A nova Conquista: análise de um filósofo periférico

Alessia Ansaloni
Especial para
*Gramsci e o Brasil*




Depois dos bombardeios sobre o Afeganistão, pode ter início a fase dois da guerra, proclamada pelos Estados Unidos contra o Iraque. Não é mais necessário encontrar provas que liguem diretamente Saddam aos atentados de 11 de setembro, para iniciar uma ação militar. Em 1998, Madelain Albright, secretária de Estado, dizia: “Se temos de usar a força, é porque somos a América. Somos a nação indispensável. Nós nos erguemos alto. Nós vemos mais longe no futuro.”
Neste projeto imperial de pretender reduzir todo o mundo à imagem e semelhança dos Estados Unidos, não é possível deixar de nos referirmos a Enrique Dussel, expoente mais original da filosofia da libertação latino-americana, e à sua crítica do modelo cultural racionalista expansivo da cultura ocidental. Filha do logos, a cultura ocidental buscou a ordem, a medida, o progresso: o ser é essência e existência, ato e potência, causa e efeito. O ser é uma verdade idêntica a si mesma, o todo é uma unidade em si mesma, o que está dentro é, o que está fora não é. O outro não existe e, se não se insere como parte do todo, é negado, reduzido à interpretação ocidental, inserido numa tradição preexistente.
Considero que é importante, então, a formulação ética de Dussel, que desconstrói o sistema ontológico dominante, a partir da exterioridade do Outro como sujeito ético, como rosto e como corporeidade, que grita e reclama justiça. Os excluídos do sistema cultural ocidental é que são tomados por Dussel como centro de um novo modelo de racionalidade, ético-crítica.
Dussel escreveu várias vezes que, diante das massas sempre crescentes de deserdados que tomam consciência de sua negação originária como subjetividade excluída ou objetivada dentro do sistema dominante, os poderosos utilizam a guerra e, se admitem um diálogo, é no interior de sua comunidade de comunicação hegemônica, que não garante a reprodução e o desenvolvimento da vida humana. Segundo Dussel, a filosofia deve saber pensar a realidade mundial atual além da fronteira do centro, que distingue entre populações dotadas de direitos e poderes e populações excluídas e utilizadas como instrumentos manipuláveis.
Hoje se repete o que sucedeu há quinhentos anos com a Conquista da América; o homem europeu constituiu o sentido do ser americano encontrado a partir da totalidade de sentido européia. Dussel sublinha que o habitante autóctone da América não foi descoberto como Outro, mas como o Mesmo já conhecido (o ser asiático), em seguida negado, ocultado e constituído como objeto do ego moderno. Ponto fundamental da crítica dusseliana da Modernidade é, com efeito, que a Europa descobriu um novo espaço geográfico, compreendeu-o como horizonte fundamental do ser do centro, campo de batalha no qual exercer uma práxis de dominação.
A primeira relação com o índio foi de violência, uma relação militar entre conquistador e conquistado, entre tecnologia militar desenvolvida contra uma subdesenvolvida. A ontologia européia, para Dussel, não se baseou na relação pessoa-pessoa, mas naquela sujeito-objeto; não duas pessoas, mas uma só, que constitui um discurso solipsista; o Eu europeu se põe com uma superioridade quase divina em relação ao outro, primitivo, grosseiro, inferior, e coloniza o mundo da vida quotidiana dos índios. Para Dussel, portanto, só aparentemente o pensamento europeu antepõe a teoria à práxis; na realidade, “o ego colonizo, o eu conquisto precedem o ego cogito”, a exploração e a opressão criam as condições históricas das quais nasce uma filosofia da justificação e do ocultamento, uma falsa consciência da realidade. A práxis de dominação forma a própria subjetividade do conquistador; o eu moderno é livre, violento, hábil, guerreiro e político. Basta pensar em Hernán Cortés, o conquistador de Yucatán, que, no encontro com Montezuma, o grande imperador asteca, foi o primeiro que ousou olhá-lo diretamente no rosto, ao entrar na imponente cidade de Tenochtitlán, em 8 de dezembro de 1519, que ocupou e destruiu um ano depois.
A gloriosa conquista, sustenta Dussel, foi antes de mais nada uma guerra de ocupação proclamada pela coroa de Castela e Aragão, relação perversa de dominação que dará fundamento à expansão européia do último milênio e à opressão estrutural que repercutirá em toda a história latino-americana até hoje. Os conquistadores eram sustentados pela monarquia espanhola e pelo capital financeiro mercantilista; tratou-se de uma conquista econômico-produtiva de metais preciosos, de produtos agrícolas, como a cana-de-açúcar e os produtos tropicais, que enriqueceram as burguesias européias nascentes.
Como então, também hoje o princípio euro-norte-americanocêntrico oculta o conceito emancipador de Modernidade como saída do estado de menoridade; na realidade, é justificação de uma práxis de violência por parte de uma civilização que se autocompreende como mais desenvolvida. Esta superioridade impõe o mesmo desenvolvimento unilinear, segundo os parâmetros da ideologia moderna liberal-capitalista, aos povos mais primitivos e grosseiros, determinando a falácia desenvolvimentista [1].
Dussel afirma que a Europa, para abrir novas rotas comerciais, teve de se voltar para o Atlântico, porque o milenar Mediterrâneo estava ocupado pelo comércio do mundo árabe e chinês: a Espanha encontra a Ameríndia sem tê-la procurado. A partir desta descoberta “casual” a América pôde acumular uma superioridade inexistente no fim do século XV.
Do mesmo modo, hoje, o consumismo, se quiser sobreviver, deve abrir novas rotas comerciais, obter matérias-primas e trabalho a baixo preço, mas, sobretudo, abrir caminho na direção daqueles países que se abrem para o seu sistema capitalista: a China e a Índia. E não há outro caminho a não ser a ocupação militar e a limitação das liberdades internas em cada país. Não casualmente, o Afeganistão é um ponto geopolítico essencial para a passagem das mercadorias e das matérias-primas.
É evidente a natureza do projeto imperial americano, que foi revelado com o fim da guerra fria, dado que os Estados Unidos continuam a ocupar militarmente muitíssimos países, buscando impor ao mundo seu modelo econômico-social, fazendo precipitar na miséria países que não se adaptavam. “A partir do fim da guerra fria, para prosseguir a própria política exterior, os Estados Unidos deixaram quase inteiramente de recorrer à diplomacia, à ajuda econômica, à lei e às instituições internacionais, e recorreram cada vez mais ao murro na mesa, à força militar e à manipulação financeira [2].”
Revela-se mais atual do que nunca o pensamento de Enrique Dussel, o qual, através da fundamental intuição marxiana da economia como lugar antropológico por excelência (no qual os seres humanos trocam o necessário para viver), tenta mostrar como, em qualquer canto do mundo, sobretudo nos países periféricos, existe uma conexão muito estreita entre ocupação militar, superioridade tecnológica e produtiva e dominação estrutural, ideológica, política, cultural.

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Alessia Ansaloni cursou filosofia moral na Universidade de Bolonha.
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Notas

[1] “A palavra desenvolvimentismo indica uma categoria filosófica fundamental, uma posição ontológica pela qual se pensa que o desenvolvimento europeu deverá ser seguido com as mesmas características por qualquer outra cultura. É o movimento necessário, para Hegel; o seu desenvolvimento inevitável. Eurocentrismo e falácia desenvolvimentista são dois aspectos do Mesmo” (Enrique Dussel. El encubrimiento del Otro. Hacia el origen del Mito de la Modernidad. Madri, Ed. Utopia, 1992.

[2] Chalmers, Johonson. “Blowback. Il costo e le conseguenze dell’impero americano”. Il Manifesto, 20 nov. 2001.