Rezk e a revolução do homem

Fábio Lucas
Especial para *Gramsci e o Brasil*














Antônio Rezk. A Revolução do Homem. Uma Introdução. São Paulo, Ed. Textonovo, 2002. 256p.
Temos, com A Revolução do Homem, de Antônio Rezk, a concretização de uma verdadeira Antropologia Política. Das mais originais e objetivas, fruto ao mesmo tempo da experiência e da reflexão. Assim, o trabalho apresenta o poder da abstração de um estudioso, associado ao pragmatismo político de um militante. Dirige-se a historiadores e políticos, jornalistas e escritores, curiosos e especialistas.
O leitor irá surpreender na obra a conjugação ótima entre a informação histórica e a investigação sociológica, ambas dinamizadas pela crítica social e pela proposta de novo modelo de organização da sociedade.
Já se disse que a Antropologia foi criada politicamente para a luta contra o racismo, o sexismo, o etnocentrismo e o colonialismo. Mas, com a prática, verificou-se que não passou basicamente de uma ciência racista, sexista, etnocentrista e colonialista.
Hoje, todavia, os estudos antropológicos alimentam parte considerável do saber sobre o homem, sua individualidade e sociabilidade. O que Antônio Rezk pretende, com A Revolução do Homem, é estudar a condição humana liberada dos preconceitos que, a seu respeito, foram-se acumulando ao longo dos tempos, com o objetivo de materializar e manter a dominação. Tudo porque, para a concretização disso, o homem teve de lançar mão do poder, apoiando-se em dois suportes: a força e a legitimidade.
Deste modo, Antônio Rezk reporta-se à fundação do Movimento Humanismo e Democracia (MHD), grupo de estudos que analisou a crise brasileira e as transformações tecnológicas, assim como o seu efeito sobre a sociedade, bem como os meios a serem adotados no sentido de humanizar o aparato técnico, eletrônico, cibernético, digital e robótico a serviço do processo produtivo. Ou seja, de forma a se constituir conquista da humanidade e a não reproduzir o modelo de concentração de poder, de exclusão e de discriminação inerente ao sistema capitalista. Daí Antônio Rezk juntar ao designativo MHD o vocábulo Ruptura: MHD-Ruptura.
No seu minucioso trabalho, Antônio Rezk parte do princípio de que a totalidade do organismo social se triparte nas dimensões do conhecimento, da economia e do poder. Mas assinala o mútuo entrelaçamento dos aspectos, sob o controle da violência e da ideologia. E preceitua que a ruptura do sistema de dominação, cristalizado em anos, até em milênios, de prática, pressupõe a mudança orgânica de um dos fatores de sua sustentação, quando esta perder a consistência histórica.
Numa síntese afortunada, o autor de A Revolução do Homem afirma:
[...] pode-se afirmar que a humanidade, após o aparecimento do homo sapiens sapiens, até o presente, apenas conheceu uma única revolução, por ela mesma realizada: aquela que transformou a sociabilidade das hordas e das tribos em sociedade política (a polis), transformando a societas em civitas, a que engendrou a civilização sustentada pela organização racional do trabalho e da guerra politicamente programada, fazendo surgir a história. Ou seja, a instituição do próprio Estado, incorporando na sua razão de ser os homens, como unidades vitais para a sua existência e para além de qualquer razão antropológica que pudesse antepor-se ou sobrepor-se a ele (cf. “Uma Introdução ao tema”)
Antônio Rezk, ao perquirir a natureza do poder, a função do Estado e a imposição da ordem social, o faz mediante notável consciência crítica e aparelhado com argumentos teóricos que o conduzem a elevado patamar de sabedoria da Ciência da Política. Dado o seu espírito investigativo, permite-se a boa lição da Maiêutica, isto é, do exercício da indagação na busca da verdade. Com efeito, a dúvida por vezes assalta o analista, por mais profunda que seja a sua especulação filosófica. São premissas que se alinham para que se logre a conclusão mais lúcida. Veja-se o teor dos problemas postos à consideração do leitor, no partejar da razão política:
Mas, se o materialismo histórico não pode ser cientificamente configurado, significará isto que a história é apenas uma configuração idealista? Uma singularidade caótica? Neste caso, como pode ser interpretada a materialidade do poder e da economia? Que peso podem ter indagações filosóficas, residuais da ignorância humana, quando não podem ser referendadas pelo saber científico, tornado “materialmente” concreto na investigação do Universo, no pragmatismo tecnológico, na valorização econômica, na objetividade do poder e na consciência massificada dos homens? Que significado pode ter uma nova “visão do mundo” para além da simples idealização da vida?
O autor, na crítica da ordem social vigente, por vezes incorpora o repertório da visão marxista. Mas, projetada esta no contexto contemporâneo, recebe igualmente certa contestação, mormente quanto ao alcance dos fundamentos apoiados na luta de classes. A seu ver, o princípio desta é limitado, não atinge a totalidade:
A história não é produto exclusivo da luta de classes, concebida a partir de uma visão transcendental do proletariado, cuja natureza e papel histórico foram ideologizados” (cf. “Uma Introdução ao tema”).
Mais adiante, na densa argumentação desenvolvida no curso da obra, o autor aponta, no capítulo “A Civilização e a Ideologia”, os impasses dos modelos soviético e chinês:
Tanto a revolução bolchevista quanto a maoísta não aboliram a dominação como essência da civilização do trabalho. O Estado manteve a sua característica de poder absoluto. A burocracia partidária passou a encarnar “uma nova classe” no controle de aparelho estatal e na organização da economia - o que explica a nova burguesia dominante na Rússia pós-soviética e o mandarinato do socialismo chinês.
Ainda: mesmo o Socialismo se torna insuficiente para o conceito de totalidade, conforme se vê no capítulo dedicado às “Premissas”:
Sob a égide da exploração do trabalho humano, enquanto este for fundamental para a manutenção da civilização, todo socialismo não passará de uma ideologia de alcance social limitado, não podendo transpor espaços circunscritos da geografia humana.
A partir daí, a conclusão lógica se segue:
Pois, para tornar eficiente a civilização, dando-lhe seqüência crescente, alguém terá que ‘mandar’, usufruindo do mando, e alguém terá que ‘trabalhar’, sofrendo o jugo do próprio trabalho.
Nesse campo, Antônio Rezk não deixa de fora as motivações de cunho existencial, psicológico e simbólico na determinação do poder no âmbito da organização da sociedade sob o império da elite dominante.
Tudo isso porque, anteriormente, na “Introdução” da obra, fica bem claro que A Revolução do Homem postula ir além da doutrina humanística do marxismo:
Eis por que uma dialética humanista, que Marx e Engels conceberam como projeto civilizatório, teve a sua premissa de realização sob um processo de força. A concepção da ditadura do proletariado tem por base o uso da violência em nome de uma civilização superior, já que, para construir esta, o proletariado teria que vencer a violência institucionalizada da ordem burguesa.
Antônio Rezk propõe, portanto, uma revolução. Qual será? O leitor rastreará, ao longo das páginas da obra, os diferentes momentos em que o conceito da nova revolução se desenha. Uma primeira aproximação pode ser alcançada neste trecho da “Introdução ao Tema”:
[...] a revolução não deve ser apenas ‘uma ruptura sistêmica’, mas uma ruptura histórica, que traga em si a superação e a destruição dos elementos genéticos do poder excludente, inserido na própria civilização.
Mais adiante, nas “Premissas” da obra, situaremos um dado mais explícito da revolução:
Sem dúvida, uma categoria central da nossa teorização é o conhecimento enquanto saber conspícuo, cuja conceituação, no entanto, não pode ser confundida com uma simples qualificação para o trabalho, numa vulgarização do termo, como tem sido exposto pelos luminares do sistema contemporâneo de dominação sociológica.
A disposição doutrinária de Antônio Rezk fica bem nítida no seguinte postulado das “Premissas”:
Será preciso construir uma totalidade gnosiológica revolucionariamente inovadora.
É preciso que se note que Antônio Rezk, na linha dos pensadores modernos, associa a análise da sociedade ao estudo da individualidade. Nenhum estudo antropológico, na verdade, pode prescindir da esfera existencial do ser humano, mesmo quando este se vê sobredeterminado massivamente pelos valores coletivos, ou pressionado coercitivamente, física ou mentalmente, a ajustar seu comportamento aos ditames do Estado ou do grupo que o domina.
Há mesmo, no domínio da Sociologia e da Antropologia, uma reação contra os estudos puramente estruturais, ou estrutural-funcionais, que ignoram a possibilidade de o indivíduo realizar decisões. Trata-se de reintroduzir o indivíduo na arena política. Com efeito, de uma obra acerca do Vale Swat do Afeganistão, por Frederick Barth, F. G. Bailey extraiu a “teoria do jogo político” (political game theory), em Stratagems and Spoils: A Social Anthropology of Politics. (New York: Schocken Books, 1969).
Além disso, antropólogos há que exploram, além das restrições legais ao indivíduo a fim de impor a coesão social, os valores simbólicos. Até determinadas tribalizações no interior das indústrias. Dados culturais como decoro, lealdade e valores sobrepostos à família reforçam a unidade grupal. Assim, as cerimônias e rituais (bailes, casamentos, funerais, ações de graças, procissões) cimentam as relações grupais. Segundo Ronald Cohen, a cada ponto, o símbolo representado une o imediato ao intemporal, o indivíduo ao coletivo, o paroquial à nação, o egoísmo à dádiva, o privado ao público. Aliás, Cohen, na teoria da ação, enfatizou, acima de tudo, o espaço do símbolo como provedor de matéria-prima e de coação para os que lutam pelo poder. E Ted C. Lewellen deixa bem evidente o peso da esfera simbólica no estabelecimento do “elitismo” na sociedade humana:
O Elitismo provém, não da prosperidade ou de funções sociais específicas, mas de um vasto e complexo corpo de símbolos, inclusive de condutas, estilos de vestimenta, sotaque, atividades recreativas, rituais, cerimônias e de um punhado de outras características. Habilidades e aptidões que podem ser ensinadas são conscientes, enquanto o grande vulto de símbolos que forma o verdadeiro elitismo é inconsciente. (Political Anthropology - An Introduction. Massachusetts: Bergin & Garvey Publishers, l983, p. 112).
A confluência da proposta de Antônio Rezk com outras enunciadas em obras importantes do pensamento político contemporâneo é impressionante. Tomemos, por exemplo, a obra de John Rawls, O Liberalismo Político (S.Paulo: Ática, 2000, trad. De Dinah de Abreu Azevedo). Que propõe o pensador? Em obra anterior, Uma Teoria da Justiça, sustenta que a justiça diria respeito ao conjunto da vida humana, e não apenas a um dos seus segmentos. Para se organizar a vida social, prescreve a justiça como a primeira virtude das instituições, “assim como a verdade o é de todos os sistemas filosóficos”. Para a sobrevivência das instituições democrático-representativas, John Rawls reclama em O Liberalismo Político um consenso: o “consenso sobreposto”, que se estabeleceria em torno destes requisitos: igualdade política, igualdade de oportunidades, respeito mútuo e garantia de reciprocidade econômica. No seu ideário, a justiça é indissociável da eqüidade e abrange todos os grupos atuantes da sociedade. Além das liberdades básicas, John Rawls recomenda acesso aos bens primários, aqueles que sustentam as bases sociais do auto-respeito. Daí postular os direitos humanos como redutores das tensões entre a Ética e a Política.
Depois de demonstrar como a Ciência tende a cair na órbita da Economia, ao se tornar instrumento do poder e mercadoria primordial do sistema econômico, Antônio Rezk, no capítulo “A Racionalidade da Ordem Social”, afirma incisivamente:
[...] a violência intelectual, que se exerce sobre a consciência dos homens, para contê-los nos limites de uma civilização pretensamente pactuada entre senhores e servos, é apenas o complemento natural da violência física.
Adiante, Antônio Rezk, investigando os fenômenos aleatórios que integram a ordem social (ou a desordem), baseado em Ilya Prigogine (Prêmio Nobel da Física, 1977) e Guitta Pessis-Pasternak, conclui:
Considerando o homem, na sua individualidade, como um ser em si, que introjeta uma universalidade singular, dentro da qual ele se realiza na sua identidade, esse homem singular será sempre um fator aleatório dentro do universo social.
Há, em A Revolução do Homem, inúmeros momentos em que se aponta para o fim da civilização do trabalho, pois, segundo o autor, o trabalho coagido é que “garantirá o desenvolvimento das cidades e o surgimento dos impérios”. Daí que a civilização se lhe apresenta como, “em essência, um sistema de dominação ligado a um sistema produtivo”. Chega a qualificá-la como “barbárie sublimada”.
Qual será a nova ordem revolucionária? Em primeira versão, Antônio Rezk a denomina “civilização do conhecimento”, nome provisório da utopia a ser buscada. Configura-se, finalmente, o futuro da nova utopia. Declinamos de reproduzi-la, pois está expressa no curso da obra, que busca igualmente conciliar as leis do Universo com as leis humanas.
Cremos ter dado pálida noção de A Revolução do Homem. Antônio Rezk nos oferece um estudo pioneiro de Antropologia Política, em que se critica a civilização do trabalho e se anuncia novo momento histórico: o despertar da civilização do conhecimento.