Globalização em questão: revolução, reação, alternativas

Daniel Aarão Reis Filho
Especial para
*Gramsci e o Brasil*




Desde meados dos anos 70, o mundo vive um processo de amplas e profundas transformações, que se manifesta em múltiplos e variados aspectos.
No plano da produção, da ciência e da técnica, uma revolução científico-tecnológica, criando novas fronteiras econômicas, descobriu e fez descortinar campos novos de investimento, estruturando setores até então desconhecidos, e que se tornaram rapidamente os fatores mais dinâmicos da sociedade, entre os quais a informática e a biotecnologia, beneficiados pelas numerosas aplicações da revolução teórica produzida pela física quântica.
Assim como aconteceu em fins do século XIX, com a mal chamada segunda grande revolução industrial, porque, de fato, o encadeamento de mudanças radicais então realizadas, ultrapassou largamente o campo industrial, alcançando e remodelando a sociedade, a política e a cultura, os dias de hoje assistem à subversão de toda uma ordem, fundada em uma constelação de valores que pareciam firmemente estabelecidos até meados do século XX.
Na sociedade, polarizações que ofereceram os parâmetros do pensamento conservador e das propostas revolucionárias perderam peso e, sem desaparecer, declinaram de importância, como, por exemplo, as oposições entre proletariado e burguesia industrial, ou entre camponeses e senhores de terra. As grandes revoluções do século XX (russa, chinesa e cubana), que ganharam vida no terreno destas polarizações parecem hoje irrepetíveis no quadro de uma paisagem social totalmente remodelada, marcada pelo processo crescente de urbanização, pelo declínio da importância demográfica da classe operária industrial, considerada com medo (pelos conservadores) e com esperança (pelos revolucionários) durante boa parte do século passado, pelo aparecimento, com força crescente, de novas identidades sociais com implicações políticas relevantes (movimentos feministas, étnicos, ecológicos, de direitos civis e culturais, etc.).
Os estados nacionais, até mesmo os mais tradicionais, e que pareciam por isso mesmo mais consolidados, entraram em crise. Invenções das revoluções atlânticas, norte-americana e francesa, modelos políticos para o mundo ao longo do século XIX europeu, ofereceram, durante dois séculos (XIX e XX), as referências centrais para as lutas dos trabalhadores e das classes populares no mundo capitalista avançado e para as lutas de libertação nacional na Ásia, África e América ao sul do rio Grande.
No interior das fronteiras nacionais, delimitadas por elas, surgiu uma constelação de instituições, nucleadas por sindicatos e partidos políticos de massa, construídas originalmente pelas classes operárias de alguns países da Europa Ocidental, e que se disseminaram pelos diversos continentes, exemplares e emblemáticas, incontornáveis, e que desempenharam um papel vital nas conquistas sociais e políticas dos de baixo. Hoje, não gratuitamente, perderam muito de seu anterior glamour, e de sua força de atração. É que sua vitalidade foi corroída pela corrosão maior do contexto político em que se construíram e em que sempre se inseriram: os estados nacionais.
Com efeito, o programa, e a grande ambição, dos estados nacionais: a autosuficiência econômica, a soberania política e a autonomia cultural tornam-se cada vez mais difíceis de realizar, inviáveis historicamente. É sintomático que na própria Europa, um dos berços fundamentais da construção dos estados nacionais, em torno da afirmação dos quais dezenas de milhões de pessoas mataram e morreram nos últimos dois séculos, as sociedades estejam hoje sendo levadas a abrir mão de aspectos e símbolos sempre considerados essenciais à chamada soberania estatal, como é o caso das moedas nacionais, abolidas em benefício de uma nova moeda continental, o euro.
Nesta análise não há nenhum ingrediente catastrófico, ou previsões apocalípticas, que estimem para breve o desaparecimento puro e simples dos estados nacionais. Nada indica, com efeito, seu fim próximo, até porque as funções que desempenham em uma série de campos (finanças, economia, educação, saúde, justiça) são indispensáveis ao equilíbrio das sociedades existentes. Mas é impossível deixar de constatar a crise por que passam. E o lento declínio em que se encontram e, sobretudo, o fato de que deixam, progressiva e tendencialmente , de se constituir em fatores dinâmicos da sociedade mundial.
Subversão na economia, na sociedade, nas tradições de organização política. Mas também no plano dos valores e da cultura.
A lenta, molelucar e quase silenciosa revolução das mulheres ao longo do século XX, questionando tradições consolidadas que mantinham a segunda metade do céu numa posição de inferioridade e de sujeição. Os métodos contraceptivos e os programas de controle de natalidade. Os horizontes abertos pela bio-tecnologia e o questionamento de valores que pareciam inatingíveis (prolongamento indefinido da vida, clonagem, etc.). A crescente visibilidade social dos jovens e das crianças e o debate a respeito de seus direitos. A generalização progessiva da instrução. O desmantelamento das redes de convivência e de proteção familiares e sociais, o esgarçamento dos tecidos sociais, estruturados, em alguns casos, há séculos. O questionamento dos saberes tradicionais. O descrédito das religiões laicas, que propunham concepções totalizantes da história e da sociedade humana. A aceleração do tempo. A combinação de todos estes processos propõe desafios, impacta as imaginações, subverte valores consagrados.
Uma vertigem.
Em escala mundial, surgem forças e movimentos, cuja escala e escopo escapam largamente às fronteiras nacionais e à ditadura do fato nacional. No plano econômico, político e cultural, a rigor, já se encontravam operando desde fins do século XIX: o comércio internacional, a exportação de capitais, a solidariedade internacional das forças conservadoras e do movimento socialista (as internacionais de partidos e sindicatos operários), as vanguardas e movimentos literários e artísticos internacionais (a literatura universal), todos estes aspectos há muito foram considerados por pensadores e teóricos de esquerda e de direita. No Manifesto Comunista, escrito por Marx, e publicado em fevereiro de 1848, as linhas fortes de um processo de internacionalização, e a previsão de que se afirmariam com o tempo, estão desenhadas num discurso épico, preciso e belo, do ponto de vista literário.
Na época, e até meados do século passado, era próprio e adequado caracterizar estes fenômenos como inter-nacionais. Porque pressupunham os estados nacionais enquanto vetores fundamentais e dinâmicos. Estava em curso um processo crescentemente intenso de trocas e intercâmbios entre sociedades e estados nacionais, configurados estes últimos como seu núcleo e seu arcabouço básico.
Hoje, e cada vez mais, forças e movimentos se distanciam e ultrapassam o fato nacional, escapam dos controles e dos parâmetros dos estados e fronteiras nacionais. E por isso mesmo merecem ser caracterizados não mais como internacionais, mas como globais. E é adequado que o processo geral seja caracterizado como de globalização, e não mais como de internacionalização.
Global é a especulação financeira, esta nuvem de gafanhotos que trucida economias e moedas nacionais, e devasta populações e sociedades. Global é a internet, esta rede horizontal e descentralizada: uma estrutura, um formato e uma dinâmica que constituem um dos emblemas mais formosos de nossa época. Globais são as empresas que se referenciam cada vez mais em suas taxas de lucro e cada vez menos nos interesses de seus estados e sociedade de origem. Globais são as organizações não-governamentais que lutam por valores e propósitos que independem de estados particulares (Anistia, Médicos sem Fronteiras, Greenpeace, etc.). Cada vez mais globais são os encontros e reuniões mundiais (Davos e Porto Alegre) que tentam articular os interesses das elites e dos povos em escala planetária.
Sob nossos olhos, um processo revolucionário em curso. Subversão de padrões. Instabilidade. Mutações. Areias movediças. Intranquilidade, angústias, crises de identidades. Será o caos? Desafios.
As populações procuram refúgio e segurança.
Muitos descobrem ou redescobrem afinidades religiosas novas ou tradicionais. O surto dos fundamentalismos islâmicos é emblemático: negam as aventuras da modernidade, alguns querem mesmo recuar ao tempo anterior às revoluções atlânticas em busca de conforto espiritual e de uma identidade civilizacional abalada e subvertida. Há em toda a parte, para além do mundo muçulmano, um revigoramento das religiões: elas consolam e protegem, o que não é pouco no mundo vertiginoso em que se vive atualmente. No Brasil, a força adquirida pelas diversas correntes evangélicas e a redescoberta das propostas carismáticas pela própria religião católica oficial atestam o fenômeno.
Nas sociedades capitalistas avançadas, bate um vento forte de direita. As propostas fascistas e neofascistas empolgam multidões e ganham votos e atenção em toda a Europa. Nos Estados Unidos, a eleição de Bush, apesar das fraudes, é simbólica. E mesmo ali onde as direitas extremas não chegam ao governo, muitas vezes conseguem persuadir as sociedades a debater prioritariamente os temas que lhes são caros - foi o que aconteceu nas recentes eleições na França (e o mesmo já ocorrera nos EUA), onde o processo eleitoral foi basicamente condicionado pela discussão das propostas de direita a respeito de segurança e imigração.
Crispações. Reações chovinistas, quando não racistas. O medo e o ressentimento dos que se sentem ultrapassados por fenômenos incompreensíveis. O fantasma da peste fascista novamente rondando.
Até nas esquerdas é possível flagrar fenômenos análogos, como os protagonizados pela ressurgência de movimentos nacionalistas e estatistas, que pareciam adormecidos, esquecidos, mas que recobram subitamente vigor, a nação e o estado reaparecendo como quadros protetores, transferindo-se para o estrangeiro as responsabilidades pelos problemas, dificuldades e impasses. Disseminam-se apelos de união nacional, trabalhadores e capitalistas dando-se as mãos, irmanados em projetos de salvação pública em prol do bem-estar comum.
Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, em New York e Washington, as ondas direitistas radicais, a partir dos Estados Unidos, irradiaram-se por todo o mundo. Na dialética infernal construída por Bush/Bin Laden, refluíram os movimentos alternativos que denunciavam a globalização financeira, afirmando os direitos universais dos cidadãos. Em toda a parte desenvolveram-se e se fortaleceram as direitas nacionalistas e chovinistas, emblematicamente representadas pelo primeiro ministro de Israel, Ariel Sharon com suas características intransigência e truculência. Mesmo as forças moderadamente críticas pareceram encolhidas e incapazes de propor e de lutar por alternativas.
Entretanto, contrariando as previsões pessimistas e os profetas do pensamento único, recentes acontecimentos suscitam esperanças. Nos Estados Unidos e na Europa, reativam-se as manifestações críticas à hegemonia do capital especulativo. A guerra urdida pelos EUA contra o Iraque ganha oposições diversificadas, inclusive, e principalmente, a oposição das ruas. Na Alemanha, a coalizão verde-vermelha, constituída pela socialdemocracia e pelos verdes (seria mais próprio chamá-la de verde-rosa), reencontrando na última hora valores e discursos autonomistas, ganha as eleições, derrotando uma frente inspirada pelas direitas. Em Israel, os trabalhistas, finalmente, retiram-se da infame coalizão com Sharon.
Na nuestra America, um conjunto de movimentos sociais e partidos políticos na Argentina, no Equador, na Venezuela, no Chile, entre outros, oferecem resistência à preponderância de um liberalismo sem freios e contra-pesos.
É neste contexto que a vitória político-eleitoral de Lula ganha relevância. Houve, da parte da sociedade brasileira, embora de forma moderada, claros sinais favoráveis a mudanças e de crítica ao liberalismo da especulação e dos grandes bancos. Já está criada uma atmosfera de efervescência política com impacto previsível na América Latina e, em certa medida, em todo o mundo.
Como se um jogo que parecia jogado pudesse reabrir-se.
Há margens de opção: a hegemonia do capital financeiro? As crispações nacionalistas e fundamentalistas de direita ou de esquerda? A globalização informada pela cidadania mundial?
A humanidade escolherá.

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Daniel Aarão Reis é professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense.
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