Os 150 anos do "Manifesto"

Luiz Sérgio Henriques
O Tempo,
Belo Horizonte, 10 fev. 1998, p. 8














           Caído o Muro de Berlim, liquidada a União Soviética e os países do chamado "socialismo real", as conseqüências não poderiam resumir-se, obviamente, a uma grande mudança na estrutura do mundo. Aquele abalo sísmico, mais além de seu óbvio significado político, também acarretava profundas implicações teóricas. Vencia o liberalismo econômico, consagrava-se uma idéia radicalmente individualista dos processos sociais, decretava-se o fim da história.
           Margaret Thatcher, por exemplo, certa feita decretou com a arrogância típica dos vitoriosos cegos pelo próprio êxito: "Não existe isto a que chamam de sociedade". Haveria apenas indivíduos, naturalmente em luta uns contra os outros, e a famosa mão invisível trataria de providenciar o desfecho mais favorável possível dos conflitos.
           Num clima político-cultural marcado por tais premissas, nada mais natural que um pensador como Marx fosse literalmente tratado como cachorro morto. O velho filósofo de Trier estaria na origem de um desafio histórico malogrado: exatamente aquele que fora lançado pelos bolcheviques em 1917 e que havia sido fragorosamente derrotado pouco mais de setenta anos depois. O lugar de Marx parecia definitivamente garantido na lata de lixo da história.
           O mundo gira e a Lusitana roda. Nem precisou girar tanto assim para que se revelasse ilusório o prognóstico ultraliberal de desenvolvimento harmonioso à luz do mercado finalmente estendido à escala global. E os 150 anos do "Manifesto Comunista", um texto político contemporâneo das revoluções européias de 1848, parecem ser a oportunidade de um reconhecimento da nova atualidade de Marx.
           Não se trata evidentemente de defender a precisão analítica e a clareza política de cada uma das frases do texto assinado por Marx e Engels. Mesmo porque, de acordo com a lição de outro pensador injustamente esquecido -- refiro-me a Lukács, que, junto com Gramsci, construiu uma obra capaz de projetá-lo além do universo do comunismo histórico recém- derrotado --, a grande lição a se tirar de gigantes do pensamento como Marx é a lição de método, não a verificação pontual de erros e acertos de afirmativas isoladas.
           Mesmo assim surpreende no "Manifesto" a lucidez com que é analisado o movimento contraditório das sociedades dominadas pela lógica do capital. A mercantilização universal está no código genético da valorização capitalista: tudo que é sólido desmancha no ar, a criação e a destruição são incessantes. Neste movimento, lançam-se as bases de uma unificação concreta, prática, do gênero humano. A modificação constante das forças produtivas, o aumento colossal da produtividade tornam possível a emergência de um indivíduo social rico, plenamente desenvolvido, que finalmente reconhece como suas as imensas forças sociais geradas no seio da sociedade capitalista.
           Naturalmente, em Marx, o reconhecimento dos feitos do capitalismo caminha junto com a demonstração dos enormes dilaceramentos causados aos próprios indivíduos. A possibilidade objetiva de construção de uma humanidade livre se faz acompanhar de um empobrecimento subjetivo brutal. Todos os "espíritos animais" do capitalismo estão à solta e, deixados a si mesmos, são capazes de gerar um mundo tal como aquele em que vivemos: uma concentração de riquezas agora em escala planetária, uma economia cujo funcionamento "se autonomiza" e se põe contra os requisitos de uma ordem social mais justa. Desemprego, desmantelamento das redes de proteção, precarização do mercado de trabalho, exclusão de indivíduos, regiões, países e continentes inteiros constituem a outra face necessária deste capitalismo quase vitoriano que volta a apregoar-se como o único possível.
           A crítica do mundo que o capital cria à sua imagem e semelhança é, pois, uma tarefa de agora. Os primeiros sinais de uma revanche da sociedade contra a economia já aparecem aqui e ali: a luta pelas 35 horas de trabalho na França e na Itália, a rearticulação do movimento sindical em alguns dos pontos altos do capitalismo (como nos Estados Unidos), a emergência de movimentos sociais importantes (como os nossos sem-terra) em países da periferia capitalista.
           Atual, ainda, uma perspectiva marxiana que se perdeu na experiência do comunismo soviético, nascido em circunstância de tremendo atraso econômico e déficit de tradições democráticas. Em Marx, o comunismo não é um tosco ideal coletivista que se sobrepõe ao indivíduo. Pelo contrário, nas palavras do "Manifesto", é o livre desenvolvimento de cada um que está na base do desenvolvimento de todos. Esta formulação não me parece casual -- e é uma daquelas que sustentam o caráter radicalmente libertário do projeto marxiano.