Livros e revoluções

Marisa Midore Deaecto
Especial para
*Gramsci e o Brasil*














Lincoln Secco. Gramsci e o Brasil. Recepção e difusão de suas idéias. São Paulo, Cortez, 2002. 119p.
Os livros fazem as revoluções?
Essa idéia habitou, por muito tempo, as mentes dos amantes dos livros e das revoluções. Para Alexis de Tocqueville, a especificidade da Revolução Francesa residia no fato de seu espírito ter sido animado pela mais alta leitura, dos clássicos aos modernos, de modo que as grandes idéias então propaladas nos escritos não demoraram a se traduzir em ação política. Mas, entre as idéias e os livros, diria o pesquisador mais desconfiado, há que se trilhar caminhos incontáveis. De tal forma, a questão "Os livros fazem as revoluções?" é freqüentemente reiterada não somente pelo seu valor retórico, mas sobretudo porque põe em cena, com toda a sua materialidade e toda a sua espiritualidade, o livro. E suas idéias, suas formas de circulação e de recepção.
O livro de Lincoln Secco, Gramsci e o Brasil. Recepção e difusão de suas idéias, não se situa exatamente nesse campo específico que se convencionou chamar de história do livro e da leitura, ou das práticas de leitura. Com preocupações nem tão recentes, mas que vêm dando um novo vigor a diferentes segmentos da pesquisa histórica - seja por meio da história editorial, do comércio de livros, da relação entre autores e editores, das práticas e formas de leituras disseminadas no país em diferentes momentos históricos -, uma plêiade de pesquisadores resgata, de forma positiva, as múltiplas faces do livro no Brasil. Mas ocorre aqui um fato curioso: a possibilidade de difusão de uma idéia passa a ser notada a partir do momento em que o historiador depara com os seus primeiros registros, ou seja, é a escritura, e não outra forma, que lhe permite rastrear os meios e as vozes que veicularam um nome, uma idéia e até mesmo uma imagem.
Assim, afirma o autor, "a recepção das idéias de Gramsci no Brasil foi uma possibilidade. Permitida pela emergência de centros políticos e intelectuais que divulgaram o seu pensamento" (p.11). As primeiras referências a Gramsci aparecem muito timidamente em alguns jornais de denúncia do fascismo, na São Paulo dos anos 20, reduto da colônia italiana. Os registros são tão escassos quanto os meios de afirmação de uma imprensa suficientemente autônoma para seguir as suas próprias diretivas. Nesse ambiente de rarefação cultural, se pensarmos nas dificuldades de ampla difusão da cultura de esquerda, as novidades chegavam, em grande parte, devido ao esforço individual de figuras de vanguarda, como Astrojildo Pereira e Mario Pedrosa, entre outros. Desse modo, Gramsci passa a ser conhecido por intermédio do PCB, via correspondência com os órgãos editoriais da Internacional Comunista. Fase que corresponde a uma "pré-história" da difusão de suas idéias. Pois será apenas nos anos 1960 que surgem as primeiras edições brasileiras dos escritos desse fundador do Partido Comunista Italiano.
Nesse ponto, Lincoln Secco lança uma nova questão. Diferentes edições de um mesmo autor sugerem formas diferenciadas de recepção ou mesmo de incorporação de suas idéias? No caso de Antonio Gramsci, sim. A reunião dos escritos fragmentados em volumes temáticos, como o fizera Palmiro Togliati, definiu um caráter muito particular da "coleção gramsciana". Em contrapartida, a edição crítica dos mesmos escritos, agora respeitando sua formulação fragmentada, que se figura quase por aforismos, segundo a proposta da edição Garratana, permitiria, de fato, novas formas de apropriação do legado desse pensador italiano? A "ordem dos livros e do discurso", reiterando a terminologia empregada por Roger Chartier - e que o autor não ignora - importa tanto quanto os seus meios de difusão. Ao atentar para esse fato, o autor abre uma nova perspectiva para a leitura de Gramsci no Brasil. Ao mesmo tempo, justifica o amplo leque de leituras já existentes: na pedagogia, na crítica literária, na sociologia, nos estudos sobre comunicação, cultura, na religião... e na política.
Pois, embora as leituras de Gramsci aludam a diferentes faces de um só homem e de um só pensador, a investigação histórica de Lincoln Secco se mostra profundamente ligada ao "homem de partido". Desdobramento natural do mártir prefigurado nos escritos difundidos pelo PCB, que vem a se tornar, sobretudo a partir dos anos 1970, quando são elaboradas as primeiras análises conceituais do pensamento gramsciano, "o teórico do partido".
O autor passa, então, a testar a funcionalidade das idéias de Gramsci em uma nova realidade política nacional, ou seja, tendo em vista a emergência de novas possibilidades, que se definem, sobretudo, após o aparecimento do Partido dos Trabalhadores. Não se trata de dimensionar o quanto do arcabouço teórico gramsciano foi absorvido, tampouco as formas de seu aprimoramento para a realidade local. Estes são aspectos aparentes de uma leitura superficial das formas de recepção das idéias. Mas, sobretudo, de buscar, no fio do tempo, os mecanismos por meio dos quais um universo totalmente novo de palavras e de conceitos se transferem para um outro sistema cultural. E se tornam palavras, muito mais que conceitos. E, num processo final, viram senso comum.
Fato indiscutível é que Antonio Gramsci se tornou um clássico, "não só do marxismo, mas do pensamento político de esquerda" (p. 96). E, se não cabe ao historiador julgar as formas como as idéias são deslocadas para diferentes fins e diferentes meios, o livro de Lincoln Secco não se exime de uma atitude crítica frente ao problema da transposição de conceitos a priori estranhos no debate político empreendido pelas forças de vanguarda da esquerda nacional. E se os livros, por eles mesmos, não fazem as revoluções, é lícito pensar que, pelo menos, eles criam novas possibilidades.

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Marisa Midore Deaecto é doutoranda em História na Universidade de São Paulo.
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