Temas políticos e perspectivas eleitorais

Marco Aurélio Nogueira
Artigos originalmente publicados no
Jornal da Tarde. São Paulo,
maio/ago. 2002




A subida de Ciro
(3 ago. 2002)

A forte, clara e firme ascensão de Ciro Gomes nas pesquisas introduziu alguma dose de “emoção” e incerteza numa eleição que parecia fadada a se encaminhar, placidamente, para mais um confronto entre o PT e o PSDB. Em pouco mais de um mês, o candidato do PPS desmentiu seja os que davam como certa a vitória de Lula (ou sua confortável posição de candidato já garantido no segundo turno), seja os que confiavam cegamente na força eleitoral do governo.
Claro que se pode ponderar que os índices exibidos por Lula estavam inchados e não refletiam as preferências realmente existentes. Também é razoável que se admita que Serra empacou porque seus problemas e dificuldades - dentre os quais o principal tem sido a opção por não se definir claramente em relação à continuidade governamental - são bem maiores que suas virtudes. Mas é evidente que a subida de Ciro reflete méritos e circunstâncias que precisam ser reconhecidos. Não se trata de uma “bolha”, nem de um “fenômeno de momento”.
Antes de tudo, Ciro é agressivo, ainda que não seja um radical. Não se sabe se terá disposição para “ir às raízes”, mas sua proposta e seu estilo refletem muito mais a mudança com “responsabilidade”, a inovação sem exageros, a “ruptura” negociada. Seu discurso, mesmo quando incendiário e destemperado, é marcado pela vontade de compor, inclusive com setores governistas, que ele tanto combate. O assédio do PFL, os apoios que recebe de tantos segmentos oficiais e a inabalável ligação que mantém com Tasso Jereissati, transferem-lhe um elemento a mais de “continuísmo”.
Ciro está crescendo a partir da crise de Serra e da rejeição à candidatura de Lula. O cenário lhe é favorável, na medida em que tende a “desorganizar” as campanhas adversárias e a impulsioná-lo como candidato que é contrário ao governo mas está livre dos “inconvenientes” de Lula. Concretamente, Ciro está oferecendo uma alternativa para o eleitor descontente com o governo mas que ainda resiste ao PT ou a Lula. Transita com desenvoltura por diversos ambientes e parece estar ganhando o voto da classe média, decepcionada com o governo. Transmite uma sensação de segurança, preparo, experiência e determinação, que surte bastante efeito. É puro oxigênio para quem, há menos de dois meses, amargava um incômodo terceiro lugar.
Mas não há apenas flores e méritos pelo caminho. Quem, afinal, apóia Ciro? Quem lhe dá sustentação e identidade? É verdade que ele cresce na classe média, dialoga com setores do sindicalismo e não é rejeitado ostensivamente pelo empresariado, mas isto tudo isto configura, na melhor das hipóteses, uma base fluída e imprecisa. A ele falta o que sobra em Lula. Sua coligação é precária e pouco confiável. Está composta por partidos fracos, mal constituídos, pouco afinados substancialmente entre si. O PPS parece contar cada vez menos e o peso adquirido pelo PFL nas últimas semanas poderá representar uma hipoteca direitista difícil de ser resgatada. Se continuar bem nas pesquisas, tenderá a receber ainda mais adesões complicadas. Sua “organicidade”, que já é frágil, tenderá ou a se esfarelar por completo, ou a ser reforçada pela direita, o que condicionará um eventual governo sob sua liderança.
Ciro não é o “plano B” do governo. Seu reformismo não se afina com o de Serra, por exemplo. Estão separados por dois modos de conceber o combate aos problemas da população. Suas bases sociais são as mesmas, mas, ao passo que Serra pretende oferecer uma saída mais “à esquerda” (liberal, desenvolvimentista) para o sistema, Ciro deseja “peitar” o sistema mas está se deixando cercar por oligarcas regionais e direitistas que, órfãos de candidatos próprios, pretendem adotá-lo como alternativa para continuarem vivos. Seja como for, ninguém espera que Ciro - ou Serra - alterem substancialmente o sistema dominante, nem em termos sócio-econômicos, nem em termos políticos. Não é o que ocorre com Lula, ainda hoje visto como um “radical”, em que pese toda a transfiguração moderada empreendida pelo PT nos últimos anos.
Na reta final, deverão aumentar os jogos de cena e as retaliações entre os três candidatos. Todos têm o que dizer e estão desesperadamente à procura de um lugar ao sol, no qual possam demarcar com nitidez uma identidade. A única certeza, hoje, é que o quadro ainda não se cristalizou.

Choque de política
(6 jul. 2002)

Em que pese toda a expectativa que cerca as eleições, os acontecimentos e turbulências das últimas semanas deixaram claro que a política está na berlinda: vista com desconfiança e temor, como se trouxesse consigo mil e um fatores de instabilidade, irracionalismo e, claro, “risco”.
Há uma grande falta de confiança na política em si, mas a desconfiança é ainda maior nos políticos. A estes, indiscriminadamente, são dirigidas as críticas mais duras, as frustrações mais profundas, a indignação moral mais furibunda. Não haveria porque esperar muita coisa deles, agarrados que estão a seus interesses mesquinhos, típicos da “classe política”, tendentes, portanto, a se afastar das pessoas “comuns” ou a se aproximar delas apenas com a intenção de capturar votos.
O quadro não é mesmo nada animador. Fraudes, corrupção, denúncias em cascata, discursos pobres e repetitivos, escolhas discutíveis, marketing por todo lado. Há como que uma crise geral de legitimidade, um buraco separando o “social” do “político”.
O que é que se passa? O campo da política está hoje complicado por três blocos de problemas. Primeiro: com a globalização da comunicação, a velocidade, a quantidade e a variedade das informações, o surgimento de uma cultura mais individualista, voluntarista e niilista, a democracia representativa se desgastou e ficou mais tensa a relação das pessoas com a política. Segundo: as alterações estruturais na organização econômica e social, particularmente no que diz respeito à conformação dos grupos e classes sociais, esvaziaram a política de grandes sujeitos. Terceiro: o mercado e a economia transbordaram os limites do razoável, e colonizaram o todo. Junto com o extraordinário protagonismo da mídia, condicionaram a política, fazendo com que o “ver” ficasse mais importante que o “pensar” e padronizando o debate democrático. Diante desta política orientada por critérios de mercado, o cidadão se sente um estranho, um consumidor qualquer, ou mesmo um bobão, tratado como criança.
Para complicar ainda mais, há o Brasil. Nos últimos tempos, evoluímos sem muito esforço para valorizar a política e dignificar a atividade política. Junto com a afirmação de um padrão meio tecnocrático de governo, concentrado na estabilidade monetária, na redução do custo do Estado, no administrativo, foi-se difundindo a idéia de que a política “atrapalha”, que a oposição e a crítica são armas destrutivas, e assim por diante. Hoje, entre nós, há muita apatia e indiferença, misturada com uma frenética movimentação e muita crítica sem direção. O estado de espírito geral é moralista, defensivo. Há pouco debate político e excessiva discussão econômica.
Com isto, muitos políticos acabam por ser capturados pelo lado mais perverso da política, o da força, da fraude, da dissimulação. Não conseguem se atualizar nem se reformar como representantes. Perdem crédito junto à população e ficam sem incentivos para melhorar. É como um círculo vicioso: o desprezo pela política é uma reação contra a crise da política e um fator a mais de reprodução desta crise.
No fundo, os políticos precisam de um “choque” de política: precisam de mais política, não de menos. Eles e a política como um todo, aliás. Ganharemos muito se toda a sociedade - vale dizer, os cidadãos, os grupos, as classes sociais, as instituições - vier a ser dramatizada pela política. Pela grande política, entendamo-nos.
A grande política é uma aposta na vida coletiva, na instituição de um poder democrático que viabilize o melhor governo e distribua justiça. É “política com muita política”: política dos cidadãos. Por expressar uma construção delicada, a grande política está sempre desafiada, ou pela política que se volta para o poder, a autoridade, a coerção, ou pela política que usa e abusa da técnica, dos saberes especializados: a “política com pouca política” (a de tantos políticos profissionais) e a “política sem política” (a dos técnicos).
O ideal seria que estas três formas de política convergissem e se completassem reciprocamente, sob o comando da “política dos cidadãos”. Como isto não ocorre, a política dos políticos e também a dos técnicos ficam soltas e desconectadas do núcleo fundamental da vida coletiva, voltando-se contra os cidadãos. É o que acontece hoje.
O quadro, portanto, é de crise e desarranjo. Mas não de “fim” da política. Em meio à confusão social, ao enfraquecimento da política e do Estado, emergem formas novas de envolvimento com as questões públicas, de participação, de resistência. São formas novas de política, que podem ser fundamentais para a recuperação da idéia mesma de política e para o reencontro das tradições despedaçadas ou momentaneamente neutralizadas.

A tática do medo
(19 jun. 2002)

Dá até para aceitar que a política suporta o uso das mais abjetas armas na luta pela conquista do voto dos eleitores. Num regime democrático, porém, há - ou deveria haver - um limite, ético e político, a partir do qual se ingressa num terreno pantanoso, indigno e inaceitável. Se os contendores são democratas mesmo e têm tradições gloriosas a defender - como são, por exemplo, as da social-democracia -, qualquer quebra deste limite deveria ser motivo de vergonha e preocupação.
Quando a cúpula do PSDB encadeia discursos dedicados a proclamar que “há razão para se temer” uma eventual vitória de Lula nas próximas eleições, pois o candidato petista não teria “experiência administrativa” e poderia “levar o país a uma situação negativa”, está faltando com a verdade e ao mesmo tempo chantageando o eleitor.
Falta com a verdade porque a Presidência da República - ou qualquer cargo político executivo - é uma função que se exerce com inteligência, visão abrangente e sobretudo capacidade de agregar forças de sustentação, a começar daquelas que se enraízam na vida social. Experiência administrativa é bom, mas não decide nada. A falta eventual dela pode ser até mesmo compensada ou neutralizada: basta que se constitua um sólido e preparado corpo de assessores. O Chefe de Governo funciona como um animador, um catalisador, e é de se esperar que empreste seu carisma, seu charme, ou sua “experiência administrativa”, para ajudar a que seu governo consiga governar bem. Mas ele é um dentre várias pessoas, e seu êxito depende de uma complicada combinação de fatores e circunstâncias.
Olhando-se para trás com isenção e critério, a mesma acusação de “falta de experiência administrativa” poderia ter sido lançada contra Fernando Henrique. Que experiência havia tido ele antes de chegar à Presidência, em 1994? A de senador, a de Ministro da Fazenda? São coisas que contam, é evidente, mas não a ponto de tornar alguém “experiente”. Os alegados êxitos de seu governo se deveram a diversas circunstâncias favoráveis e ao concurso de muitas pessoas. Não teria havido estabilidade sem Pérsio Arida e outros economistas, por exemplo. O prestígio internacional obtido ao longo dos oito anos de governo tucano refletiu bem mais o prestígio intelectual de FHC do que uma consistente folha de serviços como estadista. O PFL e o PMDB deram decisivo suporte parlamentar às escolhas governamentais.
Além do mais, ninguém acumula experiência para chegar à Presidência da República, pois este é um cargo a que não se chega de modo muito programado: está patrocinado muito mais pela Fortuna que por algum engenhoso plano estratégico. A acusação, portanto, não faz muito sentido.
Ao insistirem nela, porém, os tucanos não apenas distorcem a verdade, mas selam um pacto com o diabo. Satanizam as eleições, como se quisessem dizer ao eleitor: é uma pena que tenhamos de ir às urnas este ano, agora que o país está estabilizado e pronto para decolar. A política atrapalha a racionalidade olímpica que julgam estar praticando nos últimos anos. Impõem ao eleitor um cenário de incerteza e angústia, convidando-o a decidir com base no medo - uma reação emotiva - e não na deliberação racional, a fugir do experimento democrático, que é a essência da dinâmica política, a optar pela continuidade contra a mudança. Podem enfileirar argumentos para adoçar a pílula - dizendo, por exemplo, que também querem a mudança, mas com responsabilidade e equilíbrio -, mas não conseguirão disfarçar sua rendição às posições do mundo financeiro, que trabalha com a incerteza, a insegurança, o temor. Reverberam, em linguagem política direta, a lengalenga quase histérica dos players do mercado, ou a advertência prudente e suspeita de um George Soros. Dão um péssimo exemplo ao país.
Sempre haverá quem diga que se trata, no fundo, somente de uma tática eleitoral, de um artifício para polarizar a disputa e acossar a candidatura de Lula: uma artimanha maliciosa num pega desprovido de maior grandeza. Não há porque ser moralista numa disputa política. Mas, numa democracia, as eleições são momentos especiais, carregados de efeitos cívicos, políticos, educativos. Elas ajudam a converter pessoas em cidadãos. E exigem, por isso mesmo, que os protagonistas principais - os candidatos, com seus partidos - atuem para qualificar o processo, não para rebaixá-lo.
Ao abordarem o eleitor com sua tática do medo, os tucanos deixam de contribuir para a democratização da sociedade. Desonram a social-democracia a que dizem pertencer e ajudam a dramatizar irracionalmente o processo eleitoral. Plantam uma semente que pode gerar frutos amargos. Para todos.

As pesquisas, o marketing e a política
(7 jun. 2002)

Como forma de olhar a política, as pesquisas eleitorais dizem muito, mas falam pouco.
Os números que mostram Lula estourando na dianteira, mais de 20 pontos à frente do segundo bloco, onde se embolam Serra, Ciro e Garotinho, deixam evidente que o candidato do PT está sabendo se valer de trunfos preciosos: sua longa exposição à mídia, seu amadurecimento político e sua capacidade de capturar o difuso espírito oposicionista que parece ter tomado conta da população, ao menos no momento. Como administrará este patrimônio daqui para frente?
Os números também sugerem que há muitas dificuldades atormentando a candidatura de Serra. Além de ser pouco “simpático”, de ter fama de gostar demais do poder e de não conseguir resolver se está ou não identificado com o governo, Serra não parece estar conseguindo contornar as resistências encarniçadas que se lhe antepõem os setores mais duros do PSDB, do PFL e do PMDB, ou seja, de sua própria base de sustentação. Quanto irá se beneficiar do charme e da forte presença de Rita Camata como vice?
Os números são tão eloqüentes que acabam por estimular diferentes fantasias e visões conspiratórias. Há bons analistas que neles se respaldam para prever a abertura, pelo sistema, de uma inescrupulosa caixa de maldades contra o candidato petista: quanto mais crescerem os números de Lula, dizem, mais se procurará conspirar contra ele. Outros analistas se apressam em recordar que, nas últimas três eleições presidenciais (1989, 1994 e 1998), as previsões das pesquisas se desfizeram por completo à medida que as urnas se aproximaram. Em função disto, dizem, não há porque se excitar antes da hora: em muitos aspectos, o quadro atual é bem parecido com os anteriores e haveria bons motivos para se esperar uma inversão de tendência nas próximas pesquisas, conforme as campanhas forem se afirmando.
A política é móvel e dinâmica, além de pouco previsível. Apesar de sabermos disto, vivemos enfeitiçados pelas ilusões das estatísticas e tendemos a confundi-las com nossos desejos e receios. Passamos a atribuir aos números o poder quase mágico de anunciar o futuro, e vamos permitindo que eles fiquem poderosos demais. Esquecemos que bastaria um fato forte para apagar as estrelas ou pôr no céu quem estava no inferno.
Pesquisas eleitorais são sempre bem-vindas. Elas nos fornecem um importante recurso de análise. Se algum problema existe, ele não vem das pesquisas, mas dos políticos e do sistema com que se disputam as eleições. Se os políticos recuam e entregam a direção do espetáculo aos especialistas em marketing, o que chegará aos eleitores? Produtos-padrão, vendidos como um outro qualquer. As estratégias se dedicam a burilar imagens, efeitos e “conceitos”, quem sabe embalagens. Os conteúdos importam menos. Os números integram-se a isto e passam a ser cortejados sofregamente.
Tudo fica assim condicionado. Uma falha de comunicação, uma frase boba, uma foto inoportuna, um escorregão inesperado, um inocente aperto de mão, um detalhe esquecido da biografia, qualquer bobagem pode jogar tudo ladeira abaixo. Em decorrência, todos tendem a não se afastar muito de um ponto “ótimo” de campanha, reforçando as estratégias mercadológicas, as frases estudadas, os sorrisos de rotina. Uma boa imagem torna-se fundamental. Um factóide bem plantado vale ouro. A escolha correta do “inimigo” passa a ser decisiva. Ao mesmo tempo, como os espaços de manobra ficam apertados, todos procuram incrementar seus dossiês, recheando-os com pesadas acusações aos adversários. É a anticampanha oprimindo a campanha, o ataque aos outros se combinando com o disfarce de si próprio, as escaramuças moralistas e “imagéticas” ganhando mais peso que o debate democrático.
O pior que poderia acontecer hoje seria este clima tomar conta do processo eleitoral. Perder-se-ia uma bela oportunidade de injetar qualidade à política nacional e de permitir a plena explicitação das posições dos candidatos. Hoje, eles têm o que dizer à sociedade. Podem protagonizar um grande debate político.
Se o marketing, o moralismo, as caixas de maldades, a imagem em si, se superpuserem à luta de opiniões e ao diálogo com a sociedade, será a vitória da forma sobre o conteúdo. Reafirmar-se-á um padrão de política, claro, mas não se construirá nenhuma ponte para projetar o país no futuro.

Pacto pelas reformas
(28 maio 2002)

O vasto e plural campo democrático brasileiro deveria homenagear o deputado Aluízio Mercadante (PT-SP) pela excepcional entrevista que concedeu a O Estado de S. Paulo no último dia 26 de maio.
O deputado disse o que muitos pensam e não têm como dizer: sem negociações permanentes, sem um incessante trabalho de persuasão, de busca de pontos de convergência e articulação, sem clareza de propósitos e disposição para atender ao interesse público, não há como colocar o país num patamar que o lance efetivamente no século XXI. Quer dizer, não se tem governabilidade nem para reformar, nem para simplesmente governar ou administrar. Talvez não se consiga sequer chegar ao poder em nome de um programa reformador.
A tarefa dos partidos que desejam contribuir para a construção de uma nova sociedade seria, portanto, a de definir o que deve e pode ser mudado - em que prazo, de que modo e com que velocidade -, mas também a de criar as condições para a mudança: fixar propostas nítidas, construir seus indispensáveis suportes sociais, definir aliados, fazer valer as instituições públicas e garantir as condições fundamentais para a estabilidade do país. Mercadante falou em responsabilidade pública: “precisamos tomar decisões e ter atitudes que reduzam nossa vulnerabilidade externa e nossa fragilidade fiscal. Não dá para fazer uma campanha para ver quem vai aumentar mais o salário mínimo”.
Para o deputado, o PT não pode ser acusado de praticar um discurso moderado só durante a campanha. O partido governa hoje 50 milhões de brasileiros, e muitos de seus governos não contam com maiorias no Legislativo. Já está preparado, portanto, para criar governabilidade, negociar, pactuar. Sua atitude no Congresso Nacional, nos últimos anos, sempre foi a de apoiar tudo o que o governo federal estabeleceu para defender o país e a população. Se hoje seu discurso é mais claramente flexível e responsável, é porque a situação mudou, e o partido se adaptou a isso: mudamos todos para melhor.
Mercadante acredita que já existe um consenso em torno da necessidade de corrigir o rumo do país. Mesmos os candidatos mais próximos ao atual governo, ou menos oposicionistas, estão falando em mudanças e revisões. Sendo assim, nada mais lógico do que ampliar conversações. “Não se pode ser oposição aos interesses públicos e nacionais. A política do quanto pior, melhor é um péssimo caminho para a oposição”. Em decorrência, todo apoio deveria ser dado ao delineamento de um projeto de consenso nacional, algo que fixe as “grandes metas para o país nos próximos 20 anos”.
Mercadante não aceita que tais opiniões sejam vistas como expressão de uma guinada governista de seu partido. Ele se opõe ao governo e deseja fundar um outro sistema de vida. Prega em favor de uma “ruptura”, ainda que não faça questão da palavra: é preciso mudar a qualidade mesma da política nacional, o modo de se governar e de se definir a agenda nacional. “O PT não vai se render à especulação. Nossa agenda não é a do mercado financeiro. Não vamos privatizar a agenda nacional”.
A entrevista do deputado será interpretada de diferentes maneiras. Muitos verão nela apenas puro pragmatismo de quem acredita estar a um passo de chegar ao governo. Os mais “radicais” dirão que Mercadante está apressando a conversão do PT num partido “igual a todos os outros”. Não faltará quem o critique por tentar passar à opinião pública uma visão flexível que não existiria no PT real, um mero esforço para neutralizar o alegado “efeito Lula”. Há na entrevista, de fato, um complicado equilíbrio entre identidade reformadora e responsabilidade governamental.
Só teremos motivos para comemorar se o debate crescer e se ampliar. Mas não há como ocultar que Aluízio Mercadante cavou mais uma sólida trincheira para os que querem a continuidade da democratização no Brasil. No momento atual, sua posição pode ser de grande importância para que avancemos rumo à conversão do nosso atual sistema em uma modalidade nova de democracia progressiva, capaz de se rever o tempo todo sem se desestabilizar, de encadear reformas que se aprofundam cada vez mais na medida em que conseguem valorizar o que já foi conquistado, fazendo com que os pequenos cálculos e interesses das forças políticas sejam assimilados pela reiteração categórica de uma grande política.

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Marco Aurélio Nogueira é um dos editores de *Gramsci e o Brasil* e professor da Unesp, de Araraquara.
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