Paradoxos, horrores e possibilidades

Marco Aurélio Nogueira
Especial para
*Gramsci e o Brasil*




Visto em seu enquadramento histórico amplo, o século XX foi um tempo de paradoxos. Desdobrou-se como uma época de progressos e avanços insofismáveis, nos mais diversos e surpreendentes planos da vida, mas não teve força para qualificar de modo radical o salto que se deu para frente.
Foi um século que acelerou e aprofundou a aproximação entre homens e mulheres dos mais diversos recantos: o mundo ficou muito mais mundo. Processando-se, porém, sob a égide do grande capital e da globalização neoliberal, em vez de promover a unificação do gênero humano, a aproximação se traduziu apenas em mundialização. Em vez de integração, tivemos muitas separações; em vez de equilíbrio e cooperação, muita instabilidade e competição. A comunicação se alastrou, graças à difusão das novas tecnologias de informação e da Internet, mas não se conseguiu estabelecer uma era de diálogo consistente, culturalmente denso e capaz de disseminar inteligência. Nunca houve tanto empenho pela paz e tantas guerras, abertas ou dissimuladas. Nunca o cotidiano esteve tão cortado pela violência e pela insegurança.
Que século imaginaria legar, para seu sucessor, o espetáculo aterrador de setembro de 2001, quando alguns imponentes edifícios-símbolo da cidade de Nova Iorque e o complexo do Pentágono, nos Estados Unidos - cérebro do maior aparato militar jamais construído pela humanidade -, foram seriamente danificados por uma ação terrorista sem precedentes em ousadia e radicalização? Nunca o terrorismo gozou de tanto espaço, facilidade e petulância, indiferente a sonhos, utopias e movimentos em favor da paz, da integração, do diálogo entre os povos e da introjeção de um sentido democrático e social na lógica perversa da globalização. Nunca um Império foi tão poderoso, tão dono do mundo, tão onipotente, e ao mesmo tempo tão frágil, tão inseguro, tão devassável. Sua obsessiva insistência em financiar, armar e treinar o terror contra seus adversários, em sustentar regimes opressivos e apoiar tiranos ensandecidos pelos quatro cantos do mundo - na Nicarágua, no Chile, em El Salvador, no Oriente Médio, no Vietnã, no Afeganistão -, acabou por se voltar contra ele: ao incentivarem o terrorismo localizado, os Estados Unidos criaram as condições para o crescimento de um monstro fora de qualquer controle, que os converteria em alvo e ameaçaria o conjunto da vida civilizada. Sua determinação em ser o herói universal e seu olímpico descaso para com a miséria de tantos povos fizeram com que se transformasse no vilão universal. Nunca um Império foi tão amado e tão odiado.
Ainda que tenha contribuído para que se estabelecesse um mais elevado padrão de igualdade social, o século XX não soube neutralizar ou eliminar a pobreza e a miséria, que chegaram ao final do período exibindo índices alarmantes. A desigualdade voltou a crescer, quando tudo levava a crer que seus dias estavam contados. Expandiu-se em termos quantitativos - com o aumento do número de miseráveis e o retorno à pobreza de segmentos que antes haviam dela se afastado - e em termos qualitativos, com o aparecimento de desigualdades novas (como a que separa excluídos e incluídos, ou a que distingue comunitários e extracomunitários na Europa).
Sobre uma base jamais antevista de riqueza material, científica e cultural, a distância entre ricos e pobres atingiu níveis infames. Progressivamente, impelido pela exacerbação de suas contradições, o século foi dando origem a um quadro em que meia dúzia de arquimilionários acumula tanta riqueza quanto a metade dos países do mundo, em que boa parte da população mundial sobrevive com menos de 2 dólares ao dia, em que a subnutrição e as más condições de vida dizimam milhares de jovens e adultos, em que crianças vegetam nas grandes cidades em meio a símbolos ostensivos de poderio econômico, conforto e bem-estar.
Apesar de ter declinado de forma expressiva ao longo dos anos 1900, o analfabetismo continua a ser um problema de grandes proporções: cerca de 20% da população mundial - 875 milhões de pessoas - entraram no novo século sem dominar as bases da linguagem escrita. Pior: o analfabetismo se feminizou - do total de analfabetos, 66% são mulheres - e se concentrou geograficamente (17 dos 25 países com grandes índices de analfabetos encontram-se na África subsaariana e no Sudeste Asiático). É um poderoso indicador de desigualdade e exclusão, sobretudo quando avaliado junto com a chamada “ignorância digital”, que afasta milhões de pessoas do uso do computador e de diversas oportunidades de emprego, comunicação e intercâmbio.
O século também não possibilitou a convivência sustentável e civilizada com a natureza: ainda que tenha propiciado a completa subsunção da natureza aos caprichos e necessidades do homem - tanto da natureza como meio físico quanto da natureza como meio humano, como corpo e mente -, não deu curso a nenhum movimento virtuoso de reprodução ou reposição da natureza, que se decompõe diante da volúpia produtivista e da posse predatória. Além do mais, o domínio da natureza se confundiu com controles totais, fantasias onipotentes e racionalizações extremas, que seguramente abalaram o modo como a humanidade vivia a vida e explicava a si mesma.
O século enfatizou categoricamente o valor do trabalho - sua capacidade de transformar a natureza e promover o homem -, mas chegou ao fim com o trabalho apequenado, submetido a pressões técnicas, organizacionais e políticas. Ao abrir-se o século XXI, massas de desempregados convivem com guetos especializados de profissionais bem remunerados. A jornada de trabalho continua a declinar, os escritórios domésticos se expandiram a ponto de criar a imagem de um trabalho sob controle estrito do trabalhador, e nas organizações adotou-se um discurso gerencial todo focado no respeito à individualidade do trabalhador, na flexibilidade e no abandono dos controles formais. Discurso que não reverbera na realidade. De modo geral, as pessoas trabalham mais e em condições sempre mais adversas ou incertas. O emprego se desestruturou e se despersonalizou na mesma intensidade em que o part-time job se converteu em padrão do modo futuro de trabalhar. Tudo contrasta a facilidade dos discursos que proclamam o início de uma era de “ócio criativo” e “direito à preguiça”.
O século XX foi um século de massas. A forte e acelerada socialização da política projetou os trabalhadores como protagonistas ativos do Estado e do governo. Grandes partidos e sindicatos afirmaram-se num terreno que, até o século XIX, era acessível apenas a poucas elites - pessoas influentes, alguns condottieri remanescentes, protegidos do Príncipe, funcionários qualificados, políticos de velha estirpe. A emergência das massas reformulou toda a esfera política: aproximou-a da democracia substantiva, do sufrágio universal, da representação alargada, do controle social, do autogoverno. As massas aceleraram e aprofundaram o processo de ampliação do Estado, colando uma sociedade civil sempre mais plural e ativa a uma sociedade política sempre mais vinculada socialmente. Onde antes imperavam os “homens de prol”, como lembrou Max Weber, passou-se a ter militantes, máquinas e rotinas partidárias, modernos políticos profissionais, empreendedores eleitorais - bosses dedicados a fabricar votos para si ou para os seus -, especialistas em agitação e propaganda, técnicos em política. A relação entre governantes e governados, elemento primário da política, alterou-se de modo consistente, afetando particularmente a natureza da liderança política. Chefes plebiscitários, líderes carismáticos, demagogos de novo tipo, césares regressivos e progressistas, dirigentes que passam a se afirmar pelas ondas do rádio, dos jornais de massa, do cinema, da televisão. Por vias tumultuadas e transversas, as massas se converteram no grande personagem da política no século XX.
Ao se chegar, porém, ao início do novo milênio, descortina-se um cenário nada grandioso ou otimista. A democracia não se fixou categoricamente nos sistemas políticos ou no imaginário social, ainda que se tenha reforçado bastante como valor e elemento estruturador das relações sociais; os políticos são olhados com desconfiança crescente, deixando-se enredar nas malhas do escândalo e da corrupção, que cresceram de modo impressionante; os governos funcionam mal, não despertam muitas lealdades e deixaram de ser a principal referência das sociedades; o Estado - que evoluira como Welfare State e nesta condição atingira um consistente ponto de equilíbrio - se desajusta a olhos vistos, seja como “expressão jurídica de comunidades politicamente organizadas”, seja como aparato de organização e intervenção. As massas entraram no sistema político, mas não conseguem direcioná-lo. Em muitos casos, passaram simplesmente a virar-lhe as costas.
O século foi também das cidades. Nele, a humanidade convergiu em massa para o mundo urbano. As cidades cresceram como nunca, assimilaram padrões de conforto, higiene e educação jamais usufruídos antes, tornaram-se o centro de todas as grandes decisões políticas e culturais. Apesar disto, não evoluíram como autênticas polis. Converteram-se em amontoados de gente e deixaram de fornecer, aos que nelas moram, as condições de usufruir as vantagens da aglomeração: a festa, a diversidade, o aprendizado da diferença e do respeito pelo outro, a luta coletiva. Atingiram o novo milênio provocando mais repulsa que atração.
Enfim, como lembrou Eric Hobsbawm em Era dos Extremos, as pessoas chegaram ao final do século XX mais altas e pesadas, alimentando-se melhor e vivendo mais. A economia mundial mostrava-se capaz de produzir bens e serviços em variedade e abundância, a ponto de poder manter viva uma população global muito maior que em qualquer outro período da história. Vivia-se muito melhor que no passado. As pessoas eram incomparavelmente mais cultas, escolarizadas e informadas. O conhecimento científico avançara sem encontrar obstáculos e atingira fronteiras antes consideradas improváveis. A tecnologia dominava o cotidiano dos indivíduos, facilitando suas vidas e liberando-os de encargos mais pesados. A comunicação estava enormemente ampliada, e todos podiam, em tese, falar com todos o tempo todo, explorando possibilidades, territórios e culturas até então vislumbradas apenas de longe.
Apesar disso, o final do século não trouxe consigo qualquer acréscimo em termos de felicidade individual ou coletiva. Vivemos envoltos em dilemas e contrastes sufocantes, expostos a evidências assombrosas de quão potente e quão impotente é a experiência humana. A força, a criatividade e o conhecimento caminham abraçados com a fragilidade extrema da espécie, com a reiteração da insegurança, do irracionalismo, do fanatismo, da alienação. Somos protagonistas de uma época em que jovens fazem festas e comunidades inteiras saem às ruas para comemorar, em nome da justiça divina ou do antiimperialismo, o êxito de operações terroristas que dizimam milhares de vidas inocentes. Em que não se fica mais consternado. Em que das entranhas mesmas do país que se apresenta como paladino da liberdade, da justiça e da democracia, emergem assassinos que se dedicam - sem qualquer causa ou razão - a matar crianças em escolas, dinamitar prédios ou atirar a esmo em transeuntes.
É compreensível, portanto, que uma capa depressiva recubra a vida cotidiana, misturada com individualismo possessivo e indiferença, mal-estar e incerteza. À ruptura dos laços com o passado somou-se agora um bloqueio em relação ao futuro: a vida sendo vivida como presente interminável, solto de conexões históricas e projetos. Vive-se para o que der e vier, sem muitos planos ou aspirações éticas. Num mundo de velocidade, informação e conhecimentos, parece ter ruído todo o arcabouço de idealizações, crenças e convicções com que a humanidade armara sua autoconsciência: o fim do grande humanismo, o sofrimento do pensamento crítico, a crise do iluminismo e de sua idéia libertária de progresso, as dificuldades da democracia radical.
Hoje, ao darmos os primeiros passos no novo milênio, não há muito que comemorar, mas estamos longe do caos incontrolável. O século XX nos fez enveredar por um “futuro desconhecido e problemático, mas não necessariamente apocalíptico” (Hobsbawm). Grossas nuvens de fumaça, medo e sofrimento bloqueiam o entusiasmo, mas as possibilidades de avanço materializam-se a olhos vistos. Paradoxo, precisamente.
O que virá pela frente? Tanto quanto em qualquer outra época, a história continuará a se processar como um movimento aberto, errático, repleto de alternativas. Mas a história não é apenas um jogo de circunstâncias, decisões governamentais, crises estruturais, acasos e necessidades. Nela continuarão a operar o engenho, a generosidade e o empenho democrático dos povos da Terra, com suas organizações, seus líderes, suas massas, suas culturas. Se o mundo se tornou mais mundo e os problemas que nos afetam são problemas globais, não há saída sem diálogo, sem articulações e esforços de unificação, sem soluções globais. Se os povos da Terra souberem se aproximar e dar vida a ações democratizadoras combinadas, a pressões inteligentes, a alianças sustentáveis, capazes de impor suas decisões sobre todos, conseguiremos desenhar um pacto social de novo tipo - um pacto para dignificar a comunidade humana, sem distinções de qualquer espécie e com a devida promoção dos mais frágeis - e fazer com que ele prevaleça sobre a globalização econômica. A convivência democrática pode ser mais forte que o Império.
Se tal vier a se dar, o futuro voltará a ser sonhado.

______________

Marco Aurélio Nogueira é professor de Teoria Política da Unesp/Araraquara e autor, entre outros, do livro Em defesa da política.

______________