O testemunho do último secretário-geral

Raimundo Santos
Especial para *Gramsci e o Brasil*














O último secretário. A luta de Salomão Malina. Ed. Francisco Almeida. Edições Fundação Astrojildo Pereira, Brasília, 2002, 320p.
Como necessidade desta eleição de 2002, em que as principais candidaturas buscam alianças ao centro, a política de frente única centrada na democracia política e no reformismo pluriclassista está de volta, depois do seu enfraquecimento em 1989. Ela é convocada tanto para operar uma virada no próprio continuísmo, quanto para organizar uma nova presidência, com base, no segundo turno, numa concertação oposicionista, que, inclusive, deverá envolver o PMDB e o PSDB.
É da versão comunista dessa tradição que nos vem falar O último secretário, as memórias políticas do veterano Salomão Malina. O livro não promete só uma viagem ao passado. Com entrevistas e textos vários produzidos por Malina em épocas distintas, o volume se organiza como uma narrativa, cuja ordem o editor, Francisco Almeida, não poucas vezes quebra, para enfatizar temas caracterizadores da política pecebista.
Começa-se a leitura à espera do personagem, mas logo o próprio Malina adverte que sua história “é muito simples para que dê entrevistas autobiográficas”. As referências a suas origens - família judia, estudante do Colégio Pedro II e o combatente na FEB - ainda se fazem acompanhar pelas reminiscências da guerra na Itália. Mas é a figura do profissional comunista que avulta e se torna explícita a cada página lida: o primeiro ativismo no Rio de Janeiro e em São Paulo, os duros anos 50 e o tempo de Jango; no pós-64, Malina fala do "trabalho especial" e do Setor Militar do PCB, dos “cofres da vida clandestina” e dos impasses para manter a diretriz, pela qual tudo devia se subordinar à recuperação das liberdades democráticas. Depois, vêm a “saída à superfície”, a anistia e a época da legalidade do PCB, no transcurso da qual Malina se fará seu secretário-geral. À medida que avança o tempo, o narrador desaparece, apresentando a política de frente única como protagonista da própria fala.
O título do livro anuncia um tipo histórico saído de cena, agora trazendo o seu testemunho sobre uma política comunista influente. A biografia desse pecebismo de centro-esquerda não se faz acompanhar por um aggiornamento teórico, como no Partido Comunista Italiano (uma “usina teórica”, comenta Malina num dos textos). Ele diz que a elaboração pecebista não tem “grande nível”, repetindo que ela permanece “débil” como uma marca daquele marxismo político. Olhando para a saga do PCB, descrita em O último secretário, não há como não se ver largas experiências e mensagens de interpelação muito útil.
Como apresentação de uma herança, o livro tem, por assim dizer, duas grandes “modulações”. A primeira é aquela em que o memorialista está em seu elemento e narra a cultura pecebista como conversão da política de frente única em uma opção democrática, percorrida, a duras penas, desde a época em que se defendia a democracia como “tática instrumental” até a época do axioma da “democracia como caminho do socialismo e não como caminho para o socialismo”.
Narrador ex officio, Malina trabalha com a hipótese de um desenvolvimento que o leva a realçar as idéias dissidentes que ajudaram a substantivar o PCB (o militante Caio Prado Jr. antes e depois de 1945, com sua obra e a Revista Brasiliense; os renovadores de 1956-57; e os intelectuais “eurocomunistas” dos anos 80, para citar os menos anônimos).
A outra “modulação”, autocrítica, se acentua por ocasião do esgotamento do socialismo. Como ele diz, “homem de organização” e “homem da verdade”, após a débâcle da URSS, Malina se refere às dificuldades anteriores para aceitar a crise do comunismo e sair à procura de caminho. O reconhecimento do pecebismo de vozes plurais avulta quando o narrador radicaliza a antiga valorização da democracia política, realça a tese da revolução processual e, por fim, chega a pensar o socialismo no Brasil como solução para o descompasso entre a democratização social e a democratização política. O livro não alude a Caio Prado Jr., mas, em nome da tradição, o resgatou Roberto Freire no discurso pronunciado na sessão em que o Senado Federal prestou homenagem ao historiador, no ano passado, com a participação de Eduardo Suplicy, Marina da Silva, Bernardo Cabral e Geraldo Cândido (PT-RJ).

_______________

Raimundo Santos é professor do CPDA/UFRRJ.
_______________