Guerra à guerra

Daniel Aarão Reis Filho
Especial para
*Gramsci e o Brasil*




Desde o dia 11 de setembro, quando um conjunto de ações, presumivelmente de autoria de fundamentalistas islâmicos, fez explodir as torres do World Trade Center, em Nova Iorque, e uma ala do Pentágono, em Washington, o mundo entrou em estado de choque e passou a viver à espera das represálias que o Estado norte-americano afinal desencadeou com os bombardeios desencadeados há dias.
A vida, salvo nas cidades atingidas, desenrola-se como sempre, como que obedecendo a um adágio que os próprios norte-americanos criaram: the show must go on, o show precisa continuar. Mas muita coisa mudou, e ainda mudará, depois do fatídico 11 de setembro de 2001.
A principal mudança, sem dúvida, é o acelerado processo de polarização entre, de um lado, o Estado norte-americano, presidido por W. Bush, principal alvo dos ataques, e, de outro lado, os supostos responsáveis pelas matanças, Osama bin Laden e sua rede de organizações, e o Estado afegão, dirigido pelos Talibãs, que lhes dá refúgio e proteção.
A pressão política é terrível para que todos optem por um ou pelo outro lado. Volta a predominar a atmosfera da Guerra Fria, quando todos eram convidados, e pressionados, a escolher entre os dois campos principais que então se ofereciam como alternativas para a humanidade: os Estados Unidos da América e a União Soviética.
O governo norte-americano tem da situação uma análise onde não cabem as nuanças: é a luta do Bem contra o Mal, da vítima contra o agressor, da civilização contra a barbárie, uma cruzada, como resumiu o presidente Bush.
De seu lado, Osama bin Laden dá o troco com a mesma desenvoltura: para ele, os norte-americanos, sejam civis ou militares, em qualquer lugar onde se encontrem, devem ser mortos. É dele, bin Laden, o lado do Bem, enquanto os EUA encarnam o demônio, o império do Mal Absoluto, o próprio Satã.
Nesta polarização simplória, o mais impressionante não é o que cada contendor diz de si mesmo, mas o fato de que uma grande maioria está embarcando nesta correnteza que ameaça conduzir a Humanidade para o abismo de uma guerra sem fim.
Os partidários de Bush não medem suas palavras: para eles, trata-se de desencadear uma guerra de extermínio contra o que chamam de "terrorismo internacional". Caçar os "terroristas" onde se encontrem. Vivos ou mortos, como se dizia dos bandidos no faroeste norte-americano do século XIX. Se for necessário aniquilar populações, assassinar gente, matar quem for necessário matar, tudo isto se justificará em nome da cruzada civilizacional que pretendem representar, erradicando "pela raiz" o terrorismo em escala mundial.
Os partidários de Bin Laden ou os que, de algum modo, justificam suas supostas ações argumentam que os Estados Unidos mereceram os aviões-bomba que desabaram em Nova Iorque e Washington. Afinal, os Estados Unidos não bombardearam impiedosamente o Vietnã durante anos? Não urdiram toda sorte de golpes militares, sobretudo no chamado Terceiro Mundo, dos quais decorreram milhares e milhares de assassinatos? Não são eles responsáveis por um sistema que exclui, que oprime, que explora? Não feriram com o ferro? Que sejam, agora, feridos por ele.
Neste cego tiroteio as primeiras vítimas são evidências que é fundamental resgatar.
Em relação aos Estados Unidos e a Nova Iorque, em particular, urge enfatizar que são um país e uma cidade extremamente diversos e contraditórios e que, portanto, não podem ser tratados como um todo monolítico. Bush não representa senão uma parte do país, tendo sido "eleito", aliás, por uma parcela minoritária da sociedade norte-americana.
Na boa tradição revolucionária dos séculos XIX e XX, os que desejavam mudar o mundo sempre conseguiram distinguir os sistemas e as sociedades. Os governos e os povos. Era do próprio Marx a convicção de que o socialismo teria melhores condições de surgir ali onde tivesse mais prosperado o capitalismo. Uma maneira de não estabelecer um sinal de igualdade entre o sistema econômico-social dominante e a sociedade envolvente. Lenin cansava-se de dizer que socialismo era inimigo do capitalismo e não das sociedades dominadas pelo capitalismo.
Na longa tradição das lutas de libertação nacional, os movimentos guerrilheiros sempre enfatizaram que lutavam contra o sistema colonial e não contra os povos das metrópoles coloniais. Os vietnamitas, que sofreram o peso do terror do Estado norte-americano, que bombardeou por anos a fio suas populações civis indefesas, sempre foram exemplares deste ponto de vista, distinguindo na sociedade norte-americana os partidários da guerra assassina e o povo que deveria se revoltar contra ela. Esta lucidez de análise acabaria desempenhando um papel importante na mobilização da sociedade e, sobretudo, da juventude norte-americana na oposição à guerra.
Em relação ao Islamismo, urge esclarecer que se trata de uma religião fundamentalmente tolerante. Em tempos pretéritos foi até mais aberta do que as outras duas religiões monoteístas: o cristianismo e o judaísmo. Tem uma riquíssima tradição de convivência exercitada com outras civilizações e outros credos. O islamismo e as sociedades que se organizam em torno dos princípios do Islã são diversos e contraditórios, atravessados por diferentes correntes de pensamento e de interpretação dos seus próprios livros sagrados.
Bin Laden e seus facínoras não representam o Islã, apenas uma de suas correntes, certamente a mais sectária. Mesmo no Afeganistão, os talibãs não representam toda a população. O bravo comandante Massoud, infelizmente assassinado dias antes das explosões novaiorquinas, exatamente pelos sicários de Bin Laden, era a prova viva de que nem todos aceitam os ditames brutais e ditatoriais do regime dos talibãs.
Resgatar evidências, neste caso, é também resgatar valores.
O respeito à vida, antes e acima de tudo. A vida complexa, diversa e, por isso mesmo, bela. Na essência, para além dos discursos e dos programas políticos, as revoluções e os movimentos revolucionários desde o século XIX sempre souberam se comprometer com a vida. E com o direito de lutar por uma vida de felicidade, aqui e agora. É este o sentido último das incansáveis lutas, sempre renovadas, para mudar o mundo e os sistemas baseados na injustiça, na exploração e na desigualdade: fazer melhor a vida humana e as suas condições. Não para um grupo especial, para uma tribo específica, para uma nação singular, mas, na boa tradição iluminista, para a inteira humanidade.
Estas evidências e estes valores estão agora sendo pisoteados no tiroteio entre Bush e Bin Laden. E serão certamente esmagados se a humanidade se deixar levar pela voragem dos abismos de morte que se anunciam.
Toda a reflexão crítica de que dispomos, e as energias ainda remanescentes, devem ser mobilizadas para que seja possível escapar da polarização macabra entre os fundamentalismos de direita e de esquerda.
Em 1914, quando começaram a soar os tambores da primeira grande carnificina do século XX e jovens de todo o mundo se preparavam alegremente para entregar suas vidas aos deuses da guerra - e, como então recordava amargamente Rosa Luxemburg, as capitais do mundo eram dominadas por uma atmosfera de linchamento em relação aos que se recusavam a entoar os fúnebres cânticos de guerra e a se deixarem levar pela voragem das falsas polarizações - naqueles dias sombrios, contra ventos e marés, houve uns poucos que resistiram. E denunciaram a insanidade. Enquanto em Londres, Paris, Berlim e São Petersburgo, celebrava-se a hecatombe, estes poucos, censurados e perseguidos, reuniram-se, em 1915, numa pequenina cidade da Suíça, Zimmerwald, e ali protestaram e conclamaram a humanidade a se levantar contra a guerra e a se livrar dos carniceiros de então, que desejavam e lucravam com o comércio da Morte. As montanhas suíças engoliram o eco daquelas poucas vozes, mas elas continuaram ressoando e, mais tarde, quando os povos, exaustos da tremenda matança, começaram a se amotinar e a se revoltar, a reunião de Zimmerwald voltou a ser lembrada e se inscreveu na História.
Tantos anos depois, na aurora de um novo século, entre a Cabul dos Talibãs e de Bin Laden e a Washington de Bush, a Humanidade será capaz de reinventar uma nova Zimmerwald?

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Daniel Aarão Reis Filho é professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense/UFF.
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