O Brasil no espelho do mundo

Luiz Sérgio Henriques
Jornal da Tarde.
Caderno Sábado,
1 set. 2001














Os livros, assim como os homens, têm a sua circunstância. Por isso, textos aparentemente desambiciosos, de estilo enxuto e conteúdo claro, podem ter um significado inesperado, ao aparecerem no tempo exato, iluminando contradições efetivamente vivas na mente dos seus leitores.
O pequeno livro de Rubens Ricupero sobre o nosso país na encruzilhada da globalização é um de tais encontros felizes com as circunstâncias, ao menos por uma dupla série de razões (Rubens Ricupero. O Brasil e o dilema da globalização. São Paulo, Senac, 2001).
Em primeiro lugar, está cada vez mais claro hoje, quando talvez estejamos passando pelo lento declínio do triunfalismo liberal, que alguma coisa, definitivamente, está fora da nova ordem do mundo. Dizer que a globalização liberal não apenas reitera velhas injustiças como cria outras novas e mais terríveis - dizer isto não é mais implicância de dinossauros irremediáveis. Em segundo lugar, no plano nacional, começa a despontar a idéia de que a reforma liberal pura e dura do capitalismo e da sociedade brasileira - com seu cortejo de ajustes fiscais intermináveis, com a economia e a sociedade sob a chantagem permanente dos tais “mercados” - coincide com a própria crise do desenvolvimento, neste país, tal como as últimas duas décadas expuseram com evidência solar.
É reconfortante ouvir, naquele primeiro plano, a voz sensata de um brasileiro, que, à frente de uma das agências representativas desta nova fase da economia-mundo (a Unctad, o órgão das Nações Unidas para o comércio e o desenvolvimento), expõe equilibradamente oportunidades e riscos da modalidade liberal da globalização. Esta voz autorizada contribui assim, ainda que de modo mediato, com os pés solidamente plantados na política real, para uma outra modalidade de globalização, fortemente atravessada por valores humanistas, alheios à lógica perversa dos mercados (isto é, dos mais fortes) e abertos ao sopro de outro tipo de inspiração (Maritain). Não por acaso, a Unctad é também uma voz diferente, ou melhor, é um conjunto de vozes diferentes, entre as quais também são ouvidas aquelas que articulam as razões do Sul do planeta, ao contrário de órgãos, como a OMC, em que as assimetrias de poder transformam as negociações sobre comércio, patentes e propriedade intelectual, numa versão nem tão sofisticada assim da fábula infantil entre lobo e cordeiro.
A “lição de coisas” que Ricupero nos oferece incide também, como mencionamos, na vida brasileira: aqui, o homem do mundo, que é Ricupero, se apóia nos clássicos do Brasil, em Celso Furtado, em Caio Prado e - por que não? - em José Guilherme Merquior, este último num momento de recusa da ortodoxia liberal, ao defender - à sua maneira, evidentemente - o papel do Estado na formulação e implementação de estratégias nacionais.
A lição é também de método, como costuma acontecer nestes casos. Nada mais estranho à razão economicista dominante, com sua pretensão de dominar de modo imperialista o discurso público e até mesmo servir como a base exclusiva de uma ética e de uma visão de mundo, do que o apelo à história, às suas surpresas e às suas lições. Ricupero, pelo contrário, sublinha o fato de que, como nação, já nascemos “globalizados”, no amplo movimento de expansão mercantil do século XVI representado pelas grandes navegações. E o Brasil, “colônia de exploração” assentada no binômio latifúndio e mão-de-obra escrava, se globalizou desde o princípio de modo perverso: integrava-se ao mundo, fornecendo mercadorias de demanda efetiva, como o açúcar e o café, ao mesmo tempo que se desintegrava internamente, como uma sociedade dividida em senhores de terra e escravos, uma economia regionalmente despedaçada, ao sabor dos ciclos de prosperidade e decadência. A “perfeita” integração ao mundo, em sua forma perversa, foi uma ameaça à coesão social, à eficiência do sistema econômico e à própria integridade da experiência brasileira: no dizer de Nabuco, outro clássico evocado breve mas incisivamente neste livro, terminamos, num determinado ponto da nossa trajetória, na precária condição de uma nação sem povo, porque escravos, obviamente, não são cidadãos.
Mesmo para quem se coloca numa posição programaticamente marxista, a leitura de Ricupero é um alento e uma esperança: a globalização neoliberal é uma demonstração de que a unidade do mundo e do gênero humano avança apesar de tudo - até mesmo, ou principalmente, avança pelo lado pior e mais cheio de crueldade. Aquela forma da globalização não é, porém, um fato da natureza, incontrolável e inexorável. A política - ensina-nos Ricupero - “conserva muito dos seus trunfos e seria perigoso tentar ignorá-la”. E o exercício da política se faz, por certo, de modo cosmopolita, no âmbito da incipiente “sociedade civil” mundial e dos diferentes organismos da mundialização, mas se faz também, concretamente, no âmbito nacional, onde muitas escolhas dependem exclusivamente de nós. Além do horizonte mesquinho das elites da reforma liberal no Brasil, ainda há um país pujante e significativo a ser reinventado e a ser inserido, de modo soberano e criativo, numa ordem internacional diferente e mais solidária.

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Luiz Sérgio Henriques é o editor do site *Gramsci e o Brasil*.

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