O lugar de Gramsci

Alberto Aggio
Especial para *Gramsci e o Brasil*














Ao procurarmos compreender mais profundamente o pensamento de um autor, especialmente se a nossa relação com ele contiver um alto potencial de atração intelectual, talvez seja conveniente que procuremos adotar uma postura bastante cuidadosa, ao formularmos juízos definitivos e categóricos sobre suas idéias e sobre o lugar que este autor passou a ocupar na tradição cultural a que ele acabou se vinculando. Tanto mais se o seu pensamento chega até nós pelo filtro de inúmeros intérpretes e comentadores que, apesar dos benefícios que promovem para a difusão e propagação de idéias, podem gerar e consolidar concepções e formulações às vezes sem sentido ou mesmo equivocadas. Por essa razão, talvez seja importante estabelecer, para esse processo de investigação, alguns procedimentos e algumas condutas que busquem demarcar alguma distância das visões já cristalizadas a respeito do seu pensamento. Talvez seja conveniente também assumir uma postura crítica frente às inúmeras formulações normativas e dogmáticas que se extraíram de seu pensamento e que acabaram informando, da mesma maneira, um número não pouco reduzido de leituras a respeito da sua trajetória intelectual e política.
O procedimento que gostaria de sugerir aqui parte de uma indicação bastante ilustrativa de Ítalo Calvino que, uma vez assumida, tem, ao meu ver, a faculdade de nos auxiliar na relação que devemos ter com o “nosso autor”. Diz o escritor italiano: “O seu autor clássico é aquele em relação ao qual você não consegue ser indiferente, que o ajuda a se autodefinir em relação a ele, ainda que em disputa com ele” (Calvino, 1986). Uma das conseqüências imediatas que podemos extrair dessa sugestão está no fato de que, certamente, a adoção de uma postura dessacralizada em relação ao nosso “autor clássico” - e que vise à superação de visões cristalizadas a respeito de seu pensamento - pode, assim, nos ajudar a fazer com que se revitalizem tradições culturais que hoje padecem de uma certa letargia, induzindo, quase que de forma inconsciente, mais a comportamentos repetitivos do que a atitudes criativas e inovadoras.
Comecemos, então, com uma pergunta que tem como objetivo nos auxiliar na localização qualificada do “nosso autor”: de que maneira se poderia dizer que Gramsci representa, em definitivo, uma poderosa novidade no interior da tradição ou do pensamento marxista? Devemos, em primeiro lugar, reconhecer que essa é uma pergunta que não é nova nem é desprovida de uma quantidade imensa de respostas. A literatura a respeito é enorme e não temos aqui a intenção de abarcá-la sequer minimamente. O que faremos, neste pequeno artigo, é apenas uma seleção ilustrativa de alguns textos de referência sobre Gramsci que possam nos auxiliar nessa reflexão. Nossa pretensão não é maior do que a de nos esforçarmos na elaboração de um pequeno e breve inventário para o tratamento da questão acima formulada.
Onde repousa a novidade de Gramsci? E, se ele representa, de fato, uma novidade, o poder de propulsão dessa novidade já teria se esgotado ou ainda poderia fermentar a nossa reflexão sobre o mundo contemporâneo? Afinal, por que ele é hoje, no campo do marxismo, o autor mais requisitado como referencial para legitimar a capacidade de reflexão e intervenção na realidade contemporânea, especialmente no campo da política? Se, para todas essas perguntas, a resposta vier a ser positiva, o que isso poderia significar?
Ao nosso ver, muitas coisas. A começar pela necessária revisão de muito daquilo que já se escreveu sobre Gramsci ou influenciado por ele, na Itália, no Brasil ou fora dele. E certamente os desdobramentos dessa revisão não estariam desprovidos de conseqüências para uma política de esquerda neste início de século XXI. Em termos bastante gerais, se poderia dizer que haveria que se superar definitivamente todos os esquemas estratégicos que o marxismo ou os marxistas assumiram durante todo o século XX. A grande importância de Gramsci, e que poderíamos adiantar aqui, estaria no fato de que ele foi capaz de perceber e delinear como fundamento da ação política no seu tempo o que, de fato, havia de transição ou de passagem de uma época a outra no mundo contemporâneo. E isso implicaria uma mudança de estratégia essencial no interior do marxismo, deslocando a temática da “ditadura do proletariado” para o que ele viria a formular por meio do desenvolvimento dos conceitos de “hegemonia” e “consenso”.
Como é sabido, ainda bastante jovem e depois de beber nas várias fontes do liberalismo político e filosófico e de assimilar inúmeros de seus aspectos de maneira tanto positiva quanto criativa - ainda que isso não tenha significado que ele tenha se tornado um adepto do liberalismo -, Gramsci trilhou uma trajetória pessoal e política no interior do movimento socialista, passando depois, a partir da década de 1920, para o campo comunista, no qual iria se notabilizar como um grande dirigente político e um expressivo intelectual [1].
Mas Gramsci não foi efetivamente um político vitorioso. Sua trajetória como dirigente e militante de esquerda está marcada pela derrota diante de um inimigo que se tornou poderoso em sua época: o fascismo. Gramsci foi preso pelo fascismo de Mussolini e passou mais de uma década detido em diversas prisões. Foi nesse ambiente carcerário que ele produziu sua obra madura, batizada posteriormente como Cadernos do Cárcere [2]. Pela natureza da escritura do texto gramsciano elaborado no cárcere e pelas profundas inovações que ele introduz no pensamento marxista, Gramsci que chega até nós, de acordo com Guido Liguori (1999), como “um pensador ‘aberto’, problemático, incompleto e (só na aparência) fragmentário”.
Por essa razão, estabelecer os parâmetros de sua linhagem e de sua elaboração conceitual no interior do marxismo não é uma tarefa nem simples nem óbvia. Da mesma maneira, a sua classificação ou o seu enquadramento em alguma linhagem específica do marxismo (marxismo bolchevique, marxismo ocidental, etc.) não é também um procedimento desprovido de problemas em função de inúmeras dificuldades, entre as quais a de delimitar tanto as influências que o próprio Gramsci assimila, assume, polemiza e desenvolve no contato com pensadores de outras correntes e tradições, como Benedetto Croce, por exemplo, quanto das extraordinárias e instigantes inovações que os Cadernos do Cárcere guardam a respeito dos referenciais mais essenciais formulados pelos “pais fundadores” do marxismo.
Talvez o primeiro passo deveria ser a construção de uma imagem de Gramsci a partir da sua trajetória de vida e que pudesse extrair os elementos mais essenciais dessa trajetória. Recorrendo a Umberto Cerroni (1976), poderíamos estabelecer uma primeira visão a respeito de Gramsci - que, em si mesma, representa uma diferenciação no interior do movimento socialista e do comunista -, construída a partir de alguns reconhecimentos básicos, fundados em sua biografia intelectual e política. De acordo com Cerroni, Gramsci figura como uma inovação no interior do marxismo, uma vez que consegue operar uma fusão singular entre rigor intelectual, compromisso moral e coerência política, atributos tão exclusivos que lhe possibilitaram estruturar uma síntese também original entre a temática do movimento operário - economicista, setorial, sectária - e a problematização de uma nuova civiltà [3]. A superação das contradições do mundo social por meio da síntese histórica proposta por Gramsci não estaria reduzida, assim, ao estabelecimento de um novo poder político de classe que se congelasse em si mesmo, expressando a “revolução proletária”, mas deveria ser, ao contrário, a construção de uma nova sociedade, concebida como um fato cultural que expressasse um projeto de emancipação coletiva produzido a partir de uma concepção filosófica que se concretizasse enquanto uma política in atto.
Poderíamos dizer, portanto, que a localização de Gramsci no interior do marxismo - enfim, a novidade que ele veio a representar - não pode ser pensada como uma questão determinada por sua fidelidade aos pressupostos que fundamentavam a luta operária, ou mesmo pela assimilação integral da idéia de revolução concebida no processo de generalização do marxismo na passagem do século XIX para o século XX, e nem mesmo em função de sua adesão ao movimento comunista inspirado no êxito da revolução bolchevique. A particularidade expressa na idéia de que Gramsci representou uma “fusão singular” na história do marxismo do século XX joga uma luz importante e significativa neste pequeno inventário que fazemos aqui.
Por essa razão, talvez tenha razão a arguta observação feita pelo saudoso ensaísta argentino José Aricó, pouco antes de sua morte em 1991, ao enfatizar que o pensamento de Gramsci se afirma, no interior do marxismo, por meio de um traço de autonomia fortemente significativo e que, depois da queda de “todos os muros”, nós não seríamos “nem justos nem sábios” se desprezássemos sua “atualidade”. Aricó reconhecia em Gramsci “um pensador profundamente original”, que conseguira dar uma “forma classicamente representativa” ao marxismo, e, neste sentido e por esta precisa razão, caracterizava-o como um de seus “clássicos”(Aricó, 1996).
O pensamento de Gramsci estaria localizado, por assim dizer, na encruzilhada de uma “mudança epocal”, e era desse contexto histórico e cultural, profundamente complexo e movediço, que ele conseguiu obter, para suas reflexões, aquilo que seria seu maior nutriente [4]. Com um realismo extraordinário, Gramsci pôde perceber, muito antes de seus contemporâneos e mesmo dos militantes e dirigentes comunistas italianos, a profundidade dos descaminhos que desviavam o sentido e a expansividade da revolução bolchevique e que levariam ao seu prematuro fracasso. Lamentavelmente, para Gramsci, a revolução bolchevique cada vez mais se esgotava como fator impulsionador de um verdadeiro processo de mundialização da história ou, em outros termos, de “unificação do gênero humano”, para usarmos aqui uma expressão que lhe era muito cara. Da mesma maneira, Gramsci conseguiu desvendar também, como parte dessa conjuntura, os traços mais expressivamente novos que se afirmavam como fortes tendências da história mundial, captando precocemente o “americanismo” como “a tentativa mais avançada de passagem do velho individualismo a uma economia programática” - numa formulação gramsciana que se tornou clássica.
A partir desses dois elementos de análise, o ensaísta argentino lançou como sugestão a possibilidade de considerar Gramsci como pertencente apenas em parte à tradição comunista. Para Aricó (1996), Gramsci “teve muito pouco a ver com a vulgata determinista e reducionista que caracterizou o marxismo da Segunda e da Terceira Internacional”. Além disso, segundo o mesmo autor, a despeito do isolamento e da solidão política, a obra de Gramsci acabou resultando numa autonomia teórica de expressão, na qual ele conseguira produzir “um conjunto de categorias de análise histórico-políticas estritamente alheias ao marxismo da Terceira Internacional e ao próprio Lenin”. Sob todos os aspectos, portanto, a desvinculação entre Gramsci e o que vai ser considerado mais tarde como marxismo-leninismo é não apenas notável como também cristalina.
No entanto, a forma pela qual Gramsci foi compreendido como um “clássico do marxismo” não é um tema pacífico entre seus analistas e intérpretes. Em primeiro lugar, se o texto de Gramsci oferece, reconhecidamente, algumas dificuldades pelo seu caráter fragmentário (ainda que isso possa ser apenas “aparente”, como afirma Liguori), ele também pode ser muito facilmente lido de maneira que se extraia dele, de forma límpida e explícita, definições, conceitos e categorias em chave axiomática.
Não são poucos os autores que realizam esse procedimento. O que se procura fazer, neste caso, é construir um sistema explicativo, privilegiando a obtenção ou sistematização de categorias e conceitos, da mesma maneira que se fez com os chamados “pais fundadores” do marxismo, agregando-se posteriormente a figura de Lenin. O resultado desse procedimento analítico pode-se sintetizar da seguinte maneira: se, depois da Revolução Russa de 1917, o marxismo teria em Lenin o exitoso teórico da revolução explosiva em sociedades “orientais”, Gramsci deveria ser tratado, analogicamente, como o pensador do marxismo que enfrentou o desafio de propor uma nova teoria para a revolução nas sociedades “ocidentais”. E mais: a partir da construção de um sistema explicativo, bem como de sua finalidade instrumental, prévia e explicitamente atribuída ao nosso pensador, do seu pensamento derivava, então, uma concepção de totalidade, típica dos “clássicos” do século XIX. O Gramsci vivo é, assim, profundamente distinto de sua representação. O seu lugar já estaria, portanto, predeterminado, antes do profundo e doloroso mergulho que ele promoveu em sua própria condição de dirigente e, especialmente, nas difíceis contradições do seu tempo.
Podemos observar aqui que mesmo um pensador como Cerroni abraçou e celebrou esse tipo de procedimento e de conclusão [5]. No fundamental, poderíamos dizer, estamos condenados aqui a tratarmos do complexo tema das leituras e interpretações do marxismo de Gramsci. Nesta leitura que apresentamos acima, Gramsci, legitimamente, acompanharia as pegadas de Marx, Engels e Lenin. Gramsci preencheria, assim, a lacuna que existia no interior do marxismo contemporâneo, politicamente inclinado a enfrentar, até então, o tema da revolução de uma maneira mais “oriental” do que “ocidental”. Gramsci seria, assim, o pensador que havia elaborado os conceitos e categorias fundamentais para que a esquerda pudesse não apenas explicar o desenvolvimento histórico, mas definir o percurso e a modalidade da revolução socialista em países avançados. Seria a possibilidade de enfrentar o Ocidente nos seus próprios termos e não insistir no erro de vê-lo e semantizá-lo como Oriente.
Pois bem, a partir do momento em que Gramsci passou a ser pensado ou interpretado como um continuador no interior do marxismo, como o seu “clássico” mais contemporâneo, isto é, aquele que realiza “superações dialéticas” no interior de uma tradição, incorreu-se no equívoco de ver e ler Gramsci fora do clima intelectual de sua época, isto é, tornou-se impossível vê-lo fundamentalmente como um crítico de seu tempo e, até mesmo, da própria tradição a que ele se vinculava. Os eventuais distanciamentos em relação aos “pais fundadores” do marxismo e, em especial, em relação a Lenin passaram a ser compreendidos, de certa forma, mais como discrepâncias de caráter secundário, muitas vezes entendidas como desprovidas de conseqüências políticas maiores, sem nenhum efeito criador ou proposição inovadora.
Não foram poucos os analistas brasileiros do pensamento de Gramsci que demandaram dele uma postura condizente com o papel central que supostamente ele viria a ocupar no interior do marxismo, em especial como seu continuador mais contemporâneo. A despeito da extraordinária valorização de seu pensamento, as críticas à elaboração gramsciana apresentaram-se, neste caso, como setoriais, mas nem por isso deixavam de ser essenciais. Apenas a título de exemplo, deve-se anotar aqui, em especial, as observações de Carlos Nelson Coutinho (1989) em relação àquilo que ele chama de “erro fecundo” de Gramsci, ao haver este deslocado a economia do núcleo central de suas reflexões, enfeixando-a completamente na política, o que, por sua vez, esse mesmo comentador irá caracterizar como marca de “idealismo” presente em alguns pontos da reflexão gramsciana. Por outro lado, num plano mais teórico, este Gramsci, pouco totalizante e em certo sentido idealista, teve que fazer um esforço sobre-humano para manter-se no interior da “autêntica ontologia materialista do ser social”, driblando assim seus “desvios”. Seria importante, neste caso, perguntarmos: Gramsci poderia ser pensado ou compreendido como um lukacsiano que assumia o marxismo essencialmente como método? A própria metáfora (forçada ou não, em função das condições carcerárias) da “filosofia da práxis” não indicaria em sentido distinto? E, nesta mesma direção, não se poderia dizer então que, ao contrário, ele se distanciava do grande teórico húngaro, propondo e realizando um novo tipo de atualização do pensamento marxista, que, de toda forma, ia além da compreensão da “filosofia da práxis” enquanto método?
Seria necessário chamar a atenção para o fato de que essa leitura pode limitar muitíssimo a oportunidade de pensar Gramsci a partir das suas próprias circunstâncias políticas e culturais, dialogando criativa e criticamente com diversas correntes de pensamento e, sobretudo, polemizando ardentemente com as limitações que, segundo ele, anunciavam-se como fatais para o marxismo e para o movimento comunista do qual ele fazia parte. Essa leitura condicionada de Gramsci anularia, por exemplo, a possibilidade de pensar que as reflexões que ele anotou insistentemente nos seus Quaderni del Carcere continuavam a expressar as extraordinárias qualidades de dirigente político que ele continuou a ser na prisão, conforme afirma G. Vacca (1991).
Essa leitura passou a ser bastante questionada especialmente a partir da década de 1990, e a crítica mais forte que se fez a essa vinculação férrea de Gramsci com Lenin anota que, a partir desse raciocínio, instaura-se também a impossibilidade de concebê-lo no interior do marxismo como uma afirmação extraordinariamente criativa de um “revisionismo autônomo”. O conservadorismo teórico ou o medo da renovação impediu, por muito tempo, de pensar Gramsci como um “grande eclético”, um “assimilador onívoro” que, através da hipótese teórico-política da hegemonia, procurou construir uma proposta de “reunificação de um mundo objetivo [...] extremamente múltiplo, diferenciado, estratificado” (Mancina, 1992). Esta novidade contida no pensamento de Gramsci sugere uma abordagem do seu marxismo assentada, por um lado, na idéia de que o seu diálogo com os “pais fundadores” do marxismo está marcado por “descontinuidades criativas”, e, por outro, de que seu pensamento somente pode ser apreendido em toda a sua profundidade a partir de uma leitura que busque compreendê-lo, política e intelectualmente, como um dirigente político e um intelectual imerso nas questões do seu tempo. Em nosso entendimento, a questão poderia ser posta nos seguintes termos: embora Gramsci visse o mundo a partir da sua unicidade orgânica (classes e luta de classes), sua proposta de “leitura” desse mundo não era ontológica e sim morfológica (Mancina, 1992).
Para além desse quadro investigativo, valeria a pena reafirmar o fato de que Gramsci promoveu toda essa clivagem no pensamento revolucionário do marxismo, realizando um esforço extraordinário para compreender a grande conjuntura que conformava o mundo no início do século XX. Para ele, depois da Revolução Russa de 1917, a revolta operária não seria mais do que uma manifestação passiva de classe; esse tipo de luta a levaria, em qualquer caso, a um beco sem saída e à derrota. Muito ao contrário, a classe operária deveria se pensar como uma classe capaz de dirigir politicamente a mudança do mundo. Aquela conjuntura de mudança “epocal” deveria contar com a direção de uma classe com capacidade de unificação do gênero humano por meio do controle e renovação das forças produtivas. O meio para isso era a ação política concebida permanentemente como um fato cultural. É por essa razão que ele pensa, como afirma Remo Bodei, nos termos de uma elevação das “grandes massas ao patamar da ciência e das formas de vida modernas” (Bodei, 2000). Ainda de acordo com Bodei, essa proposição gramsciana está longe do idealismo ou de uma postura culturalista e responde à seguinte preocupação:
[...] no Ocidente, onde a ‘sociedade civil’ é extremamente articulada com a proteção do ‘Estado político’, a luta será longa, será uma enervante ‘guerra de posição’ [...]. É preciso aprender todos os métodos mais elaborados dos adversários, não deixar-se surpreender despreparados ou atrasados nessa revolução que arde em ‘fogo lento’, abandonar o primitivismo econômico e mecanicista precedente e desenvolver a capacidade de previsão e de guia dos acontecimentos, chamando os intelectuais para colaborar com tal empreendimento histórico e colmatando continuamente as distâncias que se formam entre as linhas estratégicas dos vértices e a capacidade de compreensão e de recepção da base (Bodei, 2000: 81).
A percepção de que a reflexão gramsciana assumia a perspectiva acima apontada passou a se afirmar cada vez mais na literatura que discute o texto de Gramsci, a partir do referencial que estamos aqui enfatizando, com resultados extremamente inovadores. A partir dela, atesta-se rigorosamente que a temática central dos Cadernos reside precisamente na apreensão das “transformações morfológicas do político”, concepção novíssima vocacionada a capturar a essência de uma transformação “epocal”. Deriva daí a centralidade do conceito de “revolução passiva”, em par indissociável com sua “teoria da hegemonia”; daquele conceito se desdobrariam os conceitos de “guerra de movimento” e “guerra de posição”. As temáticas do “Estado ampliado” e de uma “teoria específica para a revolução socialista no Ocidente” estariam, assim, inteiramente subordinadas aos termos do argumento expresso acima, que fundamentaria uma nova maneira de ver o que Gramsci descrevia sinteticamente como a “estrutura do mundo” (Vacca, 1999).
É precisamente neste sentido que a centralidade da política ganha uma dimensão orgânica no pensamento gramsciano e, somente dessa maneira, se poderá entender também a afirmação que define, nesta nova época, os novos e ulteriores desenvolvimentos da “filosofia da práxis” como subordinados aos avanços conquistados no campo da “política-hegemonia” (Vacca, 1999). A frustração de Gramsci com o então recém-instalado regime soviético responde a um diagnóstico de ausência desta orientação, o que dava a ele a terrível certeza de que o cenário de derrota do socialismo enquanto movimento mundial seria muito difícil de reverter àquela altura.

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Alberto Aggio é professor livre-docente da Unesp/Franca-SP
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Notas

[1] Domenico Losurdo (1997) observa que a ruptura de Gramsci com o liberalismo não é desprovida de assimilações, entre elas, por exemplo, a valorização da emancipação individual e a crítica ao estatismo.

[2] O leitor brasileiro tem, a partir de 1999, a possibilidade de ter acesso aos Cadernos do Cárcere (Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira) numa primorosa edição organizada por Carlos Nelson Coutinho, tendo como co-editores Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. A edição brasileira dos Cadernos tem 6 volumes.

[3] Agradeço esta referência de U. Cerroni a Milton Lahuerta.

[4] A expressão “mudança epocal” aparece em Vacca (1996).

[5] Cf. Cerroni (1979). Apenas como um contraponto interessante, poderíamos anotar aqui a posição de Giacomo Marramao. Para este último, o texto de Gramsci apresenta todas as indicações de que dificilmente poderia ser equiparado a um “clássico” no sentido novecentista do termo, uma vez que a sua obra explicita, sobretudo, a “impossibilidade do sistema” (Marramao, 1988).

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