O futuro e aqueles que o prevêem

Leandro Konder
Especial para
*Gramsci e o Brasil*




O Barão de Itararé dizia: “os velhos falam do que fizeram, as crianças falam do que estão fazendo, os tolos do que vão fazer”.
Provavelmente, somos todos um pouco tolos, porque, embora reconheçamos que o futuro é aleatório (“a Deus pertence”), acabamos sempre discorrendo sobre ele.
É difícil, hoje, acreditarmos que o que vai acontecer está antecipadamente decidido, como se estivesse escrito num “livro do Destino”, que nós, infelizmente, não podemos decifrar.
O fatalismo perdeu muito da sua capacidade de ser convincente, aos olhos dos espíritos mais críticos. Tendemos, atualmente, a crer que o futuro será o que os seres humanos fizerem dele, quer dizer, resultará das nossas iniciativas, dos nossos acertos e dos nossos erros
Por que, então, insistimos em agir como tolos e declaramos nossas pretensões e nossas previsões a respeito de um porvir que nunca podemos saber com certeza se de fato virá ?
O filósofo italiano Antonio Gramsci, em seus Cadernos do Cárcere, desenvolveu reflexões muito interessantes sobre as previsões. Para ele, prever é uma conseqüência “natural” das lutas que travamos no presente, quando nos recusamos a nos adaptar passivamente ao mundo, tal como ele está organizado.
No terceiro volume da nova e bem cuidadíssima edição brasileira dos Cadernos, pode-se ler: “é absurdo pensar numa previsão puramente “objetiva”. Quem prevê, na realidade, tem um “programa” que quer ver triunfar, e a previsão é exatamente um elemento de tal triunfo”.
As previsões são parte do desejo de quem quer modificar a sociedade, ou pelo menos algumas das suas instituições. As pessoas nunca são “neutras” no que prevêem: o que elas afirmam que vai ocorrer ou é algo que desejam ou é algo que temem que ocorra (caso em que a previsão funciona como advertência).
Gramsci ainda acrescenta que nem por isso todas as previsões estão condenadas a serem igualmente arbitrárias, gratuitas ou puramente tendenciosas. Segundo o pensador italiano, a paixão aguça o intelecto e colabora para tornar mais clara a intuição daquele que prevê. De tal modo que um sujeito politicamente “engajado”, possuído por uma paixão político-partidária, talvez tenha maiores possibilidades de acertar em alguma das suas previsões do que um economista cético.
Há cerca de trinta anos, Mário Henrique Simonsen - talentoso economista conservador - recebeu em sua casa um grupo de jornalistas de esquerda, para uma discussão que se tornou bastante acalorada e em alguns momentos até áspera.
Lá pelas tantas, depois de alguns uísques e diversas tiradas sarcásticas, Simonsen assegurou aos visitantes que a economia não comportava previsões. E indagou, desafiador: “Alguém aqui pode lembrar alguma previsão de um economista que tenha dado certo?”
Na hora, presente ao debate, me ocorreu o caso do economista marxista húngaro Jenö Varga, que previu a crise da Bolsa de New York, que de fato acabou ocorrendo em 1929. A reação de Simonsen nos surpreendeu a todos. Ele me ouviu falar de Varga e disse: “Varga era tão ruim que acertou”.
Na ocasião, considerei a frase uma piada e tratei de esquecê-la. Achei que não havia nela nada que valesse a pena usar como matéria de reflexão. Agora, entretanto, retomo a “blague”, com toda a sua óbvia unilateralidade, e vejo nela um ponto curioso.
Varga não era “tão ruim” quanto Mário Henrique pensava, mas, de fato, não era um grande economista. A Terceira Internacional, liderada por Stalin, atribuiu-lhe uma dimensão bem maior que seus méritos. No entanto, ele acertou em sua previsão. E talvez tenha contribuído para o acerto o fato de não ter sido tão conscienciosamente prudente em seu exame crítico da conjuntura econômica do final dos anos vinte.
Varga torcia tanto pela crise que, mesmo se servindo de conceitos um tanto toscos e métodos meio simplistas, conseguiu enxergar a chegada da “explosão”.
Se Simonsen estivesse vivo, eu lhe proporia o caso de uma previsão que deu certo e que foi feita por alguém que sequer era economista: o próprio Gramsci.
Embora as condições em que passou seus dez últimos anos de vida não lhe permitissem um estudo mais aprofundado da situação econômica da Itália, o filósofo previu que, terminada a Segunda Guerra Mundial, superado o fascismo mussoliniano, o capitalismo não conseguiria solucionar os problemas resultantes da desigualdade socioeconômica entre o norte e o sul do país. E qualquer olhada que se dê hoje na terra do autor dos Cadernos do Cárcere bastará para confirmar que a “questão meridional” continua a ser uma ferida aberta na realidade italiana.
Gramsci nos proporciona, assim, de certo modo, uma legitimação para falarmos do que vamos fazer no futuro. Podemos ser tolos, como dizia o Barão de Itararé. Mas a tolice dos milhares de previsões que não se realizam pode ser - excepcionalmente! - compensada por uma previsão que dá certo.

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Leandro Konder é filósofo e professor da PUC, no Rio de Janeiro.
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