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Caído o Muro de Berlim, liquidada a União Soviética e os países do chamado
"socialismo real", as conseqüências não poderiam resumir-se, obviamente,
a uma grande mudança na estrutura do mundo. Aquele abalo sísmico, mais
além de seu óbvio significado político, também acarretava profundas
implicações teóricas. Vencia o liberalismo econômico, consagrava-se uma
idéia radicalmente individualista dos processos sociais, decretava-se o
fim da história.
Margaret Thatcher, por exemplo, certa feita decretou com a arrogância
típica dos vitoriosos cegos pelo próprio êxito: "Não existe isto a que
chamam de sociedade". Haveria apenas indivíduos, naturalmente em luta
uns contra os outros, e a famosa mão invisível trataria de providenciar
o desfecho mais favorável possível dos conflitos.
Num clima político-cultural marcado por tais premissas, nada mais natural
que um pensador como Marx fosse literalmente tratado como cachorro
morto. O velho filósofo de Trier estaria na origem de um desafio histórico
malogrado: exatamente aquele que fora lançado pelos bolcheviques em
1917 e que havia sido fragorosamente derrotado pouco mais de setenta
anos depois. O lugar de Marx parecia definitivamente garantido na lata
de lixo da história.
O mundo gira e a Lusitana roda. Nem precisou girar tanto assim para que
se revelasse ilusório o prognóstico ultraliberal de desenvolvimento
harmonioso à luz do mercado finalmente estendido à escala global. E os
150 anos do "Manifesto Comunista", um texto político contemporâneo
das revoluções européias de 1848, parecem ser a oportunidade de um
reconhecimento da nova atualidade de Marx.
Não se trata evidentemente de defender a precisão analítica e a clareza
política de cada uma das frases do texto assinado por Marx e Engels.
Mesmo porque, de acordo com a lição de outro pensador injustamente
esquecido -- refiro-me a Lukács, que, junto com Gramsci, construiu uma
obra capaz de projetá-lo além do universo do comunismo histórico recém-
derrotado --, a grande lição a se tirar de gigantes do pensamento como
Marx é a lição de método, não a verificação pontual de erros e acertos
de afirmativas isoladas.
Mesmo assim surpreende no "Manifesto" a lucidez com que é analisado o
movimento contraditório das sociedades dominadas pela lógica do capital.
A mercantilização universal está no código genético da valorização
capitalista: tudo que é sólido desmancha no ar, a criação e a destruição
são incessantes. Neste movimento, lançam-se as bases de uma unificação
concreta, prática, do gênero humano. A modificação constante das
forças produtivas, o aumento colossal da produtividade tornam possível
a emergência de um indivíduo social rico, plenamente desenvolvido,
que finalmente reconhece como suas as imensas forças sociais geradas no
seio da sociedade capitalista.
Naturalmente, em Marx, o reconhecimento dos feitos do capitalismo caminha
junto com a demonstração dos enormes dilaceramentos causados aos
próprios indivíduos. A possibilidade objetiva de construção de uma
humanidade livre se faz acompanhar de um empobrecimento subjetivo
brutal. Todos os "espíritos animais" do capitalismo estão à solta e,
deixados a si mesmos, são capazes de gerar um mundo tal como aquele
em que vivemos: uma concentração de riquezas agora em escala planetária,
uma economia cujo funcionamento "se autonomiza" e se põe contra os
requisitos de uma ordem social mais justa. Desemprego, desmantelamento
das redes de proteção, precarização do mercado de trabalho, exclusão de
indivíduos, regiões, países e continentes inteiros constituem a outra
face necessária deste capitalismo quase vitoriano que volta a apregoar-se
como o único possível.
A crítica do mundo que o capital cria à sua imagem e semelhança é, pois,
uma tarefa de agora. Os primeiros sinais de uma revanche da sociedade
contra a economia já aparecem aqui e ali: a luta pelas 35 horas de
trabalho na França e na Itália, a rearticulação do movimento sindical em
alguns dos pontos altos do capitalismo (como nos Estados Unidos), a
emergência de movimentos sociais importantes (como os nossos sem-terra)
em países da periferia capitalista.
Atual, ainda, uma perspectiva marxiana que se perdeu na experiência do
comunismo soviético, nascido em circunstância de tremendo atraso
econômico e déficit de tradições democráticas. Em Marx, o comunismo
não é um tosco ideal coletivista que se sobrepõe ao indivíduo. Pelo
contrário, nas palavras do "Manifesto", é o livre desenvolvimento de cada
um que está na base do desenvolvimento de todos. Esta formulação não me
parece casual -- e é uma daquelas que sustentam o caráter radicalmente
libertário do projeto marxiano.
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