Economia solidária

Lincoln Secco















Nos últimos 20 anos, o cooperativismo tem crescido nas franjas do capital globalizado, especialmente no Brasil. É dessa recente experiência que trata o livro organizado por Paul Singer e André Souza (A economia solidária no Brasil, Ed. Contexto, 2001). A origem dessa retomada reside, para os vários autores do livro, numa resposta ao desemprego.
Na sua apresentação, Paul Singer demonstra que aquilo que atualmente se prefere denominar "economia solidária" constitui um modo de produção existente nos interstícios da formação social burguesa. Uma formação social, mesmo sob hegemonia da classe que detém os principais meios de produção, articula diferentes maneiras de gerar e distribuir a riqueza. Assim, as cooperativas atuam como empresas coletivistas vendendo em regime de mercado, como um híbrido de produção simples de mercadorias e capitalismo. Na verdade, diz Singer, elas são uma síntese que incorpora e supera ambos.
Duas críticas se fizeram ao cooperativismo ao longo de sua história. A primeira pode ser exemplificada por Engels, quando afirmou o princípio da autoridade sobre o da democracia na empresa. A segunda tem como exemplo Lafargue: ele era contra as cooperativas de produção porque seguiam os princípios da concorrência, embora defendesse as de consumo.
Depois da Revolução Russa, a oposição operária, que propugnava os conselhos de fábrica, foi derrotada pela maioria do Partido Bolchevique, que preferiu submeter os trabalhadores ao Estado. Hoje, as cooperativas ainda são criticadas porque seriam incapazes de subverter a lógica do sistema capitalista.
À medida que a economia volta a assalariar os que estão desempregados, o cooperativismo reflui. Ora, reside exatamente aqui o fulcro político da questão. Nem sempre o crescimento econômico reduziu o interesse pelo associativismo. Entre 1880 e 1914, por exemplo, quando a economia capitalista cresceu na maioria dos países, o número de membros de cooperativas na Inglaterra aumentou de 500 mil a 3 milhões. E, em outro país muito industrializado, a Belgica, entre 1873 (data da criação da lei de sociedades cooperativas) e 1900 foram fundadas mais de 1800 empresas cooperativas. Era uma época de profunda autoconfiança da classe operária. Ironicamente, o próprio Marx considerava as cooperativas um embrião socialista, embora jamais abandonasse a idéia da necessidade da tomada do poder político pelos trabalhadores. Além disso, ele criticou as falsas cooperativas, que degeneravam em "vulgares sociedades por ação".
A resposta que o livro de Paul Singer e André Souza nos dá revela o quanto o futuro está aberto à luta pelo socialismo. Nenhum dos autores ignora que o papel inicial do cooperativismo é a "educação para ser solidário". Se as cooperativas engendrarem uma nova superestrutura jurídica e política, certamente também vão ajudar os trabalhadores a conquistarem hegemonia na sociedade civil e o controle do aparelho de estado.
A hegemonia, disse Gramsci, nasce na fábrica. É no reino da produção material que os trabalhadores devem mostrar que podem governar. Afinal, o socialismo será obra desses próprios trabalhadores ou não existirá jamais.

_______________

Lincoln Secco é doutorando em História na USP e pesquisador da Fapesp.

_______________