Gilberto Freyre e a "brasilidade nordestina"

Michel Zaidan Filho
Especial para
*Gramsci e o Brasil"














A Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, recém-transformada em Organização Social, prepara-se para comemorar o centenário de nascimento do sociólogo Gilberto Freyre. A efeméride será aproveitada para a instalação da cátedra “Gilberto Freyre”, dedicada aos estudos brasileiros, no Departamento de Ciências Sociais da UFPE. Nada mais merecido para quem ostenta o honroso título de um dos “pais fundadores” da Sociologia brasileira (juntamente com os nomes de Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda, segundo o luminoso comentário de Antonio Candido).
Não obstante, o principal interesse na figura do ilustre sociólogo de Apipucos, no ensejo dessa comemoração, reside na construção (de sua autoria) de uma das mais duradouras produções “discursivas” da cultura brasileira do século XX: a chamada “brasilidade nordestina”. Obra de um verdadeiro intelectual orgânico da classe senhorial nordestina, destinada a garantir uma sobrevida, no plano de uma economia simbólico-cultural, para as oligarquias decadentes de nossa região, alijadas do poder pela Revolução de 30. A ninguém mais do que a Gilberto Freyre devem essas oligarquias uma verdadeira epopéia civilizatória, baseada na tese da miscigenação racial brasileira e do caráter mais ou menos idílico, cordial, das relações entre negros e brancos no país. Aliás, vem dessa poderosa tese a variante do socialismo “monárquico”, “sertanejo”, de conhecido mandarim da cultura popular do Nordeste.
A festejada e duradoura criação de Gilberto Freyre tem, entre muitas outras, duas características dignas de serem ressaltadas: a engenhosa combinação feita pelo mestre entre modernismo e regionalismo, mitigando os efeitos choquiformes (urbano-industriais) da estética modernista e dando lugar ao ciclo da cultura regionalista da década de 1930 (José Américo, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego e outros), e a fetichização dos traços culturais nordestinos (a cocada, o alfenim, o bolo de Souza Leão, o açúcar, a arquitetura, os costumes sexuais, as crendices religiosas, etc.), apresentados como “vantagens comparativas” civilizatórias da nossa raça no concerto das outras nações.
Essa astuta operação produziu curioso resultado: a fabricação e a difusão de uma das mais bem-sucedidas “identidades culturais” (a chamada “brasilidade nordestina”), festejada nacional e internacionalmente como marca da originalidade brasileira; e ao mesmo tempo o reforço, a justificativa (para não dizer, a racionalização) de aspectos conservadores, oligárquicos e tradicionalistas de nossa sociedade. A conseqüência disso é que a estetização do nosso atraso (vide a dialética do picaresco e da malandragem na obra de Antonio Candido e Roberto Schwarz) permite mil e uma utilidades da obra freyriana: da sua utilização pelos grupos de direita para produção de consenso e unidade nacional, até sua adaptação como entretenimento de massa pela indústria cultural moderna.
A obra de Gilberto Freyre é, assim, uma unanimidade sob suspeita: nos fornece uma razão (ou modo) de ser, no confronto com as demais culturas, mas à custa de uma naturalização problemática de traços, princípios e atitudes sociopolíticos conservadores do ponto de vista da produção de uma sociedade republicana e democrática no Brasil. A se aceitar ingenuamente o substrato social embutido em sua obra, a única utopia possível a ser acalentada por nós - cidadãos nordestinos e brasileiros - seria o messianismo da Pedra do Reino, com seus vaqueiros socialistas em busca da ressurreição de Dom Sebastião, em versão beata e sertaneja.
Já caminhamos muito até aqui para saber quem lucra e quem perde com as conseqüências desse historicismo cultural freyriano, particularmente numa época em que a globalização financeira dos mercados - destruindo os Estados-Nação - enaltece o “charme” (e o valor de troca) das culturas regionais ou locais. Do que precisamos urgentemente são utopias e valores que resgatem da marginalidade política, econômica e social milhares de brasileiros para que, como disse outro ilustre sociólogo pernambucano, deixem de ser como caranguejos vivendo nos mangues do entorno das casas-grandes.

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Michel Zaidan Filho é coordenador do mestrado de Ciência Política da UFPE.
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