O "Manifesto"

Rubem Barboza Filho
O Tempo,
Belo Horizonte, 13 maio 1998, p. 9














Deixe-me começar dramático, caro leitor: somos todos prisioneiros de um espectro. De um fantasma que o Manifesto Comunista, escrito por Marx e Engels há cento e cinquenta anos, nos ajuda a reconhecer e identificar. E paradoxalmente, menos pelos seus acertos preditivos e mais pelo que tem de inatual e deslocado neste nosso crepúsculo de século e milênio.

O tom bíblico e profético do Manifesto não escondia uma visão luciferina, prometéica da história, nem uma aposta fáustica no futuro. Para Marx, o desenvolvimento das forças produtivas deflagrado pelo capitalismo era equivalente ao gesto mítico de desafio à imutabilidade de uma ordem divina, gesto que teria iniciado a história como processo de autocriação do homem. Mais do que isto, o avanço em progressão geométrica destas forças produtivas era afirmado como o responsável final pela construção da liberdade humana, seja diante da natureza ou das formas de exploração secularmente existentes. Mas o Velho Diabo - como Marx gostava de ser chamado - estava pouco disposto a esperar pela parusia, pelo fim dos tempos como realização plena das promessas inscritas no desenvolvimento material. O Manifesto era também um ato de fé na vontade humana esclarecida, na sua capacidade de alterar o curso da história, antecipando e potencializando para o presente as virtudes redentoras das forças produtivas. Sem a intervenção da vontade humana, alertava, o capital se transformará num deus absconditus da vida, consumindo e esterilizando o horizonte de liberdade anunciado pelo avanço tecnológico.

Olhando em volta, o que parece inatual em Marx e no Manifesto não é a denúncia do caráter explorador do capitalismo, nem a previsão de sua reprodução ampliada e globalizada. É este férreo otimismo em relação aos poderes humanos, materiais e espirituais. Para muitos, o voluntário abandono destas "ingênuas" esperanças marxianas seria o sinal de um sadio realismo. Mas, prezado leitor, o que nos atormenta hoje não são as dores e a consciência da maturidade. O espectro que ronda o mundo é o realismo vencido pela cega e brutal factualidade da economia e do capital. O avanço espetacular da ciência e da tecnologia ainda nos provoca encanto e admiração, mas não a certeza da liberdade. E depois das feridas que nos inflingimos nos últimos cento e cinquenta anos, chegamos ao fim do milênio céticos em relação à nossa capacidade de moldar, ainda que precariamente, o rumo da história. O discurso arrogante do neoliberalismo é apenas sintoma e registro de uma abdicação histórica: a abdicação da política como espaço reflexivo e prático de potencialização da liberdade.

Ao invés de abrigar grandes e ambiciosos projetos, a dimensão da política se recolhe à sua racionalidade formal e legal, que ninguém em sã consciência pode dispensar na sua forma democrática. No lugar de ações deliberadamente construtivas, a obsessão com a fria harmonia do equilíbrio orçamentário e a intervenção puramente reativa, cosmética, sempre filtrada pelo pesado cortejo de "restrições objetivas" da economia. Substituindo o voluntário e generoso movimento de incorporação, a imobilização das candentes urgências humanas, suspensas como acidentes perturbadores do circuito do capital. Esvaziada de utopias, despovoada de sujeitos dotados da capacidade de negociar duramente com o capital, a política organiza um simulacro de consolação: a cultura da estabilidade, como os europeus a tem denominado.

Poderá o leitor pensar que estou falando mal de Fernando Henrique, de seu governo e do seu neo-republicanismo. Não estou. Estou me referindo a um espírito de época, que lança perplexidades para todos. A uma cultura simultaneamente antiutópica e antitrágica, que reduz nosso cotidiano a uma ordenada e tediosa rotina, longe das grandes promessas e aparentemente distante das grandes catástrofes. Este parece ser o nosso espectro, aquele que nos mantém imóveis, à espera de não se sabe o quê.