Gramsci: uma vida difícil de ser vivida

Jaime Giolo
Correio da Cidadania,
dez. 2001.














Conheço várias biografias de Gramsci, mas, nesse terreno, como de resto em quase tudo o que diz respeito aos fatos humanos, sempre cabe mais um ponto de vista. É bem-vinda, pois, a obra Antonio Gramsci: vida e obra de um comunista revolucionário, de Mário Maestri e Luigi Candreva (São Paulo: Expressão Popular, 2001, 224 p.). Trata-se de obra breve e simples, porém consistente, apropriada para leitores de vários calibres.
Os dados biográficos essenciais de Gramsci vêm acompanhados de uma precisa contextualização histórica, sobretudo do período em que a Itália e, principalmente, a esquerda italiana passavam pela amarga (e dolorosa) experiência do fascismo. Pode-se encontrar na obra também sugestivas aproximações entre Gramsci e Trotski, frutos de pesquisas recentes, destinadas a contrapor a uma teimosa interpretação liberal de Gramsci uma visão adequadamente marxista e revolucionária desse pensador e militante.
No mesmo objetivo de fazer uma história a contrapelo, Mário Maestri e Luigi Candreva descrevem situações dramáticas em que Gramsci foi traído pelos próprios companheiros, dados que a historiografia oficial da esquerda, via de regra, tentou obscurecer.
Mais do que nos dar informações sobre alguém e suas circunstâncias, as obras biográficas têm a função de lançar desafios práticos, suscitar aspirações, desencadear desejos de incorporações dos leitores às causas do personagem biografado. Biografias, em última instância, descrevem modelos, cuja essência é provocar alguma forma de ascese naqueles que transitam pelo chão comum da história.
Antonio Gramsci: vida e obra de um comunista revolucionário coloca-nos frente a frente com um menino sardo desprovido de saúde e de condições materiais de sobrevivência, mas que, influenciado pela mãe, culta para o seu contexto, desejava ser professor de língua e literatura. Quase que atropelado pela história, durante sua intranqüila vida universitária, ocupou-se das questões da cultura operária e popular, sendo, enfim, levado ao engajamento político revolucionário, por conta das lutas sociais dos tempos de sua juventude.
A profundidade de seu pensamento, entrelaçada com o otimismo de sua vontade férrea, manteve incorruptível sua posição ideológica e sua prática revolucionária, mesmo que para isso tivesse de suportar a violência sobre sua liberdade, saúde e estrutura familiar. A coerência é a marca das grandes personalidades, pelo menos daquelas que merecem sucessivas descrições biográficas. É o caso.
Suportar dez anos de reclusão, em condições subumanas, é uma prova de resistência extraordinária, especialmente em se falando de alguém que apresentava severos abalos de saúde desde a meninice. Apesar das privações a que foi submetido, que vão desde livros até o amor da esposa e filhos, Gramsci foi capaz de produzir um dos maiores monumentos literários da esquerda ocidental. Estou me referindo aos seus célebres Cadernos e Cartas do cárcere.
O leitor que tiver a paciência de compulsar este acervo página por página poderá comprovar esta assertiva e dialogar com uma inteligência fantástica e um sentimento humano dos mais profundos. Enfim, concordará com Giuliano Gramsci, o filho que Antonio Gramsci jamais conheceu: "Concordo que o homem novo não nasceu, mas é muito atual o problema de construir uma sociedade melhor, inspirada nos princípios de justiça e de igualdade. Por isso, não penso que o sacrifício de meu pai tenha sido inútil. O seu pensamento permanece um instrumento na luta para a emancipação social" (Folha de São Paulo, 17-11-91).

_______________

Jaime Giolo, doutor em Filosofia e História da Educação, é professor da UPF.
_______________