Israelenses e palestinos: luz no fim do túnel?

Daniel Aarão Reis Filho
Especial para
*Gramsci e o Brasil*




Mísseis disparados de helicópteros contra edifícios e carros, destruição de moradias com agressões físicas aos habitantes, bombas humanas estilhaçando corpos, gritos de vingança em passeatas de luto e de dor, violação contínua dos direitos humanos, massacres e promessas de morte e de suicídio, das quais não escapam sequer as crianças.
As estatísticas das perdas do atual movimento insurrecional do povo palestino (segunda Intifada), iniciado em setembro de 2000, falam por si mesmas: 1.074 palestinos e 344 israelenses. Mas como contabilizar o incomensurável medo das crianças apavoradas sob os bombardeios? A angústia dos doentes à espera de remédios? A tristeza de mães e pais que não mais verão suas filhas e filhos? O trauma dos aleijados de corpo e de espírito? O luto dos que sobreviveram? O desespero dos sem-trabalho, dos sem-teto, dos sem-esperança?
Desde 1948, quando da fundação do Estado de Israel em terras palestinas, instaurou-se a discórdia. De um lado, os israelenses reivindicando um direito histórico a terras sagradas. E um refúgio contra perseguições que dizimavam periodicamente o povo judeu. De outro, os palestinos, privados de um Estado nacional, transformados em refugiados, num momento de aurora para os povos tradicionalmente dominados pelas metrópoles européias.
Uma primeira guerra, naquele mesmo ano de 1948, tentou resolver pela violência a questão. Três outras grandes guerras ainda seriam travadas, em 1956, 1967 e 1973. Como se deuses vorazes tivessem se instalado na região, cobrando periodicamente, ritualisticamente, sacrifícios e vidas, alimentando a incompreensão e impedindo o diálogo.
Mas não há como responsabilizar deuses por estes trágicos sucessos. Foram os seres humanos, em suas circunstâncias e histórias, que construíram estes horrores: uma demografia explosiva, em contraste com recursos escassos de água e terras; a hegemonia de versões extremistas de valores religiosos; a predominância de perspectivas nacionalistas estreitas e excludentes; os ressentimentos acumulados pelas perdas humanas e materiais, encorajando o poderoso e mesquinho desejo de vingança; o estímulo das duas superpotências de então (EUA e URSS), ávidas em monitorar e aproveitar conflitos particulares para afirmar sua supremacia, combinada com a intenção das lideranças e populações locais em se legitimar e se apoiar em correntes e forças de dimensão internacional para consolidar posições numa correlação de forças sempre instável.
Formou-se assim um quadro propício a propostas violentas para resolver as contradições entre palestinos e israelenses, levando de roldão as perspectivas de outros caminhos, baseados no diálogo e nas concessões mútuas.
Mas houve um momento, em 1993, com os Acordos de Oslo, em que se vislumbrou uma possibilidade de paz. Os palestinos fizeram então uma concessão histórica: não apenas reafirmaram reconhecer a existência do Estado de Israel e o seu direito de viver em paz e segurança, como se dispuseram, e isto foi o mais importante, a aceitar os limites da margem ocidental do rio Jordão (a Cisjordânia) e da faixa de Gaza, como território de um Estado nacional palestino, ou seja, apenas 28% do território da Palestina que existia antes da fundação do Estado de Israel, em 1948.
As lideranças palestinas demonstraram naquele momento uma compreensão adequada de seus interesses e de sua força. Encontraram eco na sociedade israelense, pressionada por um crescente movimento insurrecional palestino (a primeira Intifada) e, então, dirigida por lideranças empenhadas em encontrar soluções não exclusivamente baseadas no emprego da força. E encontraram também respaldo nas circunstâncias internacionais, embaladas pelo fim da guerra fria e pela derrota de Saddam Hussein na Guerra do Golfo.
Entretanto, a promessa de um Estado nacional palestino não vingou. O processo de implantação de colonos israelenses em territórios reconhecidamente palestinos não cessou, ao contrário, intensificou-se. Eram 42 mil colonos em 1985. Agora, em fevereiro de 2002, chegam a cerca de 400 mil. Na Cisjordânia, 206 mil colonos, numa população de mais de 2 milhões de palestinos, ocupam 59% da área. Na Faixa de Gaza, 7 mil colonos, numa população de mais de um milhão de palestinos, ocupam 20% do território. Sem contar mais de 170 mil israelenses implantados em Jerusalém leste, com estímulos oficiais e créditos preferenciais. Visivelmente, o governo israelense passou a apostar na fragilidade dos palestinos, deixando apodrecer os compromissos assumidos em Oslo.
É neste quadro que ressurge, a partir de setembro de 2000, uma nova Intifada. Fortalecem-se os movimentos guerrilheiros mais radicais. Simetricamente, ganham força na sociedade israelense as tendências mais extremistas. São elas que elegeram Ariel Sharon primeiro-ministro, numa atmosfera de olho por olho, dente por dente. Às ações guerrilheiras responde com força desproporcional o Estado de Israel, com invasão de cidades, confinamento (uma virtual prisão domiciliar) do líder palestino, Yasser Arafat, bombardeios de áreas residenciais, assassinatos seletivos, tortura de presos e demolição em grande escala de casas palestinas.
Haverá luz no fim deste túnel?
Na primeira quinzena do mês de março morreram 166 palestinos e 64 israelenses. Este novo patamar no paroxismo das matanças suscitou forças e interesses que pareciam em refluxo.
O governo norte-americano ensaia pressões sobre o governo israelense no sentido de uma paz negociada e da aceitação do mais recente plano de paz proposto pela Arábia Saudita. Na tradição republicana, Bush aproxima-se dos governos conservadores árabes e se distancia de Israel, inclusive porque isto é necessário para a conformação de uma aliança ampla contra Sadam Hussein, considerado o representante mais extremado do “eixo do Mal”, segundo denominação do presidente dos EUA.
No Conselho de Segurança da ONU, resolução unânime, com apenas uma abstenção, aprova o conceito de um Estado palestino soberano.
Na sociedade israelense, retomam vigor movimentos por uma solução negociada, pacífica, baseada em concessões mútuas. Lugar de destaque merece o movimento de militares que se recusam a combater na Palestina, alegando que a ocupação israelense “violenta valores, corrompe a sociedade e está destinada a proteger os colonos e a dominar, expulsar, humilhar e esfaimar o povo palestino”. Outras organizações não-governamentais (o Gush Shalom, o Comitê Israelense contra a Demolição de Moradias, o Movimento das Quatro Mães, etc.) também pressionam no mesmo sentido.
Finalmente, entre os palestinos, diversas associações e organizações (o Centro para a Resolução de Conflitos e pela Reconciliação, o Centro Palestino para a Reaproximação entre os Povos, etc.) já não parecem clamar no deserto.
Todos estes atores e forças políticas podem reativar na região movimentos de opinião favoráveis à negociação. Entretanto, é pouco provável que uma solução duradoura possa ser construída fora dos marcos de um Estado laico, integrando israelenses e palestinos. Esta é a proposta do intelectual palestino Edward Said, radicado nos Estados Unidos e do deputado palestino de Israel Azmi Bishara, atualmente destituído de sua imunidade parlamentar e ameaçado por processos judiciais. Por mais improvável que possa parecer, como toda e qualquer idéia que fuja aos padrões dos políticos realistas, é a que promete os alicerces mais sólidos para a liberdade, a democracia e a prosperidade de israelenses e palestinos.

(Março 2002)

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Daniel Aarão Reis Filho é professor de História Contemporânea/UFF.
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