas superiores. Policiais encapuzados exibem armas e indignação nas ruas de Salvador, entregando-as aos saqueadores. Fiéis contritos e seguidores políticos ouvem a pregação de Garotinho, que se compara a Paulo e diz-se mártir da causa evangélica, porque o fisco lhe quer investigar a contabilidade privada. Haveria relações entre esses eventos ou entre as condições que os tornaram possíveis? Acredito que sim. Nos três casos, a grande ausente é a política, entendida como a mobilização racional de recursos, lideranças, instituições, atores sociais, opiniões, poderes e influência para realizar projetos claramente definidos e historicamente viáveis, que expressem valores e/ou interesses. Nos três casos, combinam-se desespero, repulsa à participação organizada na vida pública e a expectativa da transformação messiânica pelo exorcismo do mal.
Em Gênova, a esquerda italiana preparou manifestações de massa. Reuniu mais de 100 mil pessoas. Definiu metas e palavras de ordem que expressavam um programa de ação coletiva suprapartidária. Era o momento para divulgá-lo e acuar politicamente os donos do poder global. Mas grupos anarquistas uniram-se aos manifestantes e mudaram a linguagem da passeata, traduzindo-a para seu vocabulário privado de ódio, violência e destruição. Resultado: a morte de um jovem sonhador e a derrota política dos democratas radicais, porque a imagem de civilização e bom-senso ficou com os líderes do G-8. De novo, o pacto das elites passou ao mundo a idéia de que a razão, o senso de medida, o equilíbrio e a justiça são qualidades exclusivamente suas. Compreende-se: os anarcopunks são antipolíticos, por definição. São os próprios sintomas das condições socioculturais que pensam combater.
Na Bahia, os policiais tinham tudo a favor de suas reivindicações: a simpatia da opinião pública, sendo tão absurdos seus salários e suas condições de trabalho; o reconhecimento da legitimidade de seu pleito, por parte das autoridades nacionais e dos formadores de opinião; o apoio potencial de todas as forças políticas. Preferiram o isolamento, o confronto e o vocabulário performático da violência; desconsideraram as limitações legais e o papel das instituições; vestiram-se de bandidos e prepararam-se para uma guerra que jamais poderiam vencer; hostilizaram seu grande aliado, a população, condenando-a à impotência e à vitimização. Resultado: ao invés de demonstrar seu valor e sua importância para a sociedade, ao invés de promover o avanço das reformas institucionais que lhes poderiam devolver dignidade e eficiência, provocaram uma onda reacionária, que vem obtendo forte apoio popular e que pode conduzir o processo de volta a estágios que já pensávamos superados e que reforçariam o domínio do Exército sobre a PM, uma das principais fontes de nossas mazelas na área da segurança pública.
Não é difícil entender os motivos desse tiro no pé: os policiais, por lhes serem vedados os canais habituais da vida pública, recorreram aos métodos de expressão que conhecem, àqueles que aprenderam nos quartéis e que absorveram da cultura corporativa. Essa cultura é impermeável à política; só conhece o sim e o não da obediência cega e da insurreição.
Fica evidenciado que só a sindicalização dos policiais propiciará as condições para a educação cívico-política correspondente às exigências da institucionalidade democrática. Quem pensa que associativismo legal e sindicalização concorrem para a selvageria e o desrespeito aos limites sensatos, ditados pelo interesse público, engana-se redondamente. O veto à sindicalização apenas jogará mais lenha à fogueira, empurrará as associações policiais para a clandestinidade e reforçará a linguagem primitiva pela qual a categoria tem expressado suas reivindicações. Uma lei não impedirá a organização desses trabalhadores, apenas contribuirá para a deterioração das condições de seu funcionamento e de seu amadurecimento, obstando sua qualificação democrática. E quando houver rebeliões, sendo ilegais os sindicatos e as associações, com quem os governos negociarão? Com quem gritar mais alto? Com quem der mais tiros? Com quem ocupar mais quartéis?
Enquanto isso, Garotinho prega. E não está no deserto. O campo parece fértil, a julgar pelos números das pesquisas pré-eleitorais. Recentemente, em um comício-sermão, S. Exa. o governador do estado do Rio de Janeiro relatou o seguinte milagre, ante o qual votos se multiplicaram como peixes bíblicos: negociava a dívida do estado com Pedro, não o apóstolo ... o ministro. Malan estava frio, insensível às necessidades do povo fluminense, cercado por uma blindagem impenetrável. Não vendo saída, o governador pediu licença para ir ao banheiro. Precisava evocar ajuda superior. Prostrou-se e orou: Jesus, abra o coração de pedra desse homem aos clamores do povo; faça com que ele entenda o sofrimento do povo. Quando voltou à sala, o ministro ostentava um sorriso. A partir daí, os caminhos se abriram. O povo fluminense venceu a batalha. Graças a Jesus. Aleluia! Aleluia! - bradou o auditório. O povo venceu graças ao governador, bem entendido. Amém, diriam os fiéis.
Apesar do nível primário e grosseiro da demagogia populista, não é prudente subestimar o governador. Ele sabe perfeitamente bem que esse tipo de discurso tem o propósito calculado de sensibilizar eleitores despolitizados, que encontram na religião o único meio de dar sentido às suas vidas. Não promete políticas públicas determinadas ou projetos mais ou menos consistentes, que expressassem interesses definidos ou valores específicos. Não focaliza planos, metas e métodos. O foco é ele mesmo, Garotinho, guerreiro da luz, ungido por Deus para cumprir seus desígnios no Planalto. Sua proposta é combater o mal. Nessa pseudopolítica rudimentar, não há lugar para a política.
Nos três casos, o que parece estar em jogo é, exatamente, a supressão da política como exercício de mediação. Os três casos, cada um a seu modo, dramatizam a imediaticidade: em Gênova, a irrupção do confronto físico como resposta à globalização: a imediaticidade da violência; em Salvador, a apropriação física dos quartéis e das armas, como afirmação de um poder que desejava negar sua própria impotência e realizar os objetos de suas demandas, via manifestação direta e unilateral da própria vontade: a imediaticidade do interesse; no púlpito eleitoral de Garotinho, a imediaticidade do contato direto com a divindade, que garante o acesso privilegiado e exclusivo à verdade, ao bem e à justiça.
Nos três casos, a celebração da imediaticidade representa o exorcismo da política. E isso significa, como sabemos, a negação de todas aquelas mediações que tornam os processos da vida coletiva tão difíceis, mas lhes garantem a liberdade em que transcorrem, porque protegem as contradições e incertezas como fontes irredutíveis das angústias humanas e da civilização.

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A candidatura de Anthony William Garotinho Matheus de Oliveira à presidência da República não se esgota, entretanto, nessa capitulação despolitizante à religiosidade popular. A meu juízo, essa é apenas uma dimensão da candidatura, hipertrofiada na conjuntura atual por determinadas circunstâncias, que perderá importância nos momentos subseqüentes da disputa eleitoral, sem desaparecer. O cálculo que o governador do Rio de Janeiro faz é um pouco mais complexo e mobiliza fatores publicitários e políticos. A intenção é compor como um puzzle sua imagem política, sua persona pública, combinando os seguintes ingredientes, sob o signo da ambigüidade: pai de família numerosa; casamento estável; muitos filhos adotivos, demonstrando abertura afetuosa ao pluralismo étnico; ênfase na responsabilidade e na generosidade; as atitudes sublinhadas devem denotar energia, juventude e determinação, espírito empreendedor e compromisso popular; as posturas indicam neutralidade ideológica, disposição administrativa pragmática e equilíbrio amadurecido; a origem interiorana e a devoção religiosa associam-se a pureza moral e fidelidade a princípios, enquanto o exercício dinâmico do poder executivo vincula-se à idéia de modernidade; a marca de seu governo é ele mesmo, o governador, e o logo é o label que adotou como nome e que suscita intimidade imediata e carinhosa: Garotinho.
A ambigüidade é a matriz e o operador das articulações entre todas essas imagens, assim como tem sido o método político predileto do governador. O resultado dessa produção simbólico-ideológica é um híbrido, uma imagem sincrética, um compósito multifacético. Toda essa construção foi pensada e tem uma finalidade clara: identificar-se com o centro político, ocupá-lo e fazê-lo sem pagar o preço da adesão a uma política de centro. Esse é o pulo de gato de toda a engenharia: Garotinho pretende ocupar o centro político sem comprometer-se com uma agenda e um programa político de centro, adotando a estratégia simbólica da hibridização, em que se combinam ingredientes diversos segundo o regime da ambivalência, o qual, diga-se de passagem, tem a vantagem de garantir uma tensão semântica insolúvel que mantém a vitalidade da imagem final, potencializando-a, e autoriza o convívio de interpretações opostas. Em outras palavras, redefinindo o centro político pelo viés simbólico, rejeitando sua politização e a correspondente definição ideológica, o governador constitui sua candidatura como um pólo de gravitação capaz de atrair posições extremas e contraditórias, além daquelas sintonizadas com o equilíbrio do centro.
O centro, quando politizado, é marcado pelo equilíbrio de posicionamentos moderados. Nesse caso, apropriado por Garotinho, reinvestido pela estratégia singular de sua candidatura, o centro deixa-se marcar como a fonte do desequilíbrio, o estuário de posicionamentos fortes e opostos, ligados a interesses contraditórios e linguagens ideológicas diversas. Em suma, amplia-se a capacidade de sedução desse centro reinventado, ao preço do esvaziamento de seu conteúdo político e de sua substância programática. Trata-se menos de centro, enquanto localização positiva, e mais da ambigüidade que conjuga opostos em um convívio do qual subtrai-se o conflito. Em termos grosseiros, dir-se-ia: o oportunismo, consolidado e convertido em padrão estrutural, deixa de ser performance e se consagra como arquitetura. A contrapartida desse esvaziamento da substância do centro para a identificação plural dos eleitores, em cujo processo suprime-se a consciência das contradições, é a natureza voluntarista do estilo de governo que Garotinho promove. A hiperatividade do jovem e vibrante executivo, que atira em todas as direções, inviabiliza a aplicação de um programa consistente, impede a realização de uma política orgânica, mas descola qualquer fracasso tópico da figura individual do governador, porque, se algo não funciona, é por conta de dificuldades intrínsecas e nada tem a ver com a dedicação e a competência de Garotinho. A hiperatividade é lida como bravura no combate aos problemas, deslocando o juízo popular do foco sobre resultados.
Trocando em miúdos, essa estratégia implica o seguinte: a candidatura firma-se sobre três bases iniciais: (1) o voto evangélico. Ainda que não haja homogeneidade nesse universo, o tamanho do grupo (são 18 milhões de eleitores, aproximadamente) é suficiente para garantir um sólido ponto de partida nacional; (2) o voto popular fluminense, em resposta aos investimentos erráticos, voluntaristas, inconseqüentes mas significativos, nas áreas mais carentes; (3) o voto mediado por prefeituras fluminenses, cooptadas, mediante pressões e negociações de verbas, para o projeto nacional do governador; (3) o voto popular de varejo, conquistado pela intensa e persistente participação em programas populares de rádio, diariamente, sobretudo no Rio e em São Paulo; (4) o voto proporcionado pelo PSB; (5) o voto daqueles eleitores cansados ou críticos do governo federal e refratários ao oposicionismo de esquerda, particularmente ao PT; (6) o voto que proviesse dos partidos que aderissem à candidatura, em função de seu sucesso inicial e das perspectivas razoáveis, seja de vitória, seja de participação no segundo turno, seja de contribuição para o desfecho do segundo turno.
O governador Garotinho trabalha com duas hipóteses principais, ainda que não descarte totalmente a possibilidade de vitória. A primeira hipótese é a de passagem para o segundo turno. Nesse caso, o hibridismo intrínseco, o sincretismo ambivalente de sua candidatura lhe permitiria oscilar para a direita e a esquerda, conforme o caso, com relativa facilidade, isolando o adversário, desde que ele ou ela não tenha as mesmas características, ou seja, desde que o adversário seja Lula ou o candidato governista. De todo modo, a chegada ao segundo turno seria uma extraordinária vitória em si mesma e representa a meta número um. A segunda hipótese é a da obtenção de uma expressiva votação, o que credenciaria Garotinho a jogar um papel relevante no segundo turno e, portanto, a ter participação no futuro governo, consolidando-se como personagem nacional e se capitalizando para 2006. Essa trajetória reproduziria o itinerário cumprido no estado do Rio, onde Garotinho usou as eleições de 1994 como trampolim para ocupar uma posição regional de destaque, que lhe valeria a qualificação para a disputa, em 1998.
O plano parece realista. Mesmo assim, falta combinar com os adversários, como diria Garrincha. Por outro lado, há vulnerabilidades desconcertantes: a ambigüidade pode esgarçar a identidade política a ponto de dissolvê-la; o logotipo feito nome, Garotinho, pode voltar-se contra seu criador, condenando-o a uma juventude excessiva, infantilizadora e ridícula, incompatível com a seriedade do cargo pretendido; a base evangélica pode converter-se em estigma, em determinante de isolamento e em instrumento de divisão, inclusive no universo evangélico; o voluntarismo e a inconsistência do governo podem vir à tona, na medida em que a insuficiência dos resultados, alardeada pelos adversários políticos, for superior aos esforços performáticos para separar a imagem do governador das avaliações negativas do desempenho do governo; as alianças articuladas com setores fisiológicos podem deixar de funcionar como anteparo político e antídoto contra as oposições, e se transformar em veneno, alimentando as oposições; finalmente, o abrigo de conveniência e oportunidade solicitado ao PSB pode tornar-se um espeto, caso setores do partido mais afinados com sua tradição ideológica se recusem a participar do que, eventualmente, passassem a considerar uma aventura personalista sem qualquer compromisso com um projeto sério e viável para o Brasil.
Além desses pontos vulneráveis, Garotinho cometeu um erro grave: rompeu sua aliança, que era ainda incipiente, com camadas médias, elites, formadores de opinião e intelectuais. Nesses segmentos, ele sempre foi visto com muita desconfiança. O primeiro ano de governo contribuiu para reduzir as resistências e começar a alterar a imagem negativa do provinciano arrivista, do radialista aventureiro. Entretanto, episódios conflitivos do segundo ano revelaram procedimentos e alianças incongruentes com a nova imagem que se esboçava. Hoje, não parece provável que as elites aceitassem bancar essa candidatura, lançando o país na incerteza mais absoluta, apenas para obstar a vitória do PT. Hoje, um eventual governo Lula parece mais palatável para as elites, a despeito de grave contrariedade de interesses, do que uma aventura messiânica, cujo grau de inorganicidade e de diluição programática implique um teor de imprevisibilidade superior ao que o cálculo racional consideraria admissível.
Pretensões e limites comparados, concluo que as chances de Garotinho talvez sejam menores do que sua teatral autoconfiança sugere. Talvez sejam tão remotas quanto as possibilidades de que os anarcopunks de Gênova derrotem a globalização do G-8. E talvez provoquem reações tão negativas quanto os capuzes e as armas dos policiais rebelados. De todo modo, o futuro pertence aos deuses. A todos eles. Felizmente, ninguém tem o monopólio da verdade nem o controle do processo histórico, apesar do fideísmo autocomplacente do demiurgo das Laranjeiras.

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Luiz Eduardo Soares é sociólogo e especialista em segurança pública.
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