Gramsci: sua teoria, incidência no Brasil, influência no Serviço Social

Carlos Nelson Coutinho














Nos últimos vinte anos, o italiano Antônio Gramsci foi, certamente, um dos autores estrangeiros mais lidos e debatidos no Brasil. Deveu-se a ele, em grande parte, a renovação do pensamento marxista entre nós, renovação que tornou possível conservar vivo o legado de Marx numa época marcada pela ofensiva das correntes neoliberais e conservadoras. E a influência de Gramsci não se limitou ao terreno da política: suas instigantes categorias ingressaram também na Universidade, tornando-se referência obrigatória para os estudiosos de quase todos os campos das ciências sociais, particularmente os da pedagogia e do serviço social.
O livro de Ivete Simionatto [Gramsci: sua teoria, incidência no Brasil, influência no Serviço Social. Florianópolis-São Paulo, Editora da UFSC-Cortez, 1995. 281 p.] é a primeira tentativa de fôlego no sentido de analisar o itinerário brasileiro de Gramsci, através da reconstrução acurada de sua influência no debate político e universitário de nosso País. Para melhor recompor este itinerário, Ivete inicia o seu trabalho com a exposição das categorias gramscianas que maior impacto tiveram no Brasil (tais como: hegemonia, intelectuais, Estado ampliado, filosofia da práxis, etc.), num capítulo onde revela pleno domínio do pensamento do autor dos Cadernos do cárcere e dos seus principais e mais recentes intérpretes. Na medida em que tais categorias são centrais na teoria de Gramsci, esse capítulo constitui também uma eficiente e atualizada introdução à obra do pensador italiano.
A parte mais original do livro, contudo, parece-me ser precisamente aquela dedicada à influência das idéias de Gramsci no Brasil. Baseando-se em uma ampla pesquisa bibliográfica (através da qual descobriu importantíssimos documentos para recompor o itinerário brasileiro de nosso autor) e em várias entrevistas com os principais protagonistas desse itinerário, Ivete nos relata – no segundo capítulo – as múltiplas facetas da influência de Gramsci em nosso País: as dificuldades iniciais para sua assimilação pela esquerda, sua crescente influência no pensamento político a partir de meados dos anos 70, seu impacto progressivo no debate universitário, os múltiplos modos pelos quais ele influenciou (em diferentes campos) as interpretações do Brasil. Nesse capítulo, o livro nos permite perceber as razões pelas quais Gramsci se tornou, ao longo das últimas décadas, parte integrante da nossa vida intelectual, seja como principal fonte inspiradora de renovação do marxismo brasileiro, seja como um dos mais freqüentes interlocutores das demais correntes de pensamento hoje presentes no País.
No terceiro capítulo, que trata da assimilação de Gramsci pelo serviço social brasileiro, a autora nos mostra, ainda, como as idéias do marxista italiano, embora nem sempre interpretadas adequadamente, foram capazes de motivar respostas originais num terreno específico de produção acadêmica e da intervenção profissional. Esse capítulo, além do inegável interesse que apresenta para os profissionais da área, serve também como modelo para futuras pesquisas que venham a examinar em detalhe a influência de Gramsci em outros campos de pesquisa e/ou a teologia da libertação. Por fim, o quarto e último capítulo contém uma brilhante defesa da atualidade do legado marxista de Gramsci, que Ivete considera momento decisivo na construção de respostas teóricas e práticas adequadas aos problemas postos pela crise do mundo contemporâneo.
O livro, escrito por uma assistente social, não interessa apenas aos seus colegas de profissão. Por se tratar de contribuição fundamental ao estudo da obra de Gramsci (e, em particular, do seu rico e multifacético itinerário em nosso país), ele é leitura imprescindível para todos os que desejam entender as vicissitudes do pensamento social brasileiro nas últimas décadas.

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Carlos Nelson Coutinho é professor da UFRJ e co-editor de *Gramsci e o Brasil*.
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