A política e a religião pelo método confuso

Luiz Werneck Vianna

Especial para *Gramsci e o Brasil*




Não têm sido poucas as conseqüências imprevistas do processo de transição do antigo regime militar para a democracia política na forma da Carta de 1988, a principal delas, sem dúvida, a neutralização da institucionalidade democrática quanto à questão social, aos valores e temas de que foram portadores os vigorosos movimentos sociais dos anos 80 e 90. De modo similar, tem sido inesperada a emergência da religião no plano da política - e não da religião que deita raízes na história do país -, cuja principal referência está nos quase cem representantes de denominações evangélicas no Parlamento, que se comportam em muitos assuntos como uma bancada informal, além dos inúmeros deputados estaduais e vereadores, e que ora parece encontrar coroamento na candidatura à sucessão presidencial do sr. Anthony Garotinho, cuja campanha, até aqui, parece se reduzir ao canto dos salmos e à leitura comentada de outros textos bíblicos, evocando, nesse país que parecia definitivamente secularizado, o discurso das profecias.
Tal presença da religião na política se torna ainda mais singular por envolver personagens até então sem presença ativa no cenário republicano, imersos, por assim dizer, no limbo do Brasil - são os novos personagens da intelligentsia brasileira, originários da massa do povo e que desconheceram a socialização de elite, treinados nas escolas de leitura e de interpretação de textos sagrados, e os que têm sido parte do segmento mais excluído da nossa sociedade, os pobres sem ocupação definida, a multidão, enfim, dos desesperados entregues ao deus-dará. Trata-se, pois, de uma clássica relação intelectuais-povo, decerto que de novo tipo na nossa modernidade, e que vem passando ao largo da configuração tradicional em que intelectuais com formação de elite se articulam com a fração organizada do povo em torno de um projeto, a um tempo, ideal e material
Importa notar que a República, mais do que centenária e nascida no contexto de uma dura separação entre Igreja e Estado, manteve-se fiel, em linhas gerais, durante décadas, a essa marcação, como ilustram os casos da pouca influência exercida pela Liga Eleitoral Católica (LEC), nos anos 30 e 40, e o da dificuldade de captar o voto católico que o Partido Democrata Cristão (PDC) encontrou nas décadas seguintes. No caso, vale igualmente recordar o destino da Ação Popular (AP), movimento político de inspiração na esquerda católica, que de tal modo se envolveu com o mundo secular que acabou por se tornar de adesão marxista. De qualquer forma, deve-se registrar que a distância entre religião e política, preservada pelos católicos em grande parte da história republicana, não se deve, ao menos a partir dos anos 30, a traços de quietismo social entre eles, especialmente nos anos da ditadura militar, quando a Igreja se constituiu como uma das instituições-líderes da sociedade civil nas lutas pela redemocratização do país.
A emergência das denominações evangélicas no terreno sans phrase da política republicana é, portanto, além de surpreendente, paradoxal. Surpreendente, à medida que contorna, pelo seu compromisso com um candidato presidencial de declarada convicção evangélica e, até aqui, portador de um projeto meramente evangelizador, a presença da instituição religiosa que melhor representou a resistência contra o autoritarismo. Paradoxal, porque não apenas contraria a tradição republicana de apartar a esfera da religião da esfera da política, como, principalmente, por adotar um crente (cujo comportamento tem sido o de um pastor missionário) como candidato presidencial, após o vertiginoso ciclo de modernização vivenciado pelo país nessas últimas três décadas, circunstância que, na interpretação sociológica dominante, teria aprofundado, em todas as camadas da população, uma atitude em favor de valores secularizados.
A cronologia é persuasiva e está mais bem indicada na literatura especializada: o avanço dos evangélicos, no campo da religião, coincide com um processo de aceleração da modernização do capitalismo brasileiro sob o regime autoritário, cujo efeito foi o aprofundamento da marginalização de amplos setores das classes subalternas, mantidos distantes do mercado de trabalho e insulados socialmente em seus guetos, sem contacto com os sindicatos e com os partidos de esquerda, então severamente reprimidos, de onde lhes poderia provir uma coordenação para a sua energia participativa e uma agenda motivacional sustentada em valores ético-morais secularizados e republicanos. A esse isolamento somou-se, ademais, a incapacidade da Igreja católica em concorrer com as novas agências da fé no recrutamento dos setores subalternos, especialmente depois de a hierarquia católica ter abandonado o trabalho evangélico conduzido tanto pelas Comunidades Eclesiais de Base quanto pelo movimento da Teologia da Libertação, que animaram, durante algum tempo, “a ida ao povo” de uma fração dos intelectuais católicos com formação de elite, visando assentar ali a vontade da autonomia e da participação cívica.
Mais ainda, quando se institucionaliza a democracia política, a neutralidade com que ela se apresenta face à questão social, em razão de uma política desastrada conduzida pelas lideranças políticas de esquerda no curso dos anos 80, que permitiu que forças de adesão neoliberal conquistassem o governo na sucessão presidencial de 89 e nas duas outras seguintes, o sentido da vida republicana, sua linguagem, valores e procedimentos, é esvaziado de substância, particularmente entre os mais desprotegidos socialmente, inclusive pela ausência orgânica dos partidos de esquerda e do sindicalismo que, agora, mesmo sem conhecerem restrições à sua atuação, deles se mantêm distantes. É daí que se estabelece a fratura entre o mundo popular e os personagens e instituições que deitam suas raízes na tradição - laica e religiosa - da república brasileira, favorecendo a emergência social e política dos evangélicos como portadores in nuce de uma ruptura com as matrizes motivacionais não apenas de setores específicos das classes subalternas, com seu ethos fortemente orientado para o indivíduo em detrimento dos valores comunitários, ainda dominantes, de modo geral, em sua formação, como também na sociedade inclusiva, a se fazer valer a candidatura presidencial do sr. Garotinho, que fatalmente concederia uma abrangência a esse discurso, inédita entre nós.
Não por acaso, portanto, o tipo de apropriação da política realizado pelos evangélicos, particularmente os pentecostais, se tem mantido ao largo dos temas da agenda clássica republicana. Não se trata, em que pese a mesma forte interpelação da inspiração bíblica, de nada que relembre a chamada “revolução dos santos”, fermento das lutas contra o absolutismo na Inglaterra do século XVII, com os seus ideais de comunidades igualitárias e autogovernadas, de uma esfera pública tecida diretamente pelo fluxo da sociabilidade, que, transplantada para a América pelos pioneiros auto-exilados, deu partida à história daquele país. Nascida à margem da República, indiferente a ela, se há algo conhecido sobre a experiência pentecostal na vida social brasileira decerto está na influência positiva que exerce sobre a auto-estima da massa dos seus crentes, originários, em sua maioria, dos segmentos mais deserdados socialmente. Na política, ao menos até então, tem-se limitado a uma defesa de estilo corporativo dos seus cultos e a temas referidos à família e aos seus valores.
Contudo, nenhum Rubicão foi ainda transposto. O governador Garotinho não se apresenta como o candidato de um partido confessional - confessional tem sido ele em sua campanha e nos seus pronunciamentos públicos. O partido que o acolhe é o Partido Socialista Brasileiro (PSB), partido laico, de largas tradições republicanas, tendo à frente personalidades como Miguel Arraes e tantas outras com igual comprometimento com os valores da política e da democracia. A construção é bizarra e, embora inclua matéria de fé, ao menos no que se refere à campanha do governador, parece ser mais vizinha da razão instrumental (para todas as partes envolvidas) do que do terreno das convicções. O partido pode ganhar os votos e eleger uma bela bancada parlamentar; os evangélicos, a crer nas aparências, representados pelo seu governador, podem conquistar, no cenário aberto da competição política pela sucessão presidencial, uma nova e ampliada audiência; o governador se credencia como político de alcance nacional; mas quem perde é a república, para não falar da religião, as duas com seus discursos fora do lugar. Vai daí que, cálculo instrumental por cálculo instrumental, nem a religião empresta sua força ético-moral à política, nem a política concede grandeza e virtude cívica à religião.

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Luiz Werneck Vianna é sociólogo e autor, entre outros, de Liberalismo e sindicato no Brasil.

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