A propósito de Vida, forma e Cor e do Perfil de Euclides da Cunha

Maria Alice de Carvalho
Texto apresentado no Seminário
Novo Mundo nos Trópicos,
Fundação Joaquim Nabuco, Recife, 2000.














O livro Vida, Forma e Cor, como se sabe, reúne alguns textos de crítica literária elaborados por Gilberto Freyre, sendo, portanto, um conjunto bastante variado de ensaios curtos, escritos em circunstâncias e épocas muito distintas, como, aliás, esclarece o próprio autor, na apresentação que faz ao volume. É, por isso, no meu entender, um tanto refratário a abordagens que pretendam tomá-lo como peça inteiriça, portadora de um sentido e de critérios homogêneos para o tratamento de todos os temas arrolados ali. A variedade presente na coletânea e a riqueza de referências históricas, literárias e filosóficas com que lida Gilberto Freyre recomendam, no mínimo, alguma cautela aos leitores interessados em construir uma visão sintética da obra. Mas, se me fosse sugerido fazê-lo, eu diria que Vida, Forma e Cor é um livro construído sobre três perguntas: "quem escreve sobre o Brasil?" "o que é escrever literariamente?" e "o que é o Brasil?"
A primeira indagação - "quem escreve sobre o Brasil?" - se justifica porque grande parte dos ensaios têm em comum a preocupação em indicar um extenso elenco de autores que, mesmo quando não tratam do Brasil, inspiram os autores brasileiros, como é o caso de Amy Lowell, que Gilberto Freyre considera uma forte presença na poesia de Manuel Bandeira.
A segunda - "o que é escrever?" -, porque o livro resulta em uma apresentação de variadas concepções acerca da escritura literária, ora para combater os críticos que, segundo o autor, são "demasiado intransigentes" para reconhecerem valor literário no ensaio social, ora para defender, explicitamente, a literatura contida em ensaios interpretativos das experiências humanas, mediante a observação de aspectos particulares, desordenados, de fragmentos descontínuos dessa experiência. Uma literatura, pois, da experiência, apresentada sob a forma do ensaio social e elaborada com base em uma aproximação empática do autor para com a qualidade do vivido.
E, finalmente, a terceira - "o que é o Brasil?" -, por ser esta a questão que obseda Gilberto Freyre e que permeia toda a sua obra. Em Vida, Forma e Cor há, de fato, a sugestão de um Brasil que é, mais do que uma realidade espaço-temporal, uma matéria de tradução estética de quantos se debruçam sobre ele; uma "figura", na qual todas as épocas e suas substâncias são contemporâneas entre si porque as suas respectivas existências não se confundem com o tempo cronológico, sendo, antes, expressões intelectuais conferidas a estados fugitivos ou a potencialidades a que se presta pouca atenção.
O Brasil, portanto, seria um espaço moderno de experiências, que se presta à revelação. Revelação - esse o sentido mais forte que Gilberto Freyre empresta à literatura, quando praticada por intérpretes geniais, empaticamente mergulhados na matéria compósita brasileira. Pareceu-me, então, que os ensaios críticos de Gilberto Freyre poderiam ser interpelados a partir dessas três indagações, cujo efeito resulta ser a produção de um amplo quadro de referências para pensar o Brasil, os seus intérpretes e suas respectivas formas de interpretação.
Com base nessas afirmações preliminares, creio ser relevante apresentar um desses autores geniais do Brasil, que, embora mencionado em algumas das críticas que compõem Vida, Forma e Cor, não é tratado aí. O autor é Euclides da Cunha que, como se sabe, foi tema de dois ensaios curtos, que participam do Perfil de Euclides e Outros Perfis. O primeiro texto se intitula “O Engenheiro Físico, Alongado em Social e Humano” e o segundo, “Revelador da Realidade Brasileira”. Euclides é tomado aqui como referência porque Gilberto Freyre reconhece nele um autor que atingiu a qualidade literária da revelação - por isso entendida a capacidade, por exemplo, de surpreender no Brasil de sua época, isto é, da passagem do século XIX ao XX, regiões inteiras vivendo um tempo social diverso, retrógrado, distinto do que poderia ser considerada a contemporaneidade da Rua do Ouvidor, um tempo, enfim, sem qualquer sintonia com a cronologia litorânea. É como se Gilberto Freyre identificasse na obra de Euclides uma antecipação da sua própria forma de figurar o Brasil, certamente mais rudimentar do que a que seria elaborada por ele, dado que Euclides mantinha-se preso à noção de "realidade" e a uma idéia de revelação ainda muito próxima da noção de descoberta, de verificacão científica da existência de um espaço de experiências que, afinal, se mantivera subtraído da história por força da impenetrabilidade dos sertões. De qualquer modo, a admiração com que Gilberto Freyre se refere a Os Sertões permite sugerir que ele reconhece em Euclides um antecessor da sua abordagem, no que ela tinha de reveladora empática da pluralidade de tempos brasileiros. Há, assim, a pretensão de estabelecimento de uma linhagem, de uma linha sucessória entre os intérpretes do Brasil, pela qual Gilberto Freyre procuraria se alinhar. E é sobre o pertencimento de Gilberto à linhagem euclidiana que vou procurar tecer algumas considerações, ainda que um tanto improvisadas.
Para um leitor mais exigente, essa proposição talvez pareça absurda, dada a disparidade de objetos, de estilos, de recursos intelectuais, de concepções acerca, principalmente, da questão racial e até mesmo de preferências estéticas entre os dois autores. Assim, por exemplo, na caraterização que Gilberto Freyre faz de Euclides, está presente o fato de que a este "como que repugnava, na vegetação tropical e na paisagem dominada pelo engenho de açúcar, o gordo, o arredondado, o farto, o satisfeito, o mole das formas. Atraía-o o anguloso, o ossudo, o hirto dos relevos ascéticos ou, quando muito, secamente masculinos do agreste e dos sertões". Apesar dessa afirmação tão contundente de Gilberto Freyre acerca das diferenças entre ambos, tentarei sublinhar alguns aspectos da aproximação entre eles que reconheço como mais evidentes no perfil construído sobre Euclides da Cunha.
O primeiro aspecto dessa aproximação, o mais óbvio e talvez o mais fraco, porém não de todo irrelevante, diz respeito ao tema do rigor devotado à pesquisa, isto é, o elogio ao tratamento rigoroso das fontes documentais, à atividade crítica, à produção de uma interpretação concebida como um mix de originalidade e de orientação estritamente escolar. Gilberto Freyre se refere longamente ao auxílio que Euclides da Cunha teria buscado junto a alguns especialistas em temas de seu interesse, como, por exemplo, junto a Teodoro Sampaio, a quem procurou para obter alguns esclarecimentos acerca da geografia e da história geográfica e colonial do Nordeste, junto a geólogos e ao próprio Pimenta da Cunha, primo de Euclides e engenheiro também. Enfim, para a elaboração de Os Sertões, Euclides teria mobilizado vários de seus amigos e conhecidos, certamente mais informados sobre alguns aspectos envolvidos naquele empreendimento. Gilberto Freyre fala ainda das dificuldades que Euclides encontrava no ato de escrever, o "caráter pensado" de todos os seus registros, inclusive dos seus bilhetes e cartas íntimas, a seriedade que emprestava à atividade intelectual.
O contraponto que Freyre faz a esse perfil do intelectual rigoroso e sistemático é, claramente, Lima Barreto, que, no livro Vida, Forma e Cor, é apresentado como um escritor que, com o seu poder de observação, teria chegado ao plot de Casa-Grande & Senzala em 1903. A ambição de Lima Barreto em produzir uma reconstituição do Brasil patriarcal e escravocrata é confessada no seu diário íntimo e citada por Gilberto Freyre: "Não realizou Lima Barreto, de modo específico, seu sonho de obra-prima. Nem sob a forma de história, como a princípio pretendeu, nem sob o aspecto de romance, no que depois desejou adoçar aquela tarefa, na verdade, áspera. Talvez lhe faltasse sistema de estudo ou critério de pesquisa que lhe permitisse elaborar livro tão difícil e complexo." E, mais à frente, Freyre continua: "A Lima Barreto faltou formação universitária ou seu justo equivalente. O conhecimento que reuniu sobre os assuntos de sua predileção, vê-se pelo seu diário íntimo que foi um saber desordenado e, como ele próprio, boêmio. No romancista mulato o poder de observação dos fatos era quase sempre agudo; mas quase nenhuma sua assimilação desses fatos em saber sistemático."
Em tecendo elogios à obra literária de Lima Barreto, Gilberto Freyre registra, contudo, a grande distância que o separava de Euclides da Cunha. Se Euclides primava pela disciplina, pelo caráter pensado de sua escritura, pela observância das regras envolvidas na produção de um conhecimento rigoroso, Lima Barreto, ao contrário, era capaz de observar agudamente o mundo à sua volta, sem, no entanto, conseguir organizar as suas impressões. Essa deficiência, pois, não o qualificara para o trabalho de reconstrução imaginativa da sociedade brasileira, típica do ensaio histórico.
Ademais, a figura do boêmio, do intelectual dos cafés, era extremamente negativa para Gilberto Freyre. Era-lhe desagradável o ambiente das cidades literatizadas e de seus personagens, pois considerava aquele um mundo convencional, estetizado, de sentimentos decalcados, um mundo em nada compatível com o cenário do homem íntimo, subjetivo, sexual. Essa cidade literatizada estava mais próxima, segundo Gilberto Freyre, de Machado de Assis, por exemplo, uma espécie de "inglês" desgarrado no trópico, embora resignado à doçura da vida suburbana do chá com torrada. Era uma cidade mais próxima, também de Joaquim Nabuco, que, segundo Gilberto, mal conseguia se referir às jaqueiras exuberantes e quase obscenas de Pernambuco. Era o cenário de um Afonso Arinos, que conseguiu descrever o sertão mineiro com elementos da paisagem européia. Porquanto fossem autores e intelectuais apreciados e merecedores de elogios, Gilberto Freyre guardava em relação a eles uma certa distância, atribuindo-lhes uma excessiva estetização, uma filiação radicalizada à "forma" e, portanto, uma incapacidade de lidar com a vida. Aqueles eram homens de Corte, homens de salão e da vida mundana. E, nessa ambiência, Freyre reconhecia a exclusão de muitos dos talentos literários que lhes eram contemporâneos, com as conseqüências previsíveis do ressentimento e da boemia que nutria, por exemplo, um Lima Barreto. Em suma, embora fossem considerados antípodas, Machado de Assis e Lima Barreto apresentavam, segundo Freyre, a mesma dificuldade em associar vida e forma, com a diferença de que cada um deles habitava um dos pólos característicos da Corte literária: Machado, o solar; Lima Barreto, o noturno.
A matriz que Euclides inaugura em meio a esse cenáculo de intelectuais da Corte é de outra natureza. É uma matriz que Gilberto Freyre definiu como adequada a um "tapuia presbiteriano". Tapuia era a visão que Euclides tinha de si; a ela, Gilberto Freyre associa o presbiterianismo que participou da formação do engenheiro. Nessa matriz - a do tapuia presbiteriano -, o aspecto que se afigura mais importante, e que eu diria ser reconhecido por Gilberto Freyre como uma antecipação da sua própria abordagem, é o que se traduz na capacidade de o autor se deixar "desmanchar" - ou, para usar uma palavra gilbertiana, enlanguescer -, diante do seu objeto. Esse, então, o segundo aspecto da aproximação que procuro estabelecer entre Euclides e Gilberto. Tal aspecto consiste na valorização de um procedimento em que o autor se dissolve, empaticamente, no seu objeto, na paisagem de sua devoção, deixando-se mergulhar no que Freyre considerava "as estridências brasileiras", aqueles ruídos que não poderiam ser capturados pela contenção da forma a que se viam obrigados os intelectuais da Corte. Euclides, evidentemente, austero como a natureza descrita em Os Sertões, absorvera, em si, a paisagem intelectual, a paisagem moral, a paisagem estética do seu objeto. Era um sertanejo anguloso. Gilberto fizera o mesmo e se tornara farto como os grandes canaviais. O texto de Gilberto sobre Euclides, a partir daí, segue de perto a sugestão de Afrânio Peixoto, para quem o engenheiro seria autor de uma obra que não está fora dele; de uma obra que narra o efeito dos sertões sobre a alma daquele brasileiro torto, que era Euclides da Cunha.
A necessidade de uma paisagem que correspondesse às aflições do autor, ao seu estágio de desenvolvimento pessoal, à sua dinâmica formadora, parece ser o ponto que mais emociona Gilberto Freyre em sua leitura de Os Sertões. O livro assume, assim, a característica de um encontro: uma civilização inacabada e um autor inacabado encontram-se na produção de uma obra que, afinal, completa a identidade do autor pelo reconhecimento público que ela foi capaz de lhe fornecer. Há, aliás, entre Euclides, Gilberto e Lima Barreto uma similaridade que não pode ser desconsiderada, embora Freyre sempre fizesse questão de se distinguir do mulato boêmio. Os três, de fato, pensaram em escrever uma obra-prima, um clássico brasileiro, capaz de marcar o momento de sua entrada, a aparição de cada um, na grande cena intelectual.
Com Os Sertões, Euclides conheceria a fama - autor e obra teriam atingido um acabamento mútuo. Os Sertões deixavam de ser uma região ignota para se constituírem em uma "qualidade" da experiência brasileira, uma espécie de símbolo de um País em busca de afirmação, cujo principal ator passava a ser o, até então desconhecido, tabaréu. Valorizados em sua potencialidade heróica, os caboclos vulgares, anônimos e, até certo ponto, canhestros transformavam-se, pela lente euclidiana, em titãs acobreados e potentes, figuras hirtas e densas, em um inesperado movimento de assemelhamento ao autor. O Euclides tabaréu, tornado um herói da interpretação e das expedições científicas que nas décadas seguintes cruzariam o Brasil, concluíra o círculo em que se misturavam vida e obra.
O sertão é o lugar que transforma o inacabamento em heroísmo, dimensão que Capistrano de Abreu levará mais adiante, ao apontar a vocação irredentista de um Brasil desconhecido, de um Brasil profundo, interior, "de dentro". Gilberto Freyre, contudo, não se estende em suas considerações sobre Capistrano. Reconhece apenas que ele teria prolongado e aprofundado essa percepção do antagonismo presente na trajetória brasileira, teria fixado essa dimensão da história como conflito, já presente em Euclides da Cunha. E, embora anote que ambos compartilhavam um mesmo parâmetro para a compreensão do Brasil, deixa entrever que a caracterização euclidiana de Canudos como uma potência não realizada, como um movimento que poderia ter ensejado a construção de uma nação autêntica e que, uma vez desbaratado, adiava, para um tempo incerto, o reencontro dos brasileiros com a sua originalidade, contrastava, claramente, com a percepção que Capistrano tinha daquele processo. É que, com Euclides, a derrota de Canudos assumia as cores de uma epopéia negativa; com Capistrano, as de uma derrota histórica. Para este, o final do século XVIII é coincidente com a derrota do que havia de genuinamente brasileiro, sendo o País, desde então, uma repetição amarga e permanente da civilização que a monarquia luso-brasileira concebeu para nós, isto é, de uma civilização luso-brasileira, estrangeira, exógena, artificial, alheada do Brasil dos sertanejos.
É claro que, dessa perspectiva, a oposição de Gilberto Freyre em relação a Capistrano e aos modernistas paulistas, a quem este inspirou em sua crítica ao nosso legado luso, estava evidenciada. E, nesse caso, a valorização que faz da obra de Euclides é, também, de porte a sublinhar as suas diferenças em relação a um autor - Capistrano -, a quem se atribuía o honroso título de continuador da problemática inaugurada por Os Sertões. Gilberto preferia, como Euclides, a sugestão de um Brasil como potência, como possibilidade de afirmação do novo, sem o receituário que Capistrano extraíra da derrota de Canudos, ou seja, sem a preconização de uma ruptura com a nossa origem, a nossa marca luso-brasileira.
Finalmente, uma terceira e rapidísima sugestão quanto à aproximação de Gilberto Freyre à linhagem euclidiana. Uma aproximação por contraste, uma reedição marota dos chamados "antagonismos em equilíbrio", forma típica da construção de Casa Grande & Senzala, por exemplo. Ela remonta à descrição da personalidade do autor - um homem triste. É de Gilberto Freyre a caracterização que se segue sobre Euclides da Cunha:
[...] nem moças bonitas, nem danças, nem jantares alegres, nem almoços à baiana, com vatapá, caruru, efó, nem feijoadas à pernambucana, nem vinho, nem aguardente, nem sobremesas finas, segundo velhas receitas de iaiás de sobrados, nem churrascos, nem mangas de Itaparica, abacaxis de Goiana, açaís, sopa de tartaruga, nem modinhas ao violão, nem pescarias de Semana Santa, nem ceias de siri com pirão, nem galos de briga, nem canários do império, nem caçadas de onça ou de anta nas matas das fazendas, nem banho nas quedas d'água dos rios do engenho, em nenhuma dessas alegrias, caracteristicamente brasileiras, Euclides da Cunha se fixou. Nem mesmo no gosto de conversar e de cavaquear, às esquinas ou à porta das lojas, de todos os brasileiros, desde a Rua do Ouvidor à menor botica do centro de Goiás, principalmente dos baianos, dos quais, aliás, Euclides procedia, embora sua personalidade se enquadre menos no tipo regional do baiano do Recôncavo que no do sertanejo. Raro na palestra se animava, é a informação que nos dá Teodoro Sampaio, que acrescenta: não era verboso, nem álacre, nem causticante no discretear ordinário. Preferia pensar, refletir, ouvir antes que dizer o que traía natural propensão, mais para acolher do que para dispartir as jóias do seu espírito."
Segundo Gilberto Freyre, o contentamento, algum e discreto, que ainda poderia mobilizar Euclides da Cunha era uma certa maledicência, uma certa mordacidade que ele praticava em suas cartas íntimas, como, por exemplo, a de chamar Joaquim Nabuco de "artista velho": parecia um ator velho, tinha pelo menos a voz de um ator velho. Enfim, excetuando essa prática, nada mais o tornava farto ou largo. Sua austeridade foi tomada, por Gilberto Freyre, como um exemplo de ascetismo e economia, ainda que, de passagem, se possa observar que o texto de Euclides é, notoriamente, o oposto disso - rebuscado, barroco, gordo. Mas essa consideração não aparece em Gilberto. Por quê?
Talvez porque Gilberto Freyre estivesse em busca de uma figura contrastante, que, desse modo, esclarecesse a sua própria. Assim, é interessante constatar a presença freqüente do personagem Dom Quixote em seu texto sobre Euclides. E eu concluo essas notas com a sugestão de que as disparidades entre o magro, anguloso, e o farto, gordo; entre o duro e o mole; entre o discreto e o excessivo pudessem ser identidades construídas como um antagonismo em equilíbrio, como um intérprete coletivo do Brasil, atravessando diferentes épocas, sem a precedência histórica de um sobre o outro, de Euclides sobre ele mesmo, Gilberto Freyre. Na linhagem que Gilberto Freyre está procurando construir, não cabe uma evolução, já que a temporalidade brasileira é a de simultâneos e não a de sucessivos. Nesse sentido, o par Dom Quixote e seu escudeiro me parece ser representativo dessa dinâmica de identificações que Gilberto estabelece entre Euclides e a sua maneira de produzir o ensaio social literário.

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Maria Alice Rezende de Carvalho é professora do Iuperj e autora de O quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil. Rio de Janeiro, Revan, 1998. Este texto foi elaborado a partir da transcrição da comunicação apresentada no Seminário Internacional “Novo Mundo nos Trópicos” (Recife, 21 a 24 mar. 2000), guardando, por isso, a informalidade que caracteriza as exposições orais.
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