Alianças em Novo Estilo

Marco Aurélio Nogueira
Jornal da Tarde,
São Paulo, 15 nov. 1997, p. 2




           O PT parece ter finalmente consolidado a descoberta de que existe vida fora de seu território ou dos espaços formais que a ortodoxia costuma atribuir à esquerda. Já não é mais o partido "intra-uterino" que precisava afirmar-se a todo instante como único e verdadeiro representante dos injustiçados, contra-parte intransigente do Estado. Está mais tranqüilo, mais convencido de sua força e mais afinado com as exigências da política. Mais aberto, por isso mesmo, para abraçar questões que até recentemente eram vistas como alheias ao seu programa e à sua filosofia. Como a das alianças.
           Nos momentos de grandes descobertas ou quando se atesta a justeza de uma posição, a euforia tende a estimular o exagero e a radicalização. O PT não foge à regra: admite agora até mesmo o diálogo com ex-governador de São Paulo Orestes Quercia, figura sempre vista com desconfiança, má-vontade e uma não-disfarçada hostilidade por todos os petistas. Ao menos em tese, trata-se de uma guinada em grande estilo, da adoção de uma nova postura, passível de ser tomada como um indicador de amadurecimento. E mesmo que motivada por um cálculo eminentemente eleitoral -- com apoios vindos do "centro" e de áreas alargadas da esquerda ficaria mais fácil obter êxito nas próximas eleições -- , trata-se de uma postura que tem tudo para produzir efeitos importantes.
           O problemas das alianças é decisivo na política brasileira. Quem as concebe atabalhoadamente ou de modo tosco, tanto quanto quem as rejeita in limine ou por princípio, dá-se invariavelmente mal. Pode até avançar -- como é o caso do próprio PT, bem-sucedido projeto partidário -- , mas não consegue decolar como real alternativa de poder nem acumular experiência de governo. Fazer alianças, no Brasil, é uma imposição da vida: das abismais diferenças sociais, da cidadania politicamente deseducada, do sistema político desenhado para confundir o eleitor e pulverizar a representação, dos seguidos ciclos autoritários, da fragmentação da sociedade civil, do rápido assentamento da política-espetáculo. Coligar-se, entre nós, é uma condição natural da política.
           Mas existem alianças e alianças. Há aquelas que são feitas apenas para contabilizar votos e arregimentar recursos de campanha. Há as que visam tão-somente conseguir carona para chegar ao posto almejado. Invariavelmente, estão despojadas de maior grandeza ou densidade. Para os democratas e para a esquerda, porém, uma aliança precisa fazer sentido substantivo, não pode ser mera expressão de uma aritmética eleitoral. Não pode ser apenas a união circunstancial dos que são contra, mas deve assentar sobre uma proposta positiva de futuro. Precisa expressar um eixo programático de larga respiração. Ser uma alternativa para chegar ao poder, mas também um instrumento para governar. Em suma, ser tanto um recurso para ganhar eficácia política quanto um elemento de educação política do povo.
           Justamente por isso, aliança, para a esquerda, é algo a ser construído por parceiros dotados de personalidade política e programática bem clara e capazes de se respeitar em suas especificidades. É uma unidade de coisas diversas que exige a mais completa transparência e que se equilibra numa delicada dialética de tolerância e firmeza. Uma operação para gente grande, já convencida de sua identidade e já tratada pelos outros como tal. Uma operação para partidos que já saíram do útero, que se põem diante do Estado como um outro todo, ou seja, como um protagonista capaz de afirmar um programa para toda a sociedade, e não mais apenas para os seus eleitores. Um protagonista quase épico, disposto a algum "sacrifício" em nome de um objetivo maior.
           E é precisamente neste ponto que o PT deverá demonstrar que sua disposição de mudar é mesmo definitiva. Não basta proclamar-se de esquerda para estar à esquerda. Ser de esquerda não é ser contra o governo FHC, até mesmo porque há muitos setores de direita que também o são. Ser de esquerda é bem mais do que isso: é portar e difundir uma opinião sobre o futuro, uma utopia, um desenho de sociedade mais justa, uma proposta de governo diferenciado, uma nova forma de pensar e gerir a economia, uma nova escala de valores e ideais. É ir além da gestão do capitalismo. É responder aos desafios interpostos ao socialismo pela "grande transformação" que vem junto com a globalização econômica, a sociedade informacional e a revolução tecnológica. Ser de esquerda, em suma, é definir de modo crítico, realista e criterioso (ou seja, não-doutrinário) um "modelo" de socialismo e um caminho para viabilizá-lo. Coisa que o PT reluta em fazer desde a sua criação e que está longe de ter sido feita pelos demais postulantes da "frente de esquerda" que se ensaia no país.
           Sem uma melhor delimitação do que é ser de esquerda hoje, no Brasil, coalizões, frentes e alianças poderão até se viabilizar, gerando programas sofisticados e propiciando avanços tópicos aqui e ali. Mas o futuro continuará tão cinzento e imperscrutável quanto antes. Pior: a sociedade continuará sem saber o que as forças de esquerda pretendem fazer com ela amanhã.