A revolução passiva

Modesto Florenzano
Folha de S. Paulo.
Jornal de Resenhas,
13 abr. 2002, p. 9.














Antonio Gramsci. Cadernos do cárcere. V. 5: O 'Risorgimento'. Notas sobre a história da Itália. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2002. 448p.

Para expressar, numa fórmula lapidar, a espécie de pontificado exercido por Benedetto Croce na historiografia italiana da primeira metade do século 20, o historiador Ruggiero Romano, num livro pequeno, mas precioso, La Storiografia italiana oggi, de 1978, afirma: “Por que não podemos não ser crocianos” (parafraseando um ensaio do próprio Croce, “Por que não podemos não ser cristãos”). Ora, tendo em vista a hegemonia, para usar um conceito caro a Gramsci, que este passou a exercer na historiografia italiana a partir da segunda metade do mesmo século, impõe-se a afirmação “por que não podemos não ser gramscianos” (acrescente-se que as duas paráfrases se aplicam, em menor grau, evidentemente, também à historiografia não-italiana.
Já em 1956, menos de dez anos depois do início da publicação dos Cadernos do cárcere, em 1948 (os que tratam do Risorgimento vieram à luz em 1949), o historiador Giorgio Candeloro escrevia, no prefácio à sua Storia dell’Italia moderna, que, graças a Gramsci, tornava-se possível “uma nova interpretação da história da Itália moderna, concentrada na análise do Risorgimento e da conclusão liberal-moderada, que condicionou a seguir todo o desenvolvimento sucessivo da história da Itália”.
Mas isso, evidentemente, no campo da esquerda e do marxismo. Porque, do lado liberal-conservador, resistia-se a reconhecer a originalidade e a inovação trazidas pela reflexão gramsciana.
Nas Interpretazioni del Risorgimento, o grande livro (em tamanho e qualidade), de 1962, do historiador crociano Walter Maturi, não só os escritos de Gramsci não recebiam nenhum destaque ou tratamento especial, mas também se criticavam as implicações de sua interpretação do Risorgimento, bem como seu conceito de jacobinismo, e resumia-se a crítica que o então jovem historiador Rosario Romeo fizera, em 1956 e 1958 (reunidas em 1959 no livro Risorgimento e capitalismo), à historiografia marxista, em geral, e a Gramsci, em particular.
Romeo criticava a tese gramsciana sobre a mancata rivoluzione agraria nel Risorgimento (a “revolução agrária não realizada no Risorgimento”), sugerindo que, se esta tivesse ocorrido, a via italiana para o capitalismo teria sido ainda mais lenta e retardada, pois, sem a exploração dos camponeses, a acumulação capitalista ficaria bloqueada. Dir-se-ia que Romeo adaptava ao Risorgimento, isto é, à revolução burguesa italiana, invertendo-as, as interpretações, coincidentes, dos historiadores conservadores ingleses Trevor-Roper e Alfred Cobban (apresentadas entre 1951 e 1955), segundo as quais as revoluções inglesa de 1640 e francesa de 1789, em vez de terem tornado possível o desenvolvimento capitalista naqueles dois países, como sustentava desde sempre o marxismo, não fizeram mais do que retardá-lo, visto que o capitalismo já estava em curso desde antes.
Nascia, assim, o revisionismo que, duas décadas depois, iria dominar a historiografia tanto da revolução francesa quanto da francesa. Mas não a historiografia do Risorgimento, e isto, pode-se sustentar, tanto graças a Gramsci e ao nutrido grupo de historiadores que passou a se inspirar nos seus escritos e sugestões (já se observou que, se não se pode falar na existência de filósofos ou de críticos literários gramscianos, pode-se falar em historiadores gramscianos), quanto graças a historiadores como Franco Venturi (1904-1994, integrante do Partido d’Azione, durante a Resistência) e Gaetano Salvemini (1873-1957), um dos fundadores do movimento Giustizia e Libertà, em 1929.
Sobre Salvemini , um nome desconhecido no Brasil, bastante criticado por Gramsci nos escritos sobre o Risorgimento, é preciso que se saiba que seu lugar na cultura política e historiográfica italiana do século 20 só é inferior ao de Croce e de Gramsci. Embora ele próprio se visse como um intelectual e político franco-atirador, foi considerado como um intelectual orgânico (outro termo caro a Gramsci) da pequena burguesia, assim como os dois o foram da burguesia e do proletariado, respectivamente.
O que serve para demonstrar a riqueza e complexidade da vida política - e historiográfica - italiana no século 20, ou melhor, como bem lembrou Ruggiero Romano, no livro já citado, “a estreita relação entre política e história que caracteriza toda a historiografia italiana de todos os tempos” e, em especial, Salvemini e Gramsci. Indo um pouco mais longe, sugiro que a originalidade e a fecundidade do marxismo gramsciano radicam de alguma maneira nessa estreita relação entre política e história, mais precisamente na recusa por parte de Gramsci em destronar o político do centro da história, substituindo-o pelo social (e econômico), como fizeram tanto o positivismo quanto o materialismo histórico e, um século depois, a chamada Escola dos Annales.
Em outras palavras, em Gramsci (bem como em Salvemini e em Venturi) o centro sempre foi ocupado pelo político e não pelo social (e econômico), como, em geral, entre marxistas (não gramscianos) e annaliens. Daí porque não faz sentido falar, em termos de historiografia italiana, em reabilitação da história política, a partir da década de 1980, como no caso da historiografia francesa, depois de meio século de predomínio absoluto da história social.
O que não significa que Gramsci não perseguisse, como os fundadores e seguidores dos Annales, uma história total, como se pode ver na nota da p. 256 (desta irrepreensível e digna de todos os méritos edição brasileira): “Camponeses e vida do campo. Elementos orientadores para uma investigação: condições materiais de vida: habitação, alimentação, alcoolismo, práticas higiênicas, vestuário, movimento demográfico”. Segue-se um longo parêntese - discriminando taxas de natalidade e mortalidade, casamentos, migração, questões de propriedade e criminalidade, etc. - e a frase: “Orientação de psicologia popular nos problemas de religião e de política, freqüência escolar das crianças, analfabetismo dos recrutas e das mulheres”.
Há nessa passagem, bem como em outras desse livro (que reúne dois “cadernos especiais” e quatorze “cadernos miscelâneos”, escritos entre 1929 e 1935), mais do que um programa de história social e do cotidiano, e não só para as classes subalternas. Há uma interpretação genial do Risorgimento (eixo central de toda a produção de Gramsci no campo da história), uma mina preciosa para o historiador, em termos de insights, formulações, procedimentos teóricos e conceituais.
Eis uma pequena amostra da aguda visão histórica de Gramsci: “O Risorgimento é um desenvolvimento histórico complexo e contraditório, que se torna um todo a partir de todos os seus elementos antitéticos, de seus protagonistas e de seus antagonistas, de suas lutas, das modificações recíprocas que as próprias lutas determinam e até mesmo da função das forças passivas e latentes, como as grandes massas agrícolas, além, naturalmente, da função eminente das relações internacionais.” Ele “se realizou sem ‘Terror’, como ‘revolução sem revolução’, ou seja, como ‘revolução passiva’”, gerando um “Estado moderno [...] algo bastardo” e um “transformismo ‘molecular’”. E da sua visão política do ofício do historiador: “E, se escrever história significa fazer história do presente, é grande livro de história aquele que, no presente, ajuda as forças em desenvolvimento a se tornarem mais conscientes de si mesmas e, portanto, mais concretamente ativas e operosas.”

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Modesto Florenzano é professor de História da USP.
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